"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

05 janeiro 2012

Sobre o Sheik Al-Kaparr



Há cerca de 5 anos surgiu nas telas da Internet, mais precisamente nas salas de bate-papo do UOL, uma figura misteriosa, a um tempo séria e brincalhona, que quase se transformou numa lenda ou numa fábula do deserto junto a todos aqueles que com ele dialogaram.

As opiniões sobre este estranho personagem virtual se multiplicaram e algumas delas colidiram umas com as outras.

Quem era ele, afinal? Um louco, um aventureiro, um conquistador? Seria esotérico, espírita ou tão somente um espirituoso? Ou, talvez, um pobre coitado querendo chamar a atenção sobre si mesmo?

Como é natural, homens e mulheres das mencionadas salas passaram a se indagar quem seria realmente esta figura impoluta, que ora falava a linguagem dos deuses, ora parecia um discípulo de Voltaire ou Bocage sem dizer palavrões?

Como definir sua verdadeira personalidade e, mais do que isso, como posicionar o contraste entre o que escrevia e o que parecia revelar nas salas?

Todas as pessoas são dadas a fantasias e, por isso, fazem da imaginação a louça da casa. Como o sheik falava muito em sua tenda, logo a imaginaram de um luxo requintado com tapetes e almofadas de cetim espalhadas pelo chão, cortinas diáfanas penteadas pelo vento e, no centro, bebericando o seu leitoso árak, o dono da tenda a fumar placidamente um colorido narguilé.

Na parte de trás os mais imaginosos vislumbraram o véu colorido das odaliscas agitadas e os mais
delirantes chegaram a ouvir suas risadas nervosas por não saberem quem seria chamada primeiro para os prazeres sexuais do sheik. Seria o sheik parecido com Lawrence da Arábia? Ou um fogoso Casanova de turbante?

Além do mistério da tenda outras pessoas se encantaram com o que ele dizia sobre os mistérios da Esfinge e sobre o encanto das areias douradas do deserto.

Muitos leram o que ele escreveu, mas nunca chegaram a entender direito qual era a sua mensagem. Interessava-lhes saber quem era esse sheik misterioso, por vezes romântico, por vezes sarcástico, que sempre entrava nas salas de bom humor e que, mesmo discutindo pontos de vista contrários aos seus, dava aos debates uma desconsertante pitada de humor.

Seria um homem de paz ou um truculento e calculista contestador? Seria meio xiita como seus atuais irmãos do Oriente Médio ou pertenceria a outra tribo muçulmana? Mais importante ainda: seria muslim ou apenas um brasileiro brincalhão fantasiado de árabe antes do Carnaval?

Poucas pessoas conheceram o sheik pessoalmente, mas mesmo essas ainda não o conhecem direito, porque ele oculta muito mais do que revela. Por trás de seu aparente bom humor esconde-se alguma coisa indefinida que só seria revelada se as brumas que o envolvem fossem dissipadas.

De onde ele tirou seus conhecimentos? Que escola segue? Que religião professa? Será realmente universalista como se confessa ou, apenas, alguém que fez de todas as doutrinas uma espessa vitamina colorida? Será um mago branco? Será um mago negro? Que objetivo pretende atingir com esse mistério todo?

Visitamos o sheik em sua "tenda" mirabolante e com ele tivemos uma entrevista, que ele concedeu ora rindo, ora assumindo um ar muito sério. Não desvendamos o mistério do sheik, mas foi mais ou menos isto que ele revelou, ficando mais uma vez a cargo dos leitores tirar suas conclusões:

"Não tenho religião nem pertenço a qualquer seita ou colégio de magos. Meus pilares místicos eu os tirei da Terra dos Deuses e da Terra dos Homens, pois muito se machucará quem não haurir concomitantemente forças e conhecimentos dessas duas fontes. Não faço escola nem quero discípulos.

"Tudo que digo ou escrevo é fruto de minha experiência pessoal e ninguém deve sentir-se obrigado a seguir minhas idéias. Sou um livre pensador. Adotei o apelido de sheik porque sou, como todos, um beduíno da vida, mas não um vagabundo das areias. Tanto encontrei oásis maravilhosos em minha peregrinação como fui vítima das mais enganosas miragens.

