"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

25 março 2012

Dica de livro: “Do outro lado do Espelho” – Carlos Bacelli / Espírito Inácio Ferreira


Deixei, por fim, o corpo em conseqüência de grave crise de enfisema pulmonar.

O cigarro, ao longo do tempo, fizera o seu trabalho.

Haviam sido inúteis todas as minhas tentativas para deixar de fumar. Nos últimos dias, porém, eu nem podia falar em cigarro.

Creio que tudo fazia parte de uma preparação para que, além da morte, o desejo de fumar não me atormentasse.

Digo-lhes, no entanto, que tive de lutar muito; vezes sem conta levava a mão aos bolsos, procurando os cigarros de palha que costumava guardar no jaleco.

Desencarnar é operação das mais simples; difícil é esquecer os velhos hábitos.

Confesso-lhes que, de certa forma, eu me sentia perdido, hesitando entre partir e ficar. Não era tanto apego aos bens, que eu sabia não mais me pertencerem - eu havia me despojado de quase todos eles ainda em vida -, mas a insegurança de quem se sente numa encruzilhada.

Nos momentos de agonia, enquanto tentava respirar com o auxílio do balão de oxigênio, via diversos vultos ao meu lado, semblantes amigos que eu podia identificar; todavia, nos recessos do ser eu me sentia a sós - a sós com o que eu fizera de mim mesmo, ao longo de uma existência que poderia ter sido mais profícua.

Sentindo que não adiantava continuar resistindo, encorajei-me nas preces dos amigos que oravam em silêncio, ao redor do meu leito, e entreguei-me.

Pude notar quando os laços que me mantinham preso ao corpo se afrouxaram. A consciência entrou numa espécie de turbilhão e senti-me caindo para dentro de mim.

Imagens de mim mesmo começaram céleres, a desfilar diante dos olhos que eu havia cerrado para o mundo.

O conhecimento espírita adquirido a peso de ingentes sacrifícios me assessorava na inevitável introspecção.

Sem exagero, afirmo-lhes que a minha condição de médico psiquiatra de nada me valeu naquela hora: sequer me veio à lembrança, em forma de socorro, pelo menos uma das teorias dos grandes luminares da Psicanálise.

Um medo cada vez maior da verdade - do confronto inevitável comigo - foi, aos poucos, se apossando de mim. Eu não havia sido tão benemérito quanto me consideravam!

A considerável distância, mas como se ainda permanecesse de ouvidos colados ao corpo, pude escutar quando o médico chamado às pressas, sentenciou: —Acabou!

Quando eu o ouvi dizer que tudo estava consumado, comecei, estranhamente, a me sentir mais leve ainda.

Eu me compararia, naquela situação, a uma pluma soprada em rodopios pelo vento. Onde estaria o chão, que eu não conseguia tocar?! Devagar fui me tranqüilizando, buscando concentrar esforços na oração. Eu me sentia frágil - mais frágil do que propriamente enfraquecido.

Instante algum, eu perdera a consciência; sem dúvida, mais tarde, me entregaria aos braços de indispensável sono reparador, mas, querendo observar tudo, eu me mantinha alerta. Queria experimentar por mim todas as fases do fenômeno.

O que conhecia, à exaustão, na fértil bibliografia espírita, desejava saber por mim mesmo. Afinal, segundo creio, aquela era a primeira vez em que deixava o corpo com alguma lucidez.

Cansara de doutrinar espíritos nas sessões de desobsessão, que desvinculados da vida física, não conseguiam se situar no espaço e no tempo.

Não quero exauri-los com as minhas narrativas e procurarei ater-me apenas ao essencial. Talvez quem esteja lendo estas palavras formule o questionamento: —Mas o quê? O grande Inácio Ferreira embaraçado depois da morte?! Inacreditável!

(extraído do livro “Do outro lado do Espelho” – médium Carlos Bacelli/ Espírito Inácio Ferreira)

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Eis um pequeno trecho do livro.
Durante a leitura, vemos Dr. Inácio Ferreira com sua linguagem simples, direta e com seu bom humor característico...
Recomendadíssimo!...