"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

30 março 2012

Mal de Alzheimer



Alzheimer é uma doença degenerativa e, até o momento em que transcrevo, incurável para os encarnados.

Para cada enfermo, ela acontece de forma única, embora existam pontos comuns, como a perda de memória e desligamento da realidade, chegando à privação das funções motoras.

Como estamos vivendo mais tempo na matéria física, com muitas maneiras de cuidar melhor do corpo, certas enfermidades, ocasionadas pelo envelhecimento, ficaram agora mais em evidência.

Ressalto que a nossa vestimenta carnal se desgasta e temos de ter ainda, infelizmente, motivos para mudarmos para o Além. E doenças podem surgir pelo envelhecimento e desgaste dos órgãos.

Espiritualmente, podemos explicar as enfermidades pela lei da ação e reação e pelo abuso.

Elas também podem ser uma prova: enfermar para se certificar de que não reclamaria ou de que trabalharia para o bem mesmo sentindo dores.

Ficamos doentes por muitos motivos.

Somente teremos saúde em todas as fases da vida encarnada, infantil, adulta e na velhice, quando formos espiritualmente sadios.

Entrevistei Antônio, conheci-o encarnado e temos uma grande afinidade: a literatura espírita.

Ele adoeceu nos últimos anos de sua vida física, teve Alzheimer.

Desencarnou com o merecimento de ser acolhido por diversos amigos e familiares e, dias depois, estava sadio e conseguiu se livrar dos sensações de sua roupagem física facilmente.

Nosso encontro foi agradável, rever os amigos e estar com eles são momentos de ternura que nos alegram e pelos quais não podemos deixar de agradecer.

– Antônio – pedi –, fale um pouco de sua doença.

Doenças nos trazem padecimentos – Antônio atendeu-me tranquilo. – Idosos sempre sentem diversas dores. Sofrer tendo consciência, raciocinando, é uma coisa; o cérebro não estando bem, não conseguindo raciocinar, é outra.

Para mim foi muito pior. Fiquei muito triste, preocupado, quando comecei com os esquecimentos.

Familiares também se reocuparam, minha doce esposa tentava me animar, consolar, dizendo que não era grave, que todos tinham esquecimentos etc.

Resolvi, para não deixá-la mais preocupada e triste, concordar. E fui piorando.

Meu espírito não estava doente, graças a Deus, e queria comandar o corpo.

Uma comparação: o corpo era um barco, o espírito, o leme, e a peça que os une estava quebrada, não obedecia ao comando.

Ainda bem que quando o corpo doente dormia, meu espírito, vestido com o perispírito, saía, encontrava-se com amigos e conversava com familiares encarnados que também se afastavam de seus corpos físicos.

Dessa maneira, me refazia.

– O que essa doença significou para você? – perguntei.

– O corpo físico adoece independentemente da nossa vontade e não temos escolha. A enfermidade, a dor, foi para mim uma grande mestra. Compreendo agora que, mesmo me esforçando para vencer minhas tendências nocivas, ainda restava um bocadinho de vaidade.

Sentia um orgulho indevido por ser bom, não ter vícios, cumprir com meu dever, de ter conhecimentos que eram e continuam sendo importantes para mim.

Sofri por ser privado temporariamente disto tudo.

Compreendi, pela dor, que tudo o que nos foi dado pode ser retirado, mas se algo foi adquirido pelo estudo, por esforço próprio, ficar sem isso por algum tempo não significa que o tenha perdido. 

Recuperei aquilo de que havia sido privado da melhor maneira possível, sem a réstia da vaidade e com muita gratidão aos familiares que cuidaram de mim com muito amor e dedicação.

– Como foi sua desencarnação? – quis saber.

– Não vi meu desligamento – respondeu Antônio.
Não notei nenhuma diferença. Senti-me melhor e vi amigos. Mas como sempre os estava vendo, não percebi que meu corpo físico havia parado suas funções.

Dormi alguns dias e acordei num local que não conhecia, fiquei confuso, não sabia se estava sonhando ou não.

