"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

01 maio 2011

O medo que nos protege


O medo é uma sensação natural própria de quem está vivo.

Ele serve como um alerta para o organismo de algum perigo ou ameaça e provoca uma reação protetora.

Sendo assim, todo mundo tem medo. Temos medo de tudo: de ser assaltado, de perder o emprego, da crise financeira, de terrorismo, de romper um relacionamento, de ser feliz, de ingerir gordura trans, de pegar gripe suína, de barata, de altura, de envelhecer, de solidão, de acidente aéreo.

E o maior de todos os medos é o da morte. Isso é assim porque temos consciência de que um dia iremos morrer.

Ao contrário do que se possa pensar, o medo não é para ser vencido ou superado, mas para ser enfrentado.

Uma das palavras que Jesus mais expressou foi “não temas”. Ele disse isso em várias circunstâncias. A ideia é de que não se deve permitir que o medo nos imobilize e impeça que tomemos as atitudes necessárias.

O medo é uma força interior que orienta as nossas ações diante de grandes tormentas.

Ele funciona como um dinamizador de nossas ações a fim de se enfrentar os desafios e superar as dificuldades. Os problemas precisam ser enfrentados, e isso não acontecerá sem medo, mas apesar do medo.

Esse é o sentido da coragem: a virtude de entender quem somos e, ainda assim, enfrentar os riscos de se atingir um objetivo maior. É uma forma de inteligência que nos ajuda a enfrentar o medo, a tomar decisões e a agir. Apesar da razão nos dizer o que devemos fazer, é a coragem que nos impulsiona a fazer.

Ser corajoso não é viver sem medo nem ser ousado diante dos perigos, mas é colocar a vida em risco por uma causa que vale à pena ou mesmo tomar a decisão de se preservar.

O covarde ou medroso é dependente de seu medo, mas o corajoso é aquele que orienta a sua ação entre a ousadia e a prudência. 


“A virtude de um homem livre se revela tão grande quanto ele evita os perigos, como quando os supera; ele escolhe com a mesma firmeza de alma, ou presença de espírito, a fuga ou o combate”, disse Espinosa.

O medo tem alcançado novas dimensões nesse tempo. Hoje, há o medo do fracasso. Em nossa cultura, aprendemos que temos o controle de nosso sucesso ou fracasso. Queremos ter o controle de tudo, do outro, dos resultados, das causas.

O resultado disso é que a culpa ganhou um novo sentido, o medo de fracassar.

Esse medo se justifica diante dos desafios e metas que traçamos para nós mesmos, quando nos perdemos em meio às exigências de superar as nossas deficiências em face da competitividade da vida. E é assim mesmo.
As oportunidades não são iguais para todos e não há espaço para todos. Mas ninguém precisa se sentir inferior por isso.

Mas quando o medo de fracassar impede a ação, temos aí um problema.

Normalmente desenvolvemos pouca tolerância com o fracasso ou com situações adversas. Esse medo nada mais é que medo de sofrer e precisa ser enfrentado.

É isso que nos leva ao medo do futuro. Se temos medo do futuro é porque temos dificuldades de suportar o presente. Enquanto o presente é o objeto do nosso conhecimento, o futuro é o objeto de nossa esperança, assim como o passado é objeto de nossas lembranças.

O presente é a realidade e o futuro é projeto, sonho, o imaginado. Enfrentar o medo no presente é a forma de encarar o futuro. Não se trata de uma superação amanhã ou depois, mas de vivenciar o agora.


Há o medo dos outros. É o sentimento que nos leva a construir muros, a classificar as pessoas entre boas e ruins, amigas ou inimigas, eleitas ou reprováveis, a adotar posturas defensivas ou agressivas, a desenvolver a desconfiança. É isso que provoca o isolamento.

Nossa confiança no outro depende de nossa capacidade de perceber o caráter das pessoas. Nesse aspecto, temos a tendência de desconfiar sempre. Não damos a chance ao outro para que se aproxime até que se prove o contrário. Não que isso seja sem razão. É que as relações de amizade têm se tornado cada vez mais complicadas.

Há o medo de crescer. É o que faz a gente pular as etapas da vida. Isso prejudica o exercício do autoconhecimento, de saber quem é, de assumir responsabilidades.

Em cada fase da vida temos medos que são muito próprios. Vagueamos durante a vida toda, segundo Erik Erikson, entre a confiança e a desconfiança, a autonomia e a dúvida, a iniciativa e a culpa, a construtividade e a inferioridade, a identidade e a confusão de papéis, a intimidade e o isolamento, a produtividade e a estagnação, a integridade e a desesperança.


Por fim, há o medo da mudança.

Mas mudar é próprio dos seres vivos. É parte do processo da vida sair de uma condição que a gente domina para experimentar uma situação nova. O problema é que temos uma tendência de nos acomodar a uma situação que seja confortável.

Estamos em busca de uma estabilidade e de certezas. E nos acostumamos em uma zona de conforto que só faz sentido para nós mesmos.

Marina Colasanti disse: “A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

Quando Jesus enfrentou uma situação de medo, ele tomou uma atitude: a oração.

Diante do medo da morte, Jesus foi ao monte do Getsêmane para orar e criou um ambiente de oração a sua volta.

Ele chamou três dos seus discípulos mais íntimos para orar, embora eles tenham dormido em todo o tempo. Dali ele saiu para suportar a traição, a tortura, o julgamento e a cruz.

O que fazer diante de situações que provocam medo? Jesus Cristo é um grande exemplo de como enfrentar o medo.