"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

25 julho 2011

Dica de Livro: “Reflexões Jurídico-Filosóficas sobre a Morte - Pronto para Partir?” - José Renato Nalini


"Na vida, só existem duas coisas certas: os impostos e a morte", disse certa vez Benjamin Franklin, um dos líderes da Revolução Americana de 1776. Mas quem está preparado para morrer?

Lidar com uma morte inesperada altera nossa forma de ver a vida e de vivê-la.

A vida ganha em intensidade e em valor se confrontada com a morte.

Pensar na morte é uma das fórmulas eficazes de conferir um salto qualitativo à vida.

É o convite que o Autor formula a quem não desanimar diante de uma reflexão que angustia.

E ao falar sobre a morte, faz com que possamos nos auto-indagar se estamos ou não prontos para partir.

Preparado para partir?
 
* * *

O desembargador José Renato Nalini, do TJ/SP, sempre se destacou como jurista de primeira linha, professor de Ética, ambientalista de larga visão, e pela capacidade gerencial demonstrada quando presidente do extinto Tribunal de Alçada.

Sempre foi um campeão da luta pelo direito e pela reforma da mentalidade jurídica (principalmente no livro “A rebelião da toga , Millenium”, 2008), uma vocação jurídica marcante, mas nada faria suspeitar que ele se dedicasse, com tamanho vagar e profundidade, ao tema anunciado no título de seu último livro, “Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte” (Editora Revista dos Tribunais, 2011).

O livro tem por subtítulo a interrogação “Pronto para Partir?” , enunciado crucial, mais eloquente que o próprio título.

Não se trata de um livro comum, em feitio de mera pesquisa acadêmica, e sim de um depoimento muito pessoal, de quem sofreu a fundo toda a dramaticidade encerrada no tema da morte, e foi pressionado intimamente a acertar as contas com a fatalidade da partida rumo ao desconhecido.

"É raro que alguém se prepare para a morte. Convivi com alguém que foi exceção. Minha mãe falou sobre a morte continuamente. Possuía numa caixa o vestido com que foi enterrada. Cumprimos sua vontade" (p.173).

Palavras reveladoras nas quais vislumbramos qual foi a mola que desencadeou o livro, e que nos transmitem o retrato do autor: um homem profundamente ligado aos valores tradicionais, excelente filho e pai de família, de formação religiosa, bom profissional, bom amigo, e meticuloso cumpridor dos rituais da piedade cristã.

Em busca do sentido da morte, Nalini passa em revista a abordagem da morte na filosofia, na medicina, na psicanálise, na religião, na literatura, onde colhe pensamentos densos e imagens belíssimas, a exemplo desta citação de Pascal Mercier, no livro “Trem noturno para Lisboa” (Record): "Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com o frescor das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. ...Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais" (p. 89).

O autor focaliza a rápida dessacralização e banalização da morte, cada vez mais despojada da aura de mistério que a envolvia no tempo das catedrais.

Chama atenção sobre a importância do luto, cita os mais diversos autores, Nelson Rodrigues, Elias Canetti, Philip Roth, Lygia Fagundes Telles, Yeats, Eliot, John Donne, Álvares de Azevedo,
Guimarães Rosa ( "as pessoas não morrem: ficam encantadas" ), e Paulo Bomfim: “No cemitério os mortos estendem aos vivos a flor do silêncio , ou os retratos dos avós são espelhos onde vivos e mortos se reconhecem” .

Nos capítulos finais, o livro, que vinha numa escalada progressiva, cresce ainda mais. Nalini termina seu mergulho no tema, falando das despedidas , das coisas a fazer antes de morrer, do medo da morte, do morrer em paz, enquanto a morte não vem, depois da morte, suas incertezas, e cita Krishnamurti. 

Indagado como ele se preparava para a morte, respondeu, singelamente: "Todos os dias morro um pouco."

E Nalini despede-se do leitor repetindo a pergunta: "pronto para partir?" E responde que para a grande viagem, "a bagagem nunca estará pronta" .

Partimos em dívida conosco mesmo.

Mas, "se a vida é curta, seu conteúdo pode ser imenso. Depende de cada qual impregná-lo de densidade, para que, ao final da jornada, toda e qualquer vida tenha valido a pena. E que a morte seja o ponto de convergência de uma bela aventura."

Ao terminar o livro, o leitor respira uma paz interior profunda, seu efeito é espiritualmente sedativo.

Ficamos depurados do medo, do pavor, da angústia, e repousamos a cabeça no seio do desconhecido como a criança pequena no colo da mãe.

(Gilberto de Mello Kujawski)