"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

25 maio 2011

A importância dos rituais de morte



Todo o Brasil acompanhou sensibilizado o acidente com o vôo 1907 do avião da GOL, em 2006, que ceifou tantas vidas humanas.

A comoção ante o fato e o espírito de solidariedade se fez presente e atravessou fronteiras.

Não houve quem não se comovesse e acompanhasse, através da mídia, com interesse e tristeza a busca dos corpos pela mata adentro, na Amazônia.

Cada vez que corpos eram encontrados e identificados, uma sensação de alívio não ocorria apenas com os familiares enlutados. Formou-se pelo Brasil afora uma rede de empatia. Era como se aquele morto pertencesse a cada um de nós.

Quando, dias depois do acidente, um jornal televisivo mostrou um repórter que acompanhava o enterro de um jovem, entrevistando o pai, foi bastante significativa sua resposta: “a dor é imensa, o sofrimento continua, mas a angústia da busca e a incerteza pelo encontro terminaram. Agora, pelo menos, temos o corpo para enterrar e o túmulo que poderemos visitar e onde poderemos chorar.”

A morte, fato natural de fechamento do ciclo vital e que não poupa ninguém, na maioria das vezes, nos assusta.

Quando chega trágica, ceifando centenas de vidas de forma cruel, nos deixa perplexos.

Culturalmente, não somos preparados para a morte. O corte do vínculo afetivo com o ente querido nos leva a viver o processo do luto.

Nos dias atuais, neste período pós-moderno em que vivemos, o interesse pela pesquisa e estudo do luto tem sido uma constante.

Por vários ângulos, o luto pode ser analisado: por suas dimensões psicológicas, espirituais, culturais, políticas, sociais, incluindo os rituais que podem ser entendidos como uma etapa de enfrentamento de valor para o enlutado.

Que significado têm os rituais? Para quem significam: para quem morre ou para quem sobrevive?

O ritual do enterro por exemplo, intimamente ligado à cultura de um povo e com expressão diferente conforme o lugar e a época histórica, sempre acaba por representar algo de importante.

Dá ao enlutado um sentido de segurança e conforto conforme se pode ver na resposta do pai ao repórter que o interroga: a existência de um corpo para enterrar e de um lugar para visitar.

Existe um acolhimento por trás do ritual e os serviços funerais, que se bem feitos, podem constituir um dos fatores de proteção na resolução do luto, tanto tornando mais real a perda, quanto oportunizando a expressão de pensamentos e sentimentos sobre quem se foi e criando um espaço e momento de apoio dos que vêm para as despedidas e para confortar os enlutados.

Também é bom considerar que os rituais não se limitam ao momento posterior à morte; podem ocorrer em outros períodos, permitindo a exteriorização das lembranças, a demonstração da saudade, o que pode ser salutar para o processo do luto, caso por exemplo de visitas ao cemitério.[...]

É interessante notar que, apesar de algumas transformações que vão ocorrendo no tempo, os rituais repetem as tradições de uma família, de um grupo, de uma cultura.

A importância do ritual não está em sua repetição genuína do que foi no passado nem em sua alteração para atender as necessidades do presente, mas no significado que traz, podendo ser um momento e um espaço de conforto e maior paz.

Os rituais contêm símbolos especiais. Flores, por exemplo, são símbolos comuns nos rituais.

Quem não ficou emocionado quando o helicóptero da FAB jogou do espaço, rosas brancas - uma para cada passageiro falecido do avião destroçado?

Como um ente querido que morre permanece na memória de quem sobrevive, fazendo parte de sua história, ritos e símbolos podem ter valor durante muito tempo desde que tragam para os sobreviventes um significado que os ajude a viver melhor.

(M. Aparecida V. Zaroni - Pedagoga e Psicóloga - Especialista em Terapia do Luto pelo Instituto 4 Estações / SP)