"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

07 março 2011

Confissão do Espírito de um Médico


E perdi eu a minha vida a estudar, para não saber nada!!! Como somos ignorantes!!!

O que acabo de ver é a maravilha!

Não sei que maior surpresa me causa, se o sentir-me vivo depois de morto, e reconhecer-me na posse de todas as minhas faculdades, tendo reconhecido outras que não sonhava, se vir encontrar um homem, igual aos outros homens na Terra, que pelo mais ligeiro esforço da sua vontade me chama, fazendo-me percorrer o espaço com a celeridade do pensamento, e com a leveza da luz, para vir obedecer-lhe e falar-lhe!!!

Na primeira surpresa vim encontrar uma coisa negada, e por mim julgada inadmissível; na segunda encontrei um fato não sonhado e fora de todas as minhas possíveis previsões.

E perdi toda a minha vida no estudo para não saber nada!

Nem a frenologia, nem a fisiologia, nem a antropologia, nem, enfim, nenhum dos meus mais aturados estudos “in anima vili”**, me deram jamais a noção da vida que hoje possuo!

Antes de falar com este homem*, que me serve de instrumento para eu lançar ainda sobre o papel a confissão da minha ignorância, eu estava em uma perplexa situação. Conheci que o meu corpo, aquela preciosa máquina que eu tão bem conhecia, tinha parado, e era pasto de podridão; ao mesmo tempo que me sentia livre dos sofrimentos, e vivo e perfeito! Não sabia o que era, porque a minha ciência e a minha consciência reagiam contra a possibilidade de que isso fosse uma verdade, e preferia crer que eu delirava, em um sonho singular, mas sonho somente. A voz dete homem que me falava, despertou-me dessa perplexidade; a força que a ele me atraía apesar da minha reação, e tudo mais que em sua palavra serena aprendi, concluíram a obra da morte: - o completo desabamento de toda a ciência, de todas as teorias, de todas as idéias largamente aprendidas e meditadas, e que nada abalaria ante a minha razão de homem, na vida que vejo ter deixado!

E perdi tanto tempo a aprender coisas falsas e incongruentes!!! Como sou, como somos ignorantes!!!

Gastei o melhor da minha vida a examinar a parte precária e inútil, por passageira e transitória, do homem, procurando nesse exame a descoberta da razão da vida ou da morte, sem nunca a ter encontrado; e daí a negação da sua existência.

Ridícula pretensão a minha!

Nunca me lembrei de que, ao analisar anatomicamente um corpo morto, lhe não podia descobrir a vida, porque ela o tinha abandonado!

Era como se eu procurasse analisar uma árvore ou uma planta, e lhe dissecasse, fibra a fibra, a casca e o lenho, para lhe encontrar a parte desconhecida que a fez viver! Não a encontraria, mas concluiria sabiamente que o que lhe dava a vida era a seiva; e aí pararia. Mas de onde viria a seiva? Da terra, diria ainda jubilosamente. Mas... o porquê de morrer a planta ou as árvores, continuando na terra, podendo haurir a mesma seiva que a animava enquanto tinha vida, viço e exuberância?

E o que lhe faltou para que morresse?

Quem há suficientemente sábio no mundo para que possa responder a isto?

Faltou-lhe a vida; mas o que era a vida?

O que me faltou ainda para que o meu corpo, que eu supunha perfeito e completo, fosse tomado pelo sofrimento e se deixasse aniquilar? O que lhe faltou? Que mola se lhe partiu? Que transformação o desequilibrou? Faltou-lhe a vida.

O que era a vida dele, como a vida da planta?

Porque é que parou de trabalhar quando continuava a ter tudo que o fazia trabalhar até então?

Qualquer coisa serve de pretexto para que a vida se extinga: a tuberculose, como a malária; a gripe, como o veneno; a gangrena, como a embolia; a loucura, como uma punhalada.

Tudo serve de pretexto para desculpar o desaparecimento de uma coisa que jamais se conheceu; que nunca se soube como veio, e que se fica ignorando como e porque se vai.

E tanto tempo perdi a estudar o corpo humano! Para quê? Para confessar que não sei nada, porque nunca sonhei como ele podia entrar na decomposição pútrida em que o meu já entrou, depois que eu o abandonei, como abandonaria um fato velho e repelente que já me não servisse!

O que sou eu agora? Não sei. Sei que vivo, que penso, que se refletem em mim todas as coisas boas que pratiquei na vida que deixei, e que me alegram; e todas as coisas más, que me entristecem e remordem, em assomos de pesar.

Encontro-me em um estado inteiramente imprevisto, rodeado de coisas e de pessoas estranhas; em um espaço infinito às minhas conjecturas. Não sei mais nada.

E, para que tudo seja estranho e maravilhoso, ainda se dá o singularíssimo caso de ser por pessoa estranha e desconhecida, que eu tenho a possibilidade de tracejar no papel estas impressões que tumultuam, em desordem, no meu cérebro perfeito, que reconheço sem bossas e sem circunvoluções!

Quem será e onde estará o autor de tudo isto?

Que surpresas, que maravilhas me faltam ainda ver?

(Espírito de Dr. Francisco Ferraz de Macedo - Obra: No País da Luz vol 2 )

* O espírito se refere ao médium
** In anima vili - Em alma vil (locução que se emprega a propósito das experiências científicas feitas ordinariamente em animais).

(Dr. Francisco Ferraz de Macedo foi médico e como frenologista foi muito notável, sendo autor de trabalhos considerados os melhores em português, na época.)