"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

19 agosto 2011

Lúcifer



Segundo a mitologia católica [...] Deus teria criado Lúcifer, na qualidade de príncipe de luz e que este depois se revoltara contra o Criador, formando um reinado adverso, e que até os dias de hoje é o senhor absoluto do mal e responsável por quase todas as desgraças que acontece aos homens.

Pelo exposto acima, dá para sentir que a luz com que Lúcifer fora dotado graciosamente pelo Senhor de nada valera.

Certamente porque não se tratava de uma conquista pessoal.

Sem o resguardo do esforço próprio em obediência a Lei dos méritos conferidos pela Evolução somos obrigados, sem outra alternativa admitir que a luz concedida por Deus a Lúcifer era falsa.

Sendo falsa a luz de Lúcifer e seus asseclas (anjos), daí perguntarmos se os anjos, arcanjos, querubins e serafins, teriam sido agraciados, também, com o mesmo tipo de luz que o Senhor dotara Lúcifer.

Se assim for, é bem provável que o "Reino dos Céus" esteja sujeito a uma nova debandada ou revolta.

Admitindo a hipótese que Deus houvera dotado de Luz a qualquer entidade, esta Luz, jamais permitiria ao seu portador qualquer espécie de sentimento inferior e muito menos apagar-se-ia como o acionar de um interruptor qualquer.

O agraciamento de Deus, jamais seria provisório.

A Luz de um espírito é o somatório dos valores e méritos, conquista pessoal que adquiriu no transcurso dos milênios.

Não há como retroagir.

É o mesmo que dizer que um homem já de idade madura, fisicamente falando, pudesse reconstituir as suas células e tornar-se jovem. A Lei da Natureza é dimensionada em todos os sentidos da evolução.

Caro leitor, analise com todo o entendimento que você tem de Deus. Vai aí uma pergunta: - Quando Deus fez Lúcifer, Ele sabia, ou não, que tudo isto ia acontecer, isto é, que Lúcifer iria, ou não, se revoltar?

Qualquer que seja a sua resposta, você ficará em maus lençóis.

Se Ele sabia, sem dúvida alguma, esse Deus é mau. Além de sair Dele uma maldade, criou um opositor, não só capaz de fazer-Lhe frente, mas sobre tudo tirando-Lhe um dos principais atributos: O absolutismo, porque em verdade passou a existir um reinado em oposição ao Seu.

Se não sabia, faltou-lhe a Onisciência, outro atributo indispensável para um Deus perfeito.

Dá para observar claramente que Deus o Todo-Poderoso, Criador de todos os seres vivos e inanimados, não escapou da ótica humana que O dimensionou com os caracteres da própria imperfeição.

Assim foram os deuses mitológicos: imagem e semelhança dos homens, sem nenhum senso de justiça, de bondade e sabedoria. "Deus é a inteligência Suprema, a causa primária de todas as coisas".

Essas crendices são frutos legítimos do abstracionismo de homens imperfeitos que se intitularam de teósofos, teólogos, cujas precariedades de seus entendimentos relacionados à Divindade estão proporcionadas às suas próprias limitações.

Não encontraram uma configuração mais nobre que pudesse oferecer a Humanidade uma idéia melhor do Senhor.

Acharam o que supunham ser... e bola pr’a frente. Afinal de contas eles acreditam ter um pouco de Deus também.

As entidades "diabólicas", tantas vezes citadas na Bíblia, são espíritos que ainda estão na retaguarda na marcha da Evolução. Têm um vasto caminho de experiências a percorrer a sombra dos milênios.
Os instintos e sentimentos negativos imperam na intimidade de sua individualidade.

Por certo as Leis instituídas por Deus os farão despertar para as realidades superiores.

Repetindo, a dor é o cinzel e em suas consciências, como na nossa, está instalada a existência do Criador, que um dia haverá de ser por todos nós reverenciada, inclusive por Lúcifer.

Imagine-se agora, caro leitor, você tendo à mão uma folha de papel branca, absolutamente branca e nela você colocasse com a sua caneta esferográfica, um pingo de tinta. Por certo a folha continuaria branca, porém, não mais absolutamente branca.

Por similitude, onde quer que seja, neste espaço incomensurável, o "reinado de Lúcifer", e por minúsculo que seja já é uma oposição a Deus; e o pior, criado por Ele mesmo. Eu não faria isto, e você, caro leitor?

Será que Deus, que é Amor por excelência, achou por bem criar o mau? – Pense e analise.

