"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

01 abril 2012

Filhos adotivos


O casal aguarda ansiosamente um filho.

Todavia, embora os médicos garantam que não há nenhum problema físico, o desejo não se concretiza.

Sucedem-se alguns meses...

Finalmente, admitindo que o filho não virá, marido e mulher resolvem adotar uma criança.

Consumada a adoção, semanas mais tarde a esposa constata, feliz e surpresa, que está grávida.

Em breve o lar é enriquecido com mais um filho.

Afirmam os médicos que este fenômeno é freqüente; a incapacidade do casal em gerar filhos é motivada pela tensão desenvolvida em vista do desejo extremado de alcançar a paternidade, o que inibe o mecanismo biológico da reprodução. 

Ao adotar a criança, os cônjuges relaxam a tensão, sucedendo-se, normalmente, a concepção.

Sob o ponto de vista espírita, não há aqui a mera influência de fatores; determinados casais assumem perante a Espiritualidade o compromisso de cuidar de um filho adotivo, além dos nascidos de sua união.

Se estes surgem primeiro, haverá a tendência para o casal sentir-se realizado nos seus ideais de paternidade, deixando de cumprir o planejamento feito.

Então, mentores espirituais retardam por algum tempo os processos reencarnatórios marcados para aquele lar, até que se dê a adoção.

Há Espíritos que reencarnam para serem filhos adotivos.

Esta situação faz parte de suas provações, geralmente porque no passado comportaram-se de forma indigna em relação aos deveres familiares.

Voltam ao convívio dos companheiros do pretérito sem laços de consangüinidade, o que para os Espíritos de mediana evolução representa sempre uma provação difícil, destinada a ensiná-los a valorizar a vida familiar.

Harmoniza-se, assim, a situação de um grupo reunido no lar para serviços de resgate e reajuste, competindo aos pais o máximo de cuidado em favor daquele familiar que ressurge na condição de filho adotivo.

Este, mais do que os outros, é alguém necessitado de muita compreensão e carinho, a fim de que, superando o trauma que fatalmente experimentará ao ter conhecimento de sua condição, aproveite integralmente os benefícios da experiência, sem marcas negativas em sua personalidade.

A incapacidade de gerar filhos pode ter outras motivações.

O casal, por exemplo, que em existências anteriores furtou-se às emoções de reter junto ao coração um rebento de sua carne, por não desejar problemas, orientando suas ações em termos de egoísmo a dois, preocupado apenas com prazeres e sensações, segurança e conforto, poderá experimentar a angústia da esterilidade.

Em tais circunstâncias, os valores da abnegação e do amor podem ensejar perspectivas mais felizes.

Seria o caso do casal sem filhos que se dedicasse de coração aos órfãos, quer trazendo-os carinhosamente ao convívio do próprio lar, quer participando de instituições destinadas a dar-lhes amparo e assistência.

Por terem abraçado filhos de lares alheios, ambos acabariam compensados com a alegria de abraçar seus próprios filhos.

Não pretendemos sugerir que todo casal sem filhos os terá, desde que parta para a adoção, seja porque deve receber primeiro o adotivo, seja porque o adotivo lhe dará méritos necessários.

Cada caso tem suas particularidades e ninguém pode avaliar a extensão dos compromissos assumidos por aqueles que experimentam a frustração de seus anseios de paternidade.

O que se pode afirmar é que o filho adotivo constitui sempre um treino dos mais nobres no campo da fraternidade.

Nada mais meritório aos olhos de Deus, e talvez raros serviços na Terra sejam tão compensadores em termos de Vida Eterna.

Quando os homens compreenderem isso, não teremos mais orfanatos, porque toda criança sem pais encontrará corações generosos dispostos a dar-lhe carinho e amparo no próprio lar, semeando Amor para um mudo melhor.

(Richard Simonetti)


(Brasil Espírita, Fevereiro de 1972)