Em ambas as circunstâncias aprendi lições valiosas que procuro passar a meus companheiros de jornada. Fiz do AMOR, depois de conhecer o desespero do ateísmo, a minha pedra angular e, assim fazendo, atingi a Sagrada Compreensão que reconhece em todo os credos uma forma de caminhar sob medida para a fusão com Brahma.

"Vivemos num planeta de provas e, como alunos, tudo devemos fazer para passar de ano. Cada um conseguirá, algum dia, libertar-se de seus apegos e ilusões. Isso demanda tempo e muitas vidas de aprendizado. Ninguém deve ter pressa, porque o amadurecimento espiritual, imitando a Natureza, não dá saltos. Tudo virá no seu devido tempo, porque os relógios jamais marcarão meio-dia antes que o sol nasça de novo e os ponteiros sigam o seu percurso rotineiro.

Cada fato da vida, doce ou amargo, é um retalho precioso, uma experiência única, na colcha de retalhos da existência em carne. Tudo é válido e tudo é lição, até o corpo estraçalhado no meio das ferragens de um carro destruído na beira da estrada ou a incômoda dor de barriga que sucedeu ao nosso excesso gastronômico. A vida é feita de lágrimas e sorrisos. Nada mudará isto, chame você isto de karma, destino, praga, azar ou maldição.

"Revelo a meus companheiros o que aprendi, procurando, com isto, fazer com que errem menos. Nem sempre essa tentativa rende bons frutos, pois nunca se sabe onde a semente lançada ao vento encontrará solo fértil para germinar.
Correremos sempre o risco de jogar pérolas aos porcos... Mas são exatamente esses "porcos" que demandam mais a nossa atenção e que precisam de um número maior de pérolas. Portanto, minha lei é semear sempre, sem esperar resultados, ainda que no meio de "porcos" integrantes da vara de MAYA.

"Deus poupa o mundo de desgraças maiores examinando atentamente a soma dos sentimentos positivos que os homens de fé abrigam em seus corações e deixam fluir por suas mãos. A todos nós Ele deu um guia, um mentor, um aliado para as horas difíceis, um "anjo da guarda" ou uma voz silenciosa que vibra reluz e fala nas mais recônditas dobras da alma.

Ele nos deixa livres para ser bons ou ser maus, profundos ou superficiais, eloqüentes ou gagos, mas não nos deixa nunca desamparados. Assim, cada homem plasma o seu destino e sela a sua própria sorte. A amarga taça da dor e as vibrantes chicotadas da vida abrem os nossos olhos e nos mostram a realidade que escondíamos ou não queríamos ver com o manto da nossa fantasia.

"Está ainda por ser feita, pelo menos pela maioria dos homens, a mais atrevida e a mais vibrante das descobertas: o conhecimento de si mesmo. Não descobriremos isso nem pela viagem astral, nem pelo frio depoimento das sondas espaciais, nem pela leitura ou a pesquisa de grossos tomos da história das religiões. Isso não nos acrescentará nada em termos espirituais, a não ser um transitório verniz de cultura. Seremos profundos conhecedores da trajetória do bicho-homem através da História, mas jamais conheceremos, por esse meio, a misteriosa e desconsertante saga das almas.

"Ainda está por ser promovido o mais solene dos encontros: o encontro com nós mesmos! Se não nos conhecermos, jamais conseguiremos conhecer os outros, as coisas, os mundos e seres. Todos precisam de um tipo de "ioga" (união com Deus) para esse conhecimento.

E duras provas aguardam aqueles que ousarem esse santo e supremo atrevimento, porque, seja qual for o Mestre escolhido como modelo, será preciso, depois da identificação com ele, seguir as suas pegadas e essas pegadas levam sempre à renúncia, à compreensão e ao desapego, ou seja, um tripé que gera muitas dores, decepções e lágrimas ocultas na solidão da alma.

"Os ensinamentos e sugestões que apresento aos que me ouvem ou lêem eu os hauri da Verdade Universal, que, apesar de imutável em sua essência mais íntima, sofre pequenas ou grandes deformações através dos diferentes e múltiplos credos que a procuram trazer aos homens.

Quando falo ou escrevo ofereço aos leitores ou ouvintes uma súmula do que aprendi ao longo do Caminho, poupando-os assim de apelar para livros enganosos ou depoimentos truncados. Ofereço-lhes, portanto, uma síntese do que aprendi, procurando queimar algumas poucas etapas de uma busca que não terminará nunca por ser eterna: a busca de si mesmo.