E analisando essas criancices atribuídas a Deus, reflexo condicionado da nossa ótica infantil, acabamos por criar um figurino com vários tipos de demônios, tais como: capetas, satanazes, belzebus, lúcifer, belfejor, etc. que refletem também, a nossa natureza diabólica.

Não resta a menor dúvida de que existem, entidades e lugares demoníacos.

São espíritos ainda endurecidos no mal, opção do seu livre arbítrio, que perturbam, provocando desordem por onde passam, mas não em caráter “ad-eternum’’.

São espíritos também em evolução que ainda se encontram no estágio primário da hierarquia espiritual.

Na cura de um jovem possesso, no Capítulo Fé, Jesus assevera: ‘’Esta casta de espírito não se expele senão por meio de oração e jejum’’ (Mat. 17 – 21). Casta, é um tipo hierárquico. Observando bem, caro leitor, analisando , veremos que a evolução dos seres vai desde a criação, até a dízima periódica enunciada no capítulo anterior. ( 0,999...).

Jesus determinou a expulsão do espírito mau porque tinha poderes para isto, e nós? Onde estão os exorcistas que procuram tal efeito com fórmulas cabalísticas? E que jejum é aquele a que Jesus se referia? Será que é o deixar de se alimentar por um determinado período? Isto realmente dá poderes mirabolantes? É lógico que Jesus se referia ao Jejum de ordem Moral, o máximo possível de abstinência do mal, de fundo espiritual e não de ordem material.

"A prece do justo pode muito" – disse Jesus.

Certa feita, conversando com um particular amigo Eduardo, advogado, desejoso que estava de conversar sobre assuntos espirituais, ele perguntara, logo após a leitura de um jornal, que narrava o episódio de um assalto a um determinado banco, em que uma bala perdida assassinara uma criança de oito anos.

- Explique-me, perguntou: Como é que Deus permite demônios como este conviver em nossa sociedade?
- Questão de ótica – respondi.
- Ótica?! - perguntou espantado.
Sim. Você disse que se trata de um demônio, eu sei que é um espírito cruel, mas Deus sabe que daqui há 30.000 ou 300.000.000 anos, ele será um anjo também e, do Reino dos Céus. Por outro lado, é bom lembrar que semelhante atrai semelhante, se este tipo de espírito ainda existe aqui na terra, quer encarnado ou em espírito, é porque o lado diabólico da humanidade o atrai e com ele se afina.

Como se processa a evolução dos espíritos?

Ouvimos falar de "satanases" e "diabos", eles continuam existindo. Afinal, como funciona o ciclo da Evolução?

Hoje, você poderá estar cursando uma Faculdade. Para chegar lá, encarou as séries primárias e secundárias, obedecendo aos critérios estabelecidos pela Instrução e a Cultura.

As séries primárias continuam atendendo os candidatos que chegam; por certo, estes, cursarão um dia a Faculdade que você cursou também.

Quantos "satanases" e "diabos" já passaram pelas séries primárias da Evolução? Eu, você e a maioria dos habitantes da Terra já fomos um deles (examine os vícios e as paixões que você aprendeu a dominar).

Existem muitos deles ainda, na mais variada camada social; bem ou mal trajados, todos os dias noticiam suas corrupções.

E os desencarnados?

Bem, os tipos de procedimentos poderão ser os mais diversificados, mas o maquiavelismo é o mesmo e com mais propriedade, uma vez que na condição de desencarnados, levam uma vantagem a mais.

Eles nos vêm e analisam melhor as nossas fraquezas, para melhor atacarem.

Contudo, é bom lembrar que com ou sem o corpo físico, estão sempre a perturbar. Este ainda é o seu caráter.

Do tempo de Jesus para cá, muitos já se redimiram, entretanto, outros que ficaram na retaguarda, estão chegando...

Se continuamos ainda, na titânica luta das rejeições dos erros cometidos, sem dúvida alguma, no decorrer dos milênios, sairemos vencedores.

Muitos já alcançaram a sublimação.

Quando conversamos com uma criança, procuramos um linguajar ao nível de sua idade física ou mental, visando especialmente o seu conhecimento e vocabulário, com este critério conseguiremos ministrar-lhes ensinamentos necessários ao seu aprendizado.

Quando Jesus esteve fisicamente conosco, trazendo do Pai a Boa Nova, para o nosso aprendizado espiritual, Ele não poderia fugir dos entendimentos rudimentares de nossos conhecimentos.

Daí, a razão pela qual Ele utilizara das parábolas para fazer-Se por nós entendido.

Por vezes utilizava dos nossos próprios conceitos para ministrar os ensinamentos desejados.

