"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

02 novembro 2010

O Olhar


O olhar é muito mais do que função fisiológica. 
É uma linguagem forte. É um universo carregado de sentido. É condensação do mistério do homem. Relata o destino de muita gente. Provoca alterações decisivas na vida.

Mesmo o olhar indiferente suscita reações contraditórias. O olhar é, em grande parte, a morada do homem. O universo do olhar é vasto e misterioso. 

Olhar habitação que acolhe o próximo que passava desabrigado. 
Olhar rejeição que distancia o gesto de diálogo. 
Olhar atração que cativa e envolve o semelhante. 
Olhar envenenado que espalha ameaça.

Olhar inocente que semeia simplicidade pela face da terra. 
Olhar malicioso que planta a semente da maldade no corpo dos homens. 
Olhar indiscreto que revela as intimidades humanas. 
Olhar sigiloso que arquiva quadros dolorosos e cenas humilhantes. 

Olhar atento que não desperdiça o menor sinal de boa vontade.
Olhar displicente que esquece a presença do outro. 
Olhar compreensivo que apaga os rastos dos erros. 
Olhar intolerante que espreita o deslize da fraqueza.

Olhar generoso de Cristo que abraça toda Jerusalém. 
Olhar mesquinho do fariseu que cata e filtra migalhas.
Olhar pastoral de Cristo que recupera Pedro hesitante. 
Olhar encolerizado que fulmina o parceiro. 

Olhar apelo que suplica compaixão e ajuda. 
Olhar intransigência que cobra a última gota de sofrimento. 
Olhar amor que unifica os que se querem. 
Olhar ódio que esfaqueia os que se detestam.

Olhar história que vive a evolução das construções, o fluxo das gerações, o movimento dos estilos. 
Olhar documentação que registra as clareiras dos horizontes, a floração dos campos, o sangue dos acidentes, o desesperado precipitando-se do edifício, o último aceno de quem está se afogando.
Olhar de ansiedade que fica na estrada acompanhando aquele que parte. 
Olhar de esperança que não sai da estrada, aguardando a volta do filho pródigo. 

Olhar do recém-nascido que anuncia a chegada de uma existência. 
Olhar do agonizante que procura perpetuar sua presença entre os que ficam. 
Olhar evangélico que anuncia o reino de Deus. 
Olhar céptico que recusa os sinais da esperança.

Olhar consciente que ativa a reflexão humana. 
Olhar coisificado que manipula os homens como objetos. 
Olhar libertador que retira o irmão do cativeiro moral. 
Olhar argentário que industrializa até os sentimentos humanos.

Olhar decidido que busca a realização pessoal.
Olhar evasivo que evita o encontro com a realidade. 
Olhar pacifico que reconcilia as vidas separadas. 
Olhar reticente que fragmenta a confiança.

Olhar de perdão que põe de pé a quem estava caído.
Olhar de rancor que jura vingança impiedosa. 
Olhar feroz do perseguidor, do tirano, do opressor. 
Olhar encolhido, amedrontado do perseguido. 

Mas, que grandeza nesse olhar acuado! A última resistência do homem esmagado se refugia no olhar oprimido.

Diz Levinas que o arbitrário enxerga a sua vergonha nos olhos de sua vítima. Por isso, o agressor procura destruir, eliminar o oprimido. Pois não suporta o olhar que o acusa, que o julga, que o condena.

Mas, o olhar que a arbitrariedade apaga na vida do oprimido, reacende-se na consciência do tirano como verme roedor. 

O olhar é também linguagem de Deus.

(Fonte: livro "Estradeiro" de Juvenal Arduini)