"Sei que, às vezes, digo coisas que incomodam ou causam mal estar. Isso é inevitável, principalmente para os principiantes e os apressados. Nem sempre posso oferecer aos que me ouvem ou lêem um delicioso suco de tâmaras. Vez por outra é necessário passar uma verdade mais ácida ou um conhecimento mais amargo.Tudo sempre vai depender de quem ouve ou de quem lê. O que é doce para um pode ser amargo ou insuportável para outro.

Somos todos iguais perante Deus, mas desiguais em termos de evolução espiritual. Os mais adiantados entenderão a mensagem imediatamente, enquanto os menos burilados começarão a dar nítidos indícios de inquietação ou alvoroço.

"Não procuro denegrir o valor dos estudos empreendidos pelos que se especializaram no estudo de religiões comparadas, nem poderia fazê-lo porque sei as analogias descobertas podem conduzir os mais atentos à sublime percepção de que tudo é uma coisa só vestida com diferentes roupagens. No entanto, desaconselho leituras desordenadas, muitas delas oriundas de autores que apenas repetem o já sabido ou criam novidades de acordo com os últimos apelos da esfarrapada espiritualidade que nos cerca.

Tampouco posso aplaudir os que sabem tudo sobre , por exemplo, os Templários, os Martinistas, a Maçonaria ou que mergulharam nas brumas de Avalon, mas tudo ignoram sobre si mesmos ou que em nada refletem, em suas vidas diárias, a lição dos Grandes Mestres.

Por que buscar os mistérios da Lemúria ou da Atlântida, tirar conclusões extraordinariamente inteligentes sobre o s reinos egípcio, hitita e sumério, se esse conhecimento nada nos acrescentará espiritualmente, mas apenas servirá para polir os metais da nossa vaidade intelectual? Um homem, por exemplo, que tivesse memorizado todas as informações sobre a Bíblia ou o Alcorão seria, por causa disso, um bom cristão ou um bom muçulmano? Recitar com dramática habilidade os versos de Omar Kayan desvendaria as sutis lições sabiamente ocultas nas entrelinhas das Rubáyatas?

"Infelizmente topamos, a cada passo, com irmãos nossos que são verdadeiras enciclopédias ambulantes de cultura, mas cuja cultura os levou ao ateísmo ou a uma equivocada noção do que vem a ser Deus. São pessoas cultas - não negamos! - mas de uma desconsertante pobreza espiritual.

Essas pessoas surgem aos borbotões e nas rodas de bate-papo reais ou virtuais despejam o conteúdo de seus cântaros com a mesma ânsia com que uma porca oferece as tetas a seus porquinhos. No entanto, via de regra, embora precisos historicamente, o seu leite só alimenta o corpo, mas deixa o espírito morto de fome. O alimento do corpo é importante, porém duplamente importante é o alimento da alma, pois será por meio dele que, como Filhos Pródigos, voltaremos à Casa do Pai.

"Discordo de quem diz que está na hora de desvendar todos os segredos, rasgar todos os véus e de abrir todas as portas a uma humanidade como esta que vemos no mundo todo simplesmente porque já entramos no III Milênio. Sim, nós entramos no III Milênio, mas e daí? Que progressos morais e espirituais estamos refletindo em todas as sociedades do mundo? Carcomidos pela droga, embalados pela cobiça, orquestrados pela violência e alucinadamente apaixonados pelo sexo livre,
praticado com excesso pelo puro prazer que ele proporciona, estaremos melhores, em nosso século, do que em séculos anteriores?

O que foi que mudou de realmente importante em nossas vidas? Que mudanças foram efetivamente operadas em nosso foro íntimo, se ainda há fome, se ainda há guerras, se ainda proliferam homicídios, latrocínios e estupros ao redor de todo o planeta? Que mérito acumulou essa humanidade ensandecida de nosso tempo e de todos os tempos para que lhe sejam reveladas verdades perigosas nas mãos da incompetência?

"Os pobres de ontem ainda são os pobres de hoje. A caridade continua sendo praticada a varejo, mas a maldade viceja no mundo por atacado. Os ricos de antanho não diferem muito dos ricos de hoje, que criam quistos de fartura e bebem sofregamente por sobre as cabeças daqueles a quem ofereceram um trabalho escravo ou mal remunerado. A má distribuição da riqueza continua galopando nas campinas do mundo e os desníveis sociais continuam cada vez mais intensos. Ainda se morre de fome. Ainda se morre de sede. A repetição de grandes guerras tem sempre um ou dois estopins acesos e o mundo, como se fosse um imenso paiol de pólvora, está sempre à mercê de perigosos rastilhos.