Conversei com amigos e eles me explicaram que meu envoltório carnal morrera.

Não sentia nenhum receio da desencarnação, sabia bem o que iria encontrar no Além.

Senti-me liberto e feliz.

Envergonhei-me da minha euforia, embora minha família estivesse triste com a separação, mas logo tudo ficou bem, eles se
conformaram, entenderam que havia sido o melhor para mim, continuaram tendo alegrias e dificuldades, essa mistura da vida no plano físico.

Eu só me senti liberto mesmo, sadio, depois de satisfazer minha curiosidade de conhecer de perto lugares da espiritualidade, então passei a ser útil e me sentir muito bem.

– Você voltou para o plano espiritual realizado? – indaguei.

– Não! – exclamou Antônio. – Senti que poderia ter feito mais e melhor. Gostaria de ter voltado com mais obras úteis na bagagem.

– Creio, meu amigo, que esta sensação é sentida por muitos que regressam ao Além. Você fez por merecer um socorro, fez amizades espirituais.

– Pois é, regressei rico espiritualmente – Antônio sorriu contente.

– Você encarnado, quando doente, tinha conhecimento
de seu estado?

– No início sim – respondeu Antônio. – Não quis mais sair de casa, conversar com as pessoas para não constrangê-las por não me lembrar delas, por repetir perguntas e preferi falar menos.

Depois a sensação era a de que saía do ar, dormia para acordar.

Não me lembrava de muitas coisas e foi aumentando a sensação de ausência. Mas tinha momentos que entendia estar doente, sentia por estar dando trabalho e também me apiedava dos familiares que estavam se privando de tantas coisas para cuidarem de mim.

Queria ficar consciente, mas, de repente, o esquecimento.

– Você sofreu?

– Sim, sofri. Meu espírito, preso num corpo sem lembranças e ação, sofreu. Sofremos muito pelo espírito. Também senti outras dores e não conseguia reagir a elas ou explicar. Às vezes a sensação que tinha era como se estivesse anestesiado, e esta anestesia ia e vinha, isto é, era um torpor, com dor e sem dor.

Muito estranho, esforçava-me para sair deste torpor, mas não conseguia, era como se quisesse acordar sem conseguir. Anos antes fora anestesiado para uma cirurgia, ao acordar senti dores, sem ter total consciência de onde estava e foi isso que muitas vezes senti com o Alzheimer. E nesses instantes em que tive um pouquinho de entendimento, padecia muito.

– Você teve e ainda tem conhecimento espiritual. Então pergunto: Teve motivos para ter passado este período enfermo? – perguntei.

– Quando desencarnei, não quis saber o porquê de ter passado este período difícil.

Maravilhei-me com o plano espiritual e queria ser útil, o descanso forçado pela doença me fez querer ser mais ativo no trabalho. Soube que era para ter desencarnado anos antes, que havia esticado minha vida encarnado – sorriu. – Vivi mais anos do que planejei antes de reencarnar.

Não tive nenhuma doença mais grave, cuidei do meu corpo, não o envenenei com nada que o prejudicasse, fui uma pessoa útil.

Adoeci, e esse período foi muito importante para mim.

Provei a mim mesmo ser resignado e grato. Foi um aprendizado! 

Lição preciosa!

Provei ter realmente aprendido o que falava e escrevia.

– Você quer acrescentar algo a mais nesta entrevista?

– O doente de Alzheimer – explicou Antônio – pode espiritualmente não sentir tanto o reflexo da doença, afastar-se do corpo físico quando este adormece e saber de tudo o que acontece, sentir de forma confusa outras dores e ter períodos conscientes num tremendo esforço do espírito em relação ao cérebro físico, mas isso não ocorre com todos os doentes.

Pode dar trabalho mas ainda é o ser amado.

E, como todas as enfermidades, elas acabam, passam, e um portador de Alzheimer, quando vem para o plano espiritual, se cura, uns mais rápido, outros demoram um pouco mais.

(Texto extraído do livro “Entrevista com os Espíritos”, Vera Lúcia Marinzeck, Espírito Antonio Carlos)