Em nossos conceitos e conhecimentos de há 2.000 anos, como os de hoje, certas palavras faziam parte da crença popular, tais como: - "salvação", "ganhar a vida eterna", "satanás e seus asseclas" (símbolo do mal), inferno, etc., etc.

Jesus em determinadas oportunidades utilizou a nossa forma de expressão e conhecimentos rudimentares para adentrar ao nosso entendimento.

A palavra “Geena”, que aparece nas traduções do Evangelho, e que traduzimos por ‘’vale dos gemidos’’ é empregada sete vezes por Mateus (5:22, 29,30; l0: 28: l8: 9; 23:15, 33); três vezes em Marcos (9:43, 45,47); uma vez em Lucas (12:5) e uma vez em Tiago (3:6). Nunca a encontramos em João e nem em Paulo.

Nome antiquíssimo, já apareceu no Velho Testamento desde Josué.

Tratava-se de um vale e ameno, sempre verde, mesmo quando em volta todas as árvores haviam ressecadas pelo calor. Era onde estava construído o ‘’altar’’ de Molok (ou Melek), onde eram queimadas vivas as crianças, para aplacar essa terrível ‘’Divindade’’ (espírito atrasado).

Os próprios Reis Hebreus, Manacés e seu filho Acáz ali queimaram seus próprios filhos (2. Sam. 2: 21- 6).

Contra esse costume desumano, Jeremias protestava revoltado.

O Rei Josias destruiu o local do culto, fazendo dele depósito de lixo de Jerusalém e monturo, onde se lançavam cadáveres de animais, sendo tudo queimado para não empestiar a redondeza; com a morte de Josias, o culto foi restabelecido no mesmo vale. (2. Sam. 23:29, 30, 32, e 37 e Jer. 11: 9,10).

Também Ezequiel (20: 30-31) ameaça os Israelitas por essas crueldades inomináveis.

A idéia tomou corpo, passando o ‘’vale dos gemidos’’ a simbolizar ‘’o castigo que purifica os pecadores’’.

Essa a tradição rabínica (e provavelmente popular) na época de Jesus, e daí tê-la o Mestre aproveitado para dar aos seus discípulos a idéia da purificação dos erros cometidos através ‘’do fogo do vale dos gemidos’’.

Hoje, “Geena” significa inferno. Inferno criado por nós mesmos.

Se criamos “Geenas” para nós, por que dentro de nós não existiria “Geena” também? [...]

Quando a teologia se reporta ao "Diabo", imagina-se de imediato, o senhor absoluto do mal, dominando um inferno sem-fim.

Na concepção do aprendiz, a região amaldiçoada localiza-se em esfera distante, no seio de tormentosas trevas....

Sim, as zonas purgatoriais são inúmeras e sombrias, terríveis e dolorosas.

Entretanto, consoante à afirmativa do próprio Jesus, o Diabo partilhava os serviços apostólicos, permanecia junto dos aprendizes e um deles seria representação do próprio gênio infernal. 

Basta isto para que nos informemos de que o termo "diabo" não indicava, no conceito do Mestre, um gigante de perversidade, poderoso e eterno, no espaço e no tempo.

Designa o próprio homem, quando algemado às torpitudes do sentimento inferior.

Daí concluímos que cada criatura humana apresenta certa percentagem de expressão diabólica na parte inferior da sua personalidade.

Satanás simbolizara então a força contrária ao bem.

Quando o homem o descobre, no vasto mundo de si mesmo, compreende o mal, dá-lhe combate, evita o inferno intimo e desenvolve as qualidades divinas que o elevam à espiritualidade superior.

Grandes multidões mergulham em desespero seculares, porque não conseguiram ainda identificar semelhante verdade.

E comentando essa passagem de João somos compelidos a ponderar: "Se, entre os doze apóstolos, um havia que se convertera em diabo, não obstante a missão divina do círculo que se destinava a transformação do mundo, quantos existirão em cada grupo de homens comuns na Terra?”.

E o "Diabo" teve remorsos por haver traído o Mestre, arrependeu-se... e chegando ao desespero enforcou-se.... Afinal, o diabo arrepende-se ou não? Se arrepende-se por que não ascender , também, ao curso da evolução ?

Não tenha dúvida, caro leitor, que Jesus depois de ter-se desprendido da cruz, tenha procurado socorrer a Judas Iscariotes, em sua miserabilidade espiritual.

Atente bem, caro leitor, põe o seu raciocínio para funcionar e procure descobrir o que é satanás e onde é o inferno.

Já não está muito difícil de concluir...


*Extraído do livro “Ovo de Colombo” - Milled Assed

(Sérgio Ribeiro)