Ainda existem o cárcere privado e as torturas de toda ordem. O tráfico de drogas e de armas é tão intenso quanto o tráfico de escravas brancas, a maioria delas de jovens ou adolescentes, arrebanhadas para serem sexualmente exploradas no lenocínio permitido das grandes metrópoles. As consciências continuam tendo o seu preço e a corrupção política e moral prossegue açoitando a humanidade com o chicote da vergonha.

Hoje ricos e pobres roubam ou se vendem como nunca em busca de gordas ou magras propinas. A corrupção grassa no mundo de alto a baixo, sem respeito de classes sociais. Tanto é desonesto aquele que está no governo como aquele que geme num barraco. E a ausência de Deus é o grande maestro dessa melancólica verdade.

"É olhando para esse quadro dantesco e compreendendo que ainda não terminamos de viver a KALI YOUGA que o SHEIK AL-KAPARRA produz os seus textos a um tempo espirituais e sociológicos. Sim, porque não adianta entender nada de Espiritualidade sem entender, pelo menos um pouco, de Sociologia.

Não de pode ficar alheio ao mundo material, tapando o sol com a peneira, e só cuidar das coisas de Deus sem praticar um ato de profunda injustiça. Precisamos conhecer profundamente o estado do mundo antes de conhecer profundamente a imagem do paraíso, os contornos do samadhi ou os interessantes aforismos de um credo poético. Uma coisa não fica completa sem a outra...

"Aprendi com um de meus mestres, o saudoso MALBA TAHAN, que se pode aprender qualquer coisa brincando. Isso explica meu espírito brincalhão nas salas de bate-papo e em sociedade, provocando, depois de uma breve preleção séria, um coro de gargalhadas. O humor marca os ensinamentos e se transforma num poderoso aliado. Saber usá-lo é uma arte na conversação e um trunfo a mais para o êxito.

"Um dia, sem mais nem menos, desaparecerei do atual cenário do mundo, mas para trás ficará tudo que escrevi, bem como a memória, mesmo fragmentada, de tudo que fiz ou deixei de fazer, inclusive o conteúdo de minha HP. Consolo-me, no entanto, pelo fato de saber que outros nascerão neste mundo com as mesmas idéias e os mesmos ideais. Como passageiro do vento devo ceder meu lugar a outros passageiros que aqui virão ter para cumprir missões iguais ou semelhantes. Os leitores e leitoras que sobreviverem aos meus dias poderão sentir isso com vibrante realidade quando ouvirem tudo que disse pela boca de outro missionário. Sim, porque o vento leva e traz todas as coisas que, mesmo isoladamente, contribuem para o aprimoramento interno do ser humano, tirando-lhe a venda dos olhos e revelando-lhes o que, por vezes, não revelariam nem a si mesmos. E a Verdade revelada é e será sempre a mesma através dos séculos."

* * *

O sheik calou-se e respirou fundo enquanto seus olhos se perdiam na imensidão do céu estrelado.
Havia naquele olhar um misto de respeito e saudade muito secretos.
Ele sorriu para mim e saudou-me à moda árabe. Estava terminada a entrevista e senti que ele não diria mais nada naquela noite. Notei, no entanto, já na porta da tenda, que seus olhos disfarçavam algumas lágrimas secretas. Procurei aproximar-me novamente, mas ele, com um silencioso gesto, pediu que eu não interferisse nos seus sentimentos.
E estas foram sua últimas palavras olhando para o céu estrelado:

"Ali é a minha verdadeira pátria. A saudade é muita, porém maior do que ela é a minha piedade por aquilo que meus irmãos fizeram do mundo. Serpenteando entre aquelas estrelas acham-se os riscos luminosos de todas as minhas esperanças e repousa o meu ideal de, um dia, mesmo que não esteja mais aqui, ver que os homens recuperaram a sua rota e já podem caminhar por si mesmos, levando Deus no coração em gloriosas procissões que reúnam todos os credos, todas as raças e todos os deuses que, somados, formam a simplicidade do Deus Único."