"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

03 fevereiro 2012

A Espiritualidade em Jung


Carl Gustav Jung (1875//1961) foi um psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana.



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O Chamado do Além

O primeiro objeto de estudo que despertou o insaciável interesse intelectual de Carl Gustav Jung, foi o que se denominava em sua época de Fenômenos Ocultos.

Dividido entre uma rigorosa educação protestante dada pelo pai e o mundo mágico de comunicação com os mortos, herança do universo esotérico da mãe, o pequeno garoto cresceu nesta estranha atmosfera, cujos efeitos sobre sua saúde física e mental foram devastadores.

Durante anos sofreu de pseudo-crupe, machucava-se constantemente e pelo menos uma vez teria feito uma tentativa de suicídio, inconscientemente, quando escorregou pelas frestas de uma ponte sobre um precipício. A baba o salvou.

Anos depois, no início da Universidade, teve seu interesse voltado para o mundo silencioso e misterial dos fenômenos transpessoais.

Dois eventos inexplicáveis ocorridos em sua casa, foram a gota d’água para que calouro de medicina acreditasse que tais sinais eram um explícito chamado do mundo do além. 


Uma resistente mesa de nogueira se partiu ao meio e uma faca espatifou-se em quatro pedaços! 

Nos dois casos, Jung e a família materna não conseguiram outra explicação para o estranho acontecimento a não ser a decidida intromissão do mundo sobrenatural na rotineira realidade de suas vidas.

A partir daquele dia o jovem Jung decidiu organizar uma série de sessões espíritas em sua própria casa.

Religiosamente os encontros eram promovidos aos sábados a noite, reunindo a mãe, alguns convidados especiais e a estrela do espetáculo, sua prima Hélèn Preiswerk. 




Induzida por ele ao transe, a jovem menina - tinha 13 anos na época - incorporava um sem número de entidades que aguardavam, ansiosas, o momento certo para exibir-se.

O leque de manifestações era amplo: do mais sofisticado espírito de luz até aqueles que só conheciam a escuridão e o mundo das trevas.

Mais tarde o sóbrio Eugen Bleuler, diretor do mundialmente famoso hospital Psiquiátrico de Burghölzli, sugeriu a Jung que transformasse as suas pesquisas com a médium Hélèn no objeto de sua tese de doutoramento.

A oferta foi prontamente atendida. E assim surgiu o seu primeiro grande trabalho Psicologia e Psicopatologia dos Assim Chamados Fenômenos Ocultos.


Fenomenos Paranormais na Visita a Freud

Na primeira visita que fez a Freud em Viena, após conversarem por mais de 13 horas ininterruptamente, ele sentiu uma poderosa força comprimindo seu diafragma. Alguma coisa não estava bem.

Subitamente um grande barulho se fez ouvir. Eles se assustaram. Parecia que a estante onde Freud acomodava seus livros iria desabar.

Carl Jung, que tentava convencer o colega de Viena da realidade de forças transpessoais atuando na realidade deste mundo, não perdeu tempo. Interpretou o fenômeno como uma “exteriorização cataléptica de energia”.

Com um meio sorriso no rosto, advertência explícita que não iria se deixar influenciar pelo obscurantismo suíço, Freud sacudiu a cabeça pesarosamente e rebateu o apressado entusiasmo de Jung. Tudo era tolice. O armário estava velho e poderia despencar a qualquer momento. Não apenas os homens fadigam e morrem,. As coisas também.

Neste combate mítico, onde um dos heróis é o personagem transcendental, ligado ao mistério e as forças incomuns e seu opositor encarna a dura e tediosamente realidade cotidiana, repetida sempre e invariavelmente da mesma forma, Jung se sairá melhor.

Pelo menos neste episódio em Viena.

Enchendo-se de coragem, ele diz: : “O senhor esta enganado, doutor, e para provar que tenho razão aviso previamente que o estampido ira se repetir.” 


Freud o olhou estarrecido. Mal podia acreditar que o filho que o sucederia na cruzada Psicanalítica continuasse envolvido com esses fenômenos que ele deplorava e dos quais não queria se aproximar, pouco menos ver as suas teorias envolvidas neles.

O “Psicologia e Psicopatologia dos Assim Chamados Fenômenos Ocultos”, não teria sido suficiente para o nebuloso esoterismo de Jung?

Ainda assustado, ele esperava que a profecia junguiana se consumisse. 


Enquanto aguardava a manifestação do além pensou em Jung como um psicótico que acreditava em espíritos e, o que era pior, conversava com eles, recebendo suas mensagens e avisos. Se tudo falhasse, então era sua vez.

Com um golpe mortal devolveria os perturbados espíritos de Jung de volta para o lugar de onde nunca deveriam ter saído: a sua rica imaginação.

Mas aquele não era o dia de Freud.

Para seu desespero o estampido se fez ouvir mais uma vez. 




O Projeto Paranormal ou Projeto Infinito

Por toda a vida Jung nunca perdeu o interesse pelos fenômenos paranormais ou estados holotrópicos de consciência.

No entanto, ninguém sabe ao certo o que pensava realmente sobre isso. Nunca se manifestou claramente. Ora dizia uma coisa, ora outra. Quando jovem, acreditou que esses fenômenos fossem exteriorização da psique. […]

Com mais de oitenta anos, andou dizendo que não mais apoiava seu ponto de vista do passado.

Olhando através dos anos e de suas assombrosas vivências interiores foi capaz de assumir o que sempre soube, mesmo quando era apenas um menino pobre, vitimado por terror noturno e com todo o corpo tomado por feridas: existe uma realidade transpsíquica, para além do ego e do inconsciente. Nós não somos só o que a razão nos diz.

O projeto humano rompe as barreiras do tempo e projeta-se rumo ao infinito, ao cosmos, a Deus.

E Deus, não limita-se a ser somente “Deus-em-nós”, como um Deus psicológico, engendrado a partir das profundezas da psique.

É também Deus que nos atinge de fora. Sem aspas. Temos que a psique cria o mundo, mas antes dela, alguém com uma “psique” ainda maior, a plasmou. E nem se necessita da fé para admitir esse princípio.

Os estados holotrópicos de consciência confirmam que a vida cotidiana é permeada em todos os seus contornos por uma outra vida não sujeita à corrosão.

Tal existência é transpessoal.

Dizer isso é afirmar a realidade da transfiguração e abolir definitivamente as fronteiras entre espírito e matéria.

Sem saída e evitando vestir a fantasia de “místico” que os freudianos costuraram sob medida para ele, buscou as novas teorias da física quântica e em W. Pauli, Nobel de física, apoiou suas pesquisas sobre os fenômenos da sincronicidade.

O livro autobiográfico “Memórias, Sonhos, Reflexões” é, no fundo, o resumo de uma vida tremendamente marcada por incompressíveis fenômenos que a ciência ainda hoje não consegue decifrar. [...]


(José Raimundo Gomes)


Fonte: http://www.psicologiapravoce.com.br/textopsi.asp?nr=717