"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

13 setembro 2012

O caso do escravo



O Brasil é um país com forte presença de afro-descendentes.

As experiências envolvendo Espíritos que passaram por essa etnia são comuns em reuniões mediúnicas.

Não é raro também, infelizmente, dirigentes não permitirem a presença de antigos escravos, índios ou caboclos nas sessões, até mesmo quando se dá através de médiuns que passaram por experiências reencarnatórias no período da escravidão, trazendo consigo, por isso mesmo, antigos companheiros de jornada terrena ou as repercussões existenciais decorrentes do atrito multirracial no passado.

Não nos parece sensato desejar sessões nos moldes da França do século XIX, com forte presença branca e européia, num país como o Brasil, que tem sido ponto de convergência para a reencarnação de Espíritos de várias origens e níveis morais, culturais, intelectuais etc.

Na equipe que nos ofereceu as experiências aqui relatadas, tais entidades espirituais sempre foram recebidos com o mesmo carinho e em termos da mais absoluta igualdade, respeitando-se suas peculiaridades.

Nesses casos, cabe ao dirigente encarnado organizar o intercâmbio de modo a dar-lhe seguimento sem prejuízo do conteúdo, deixando as questões de forma em segundo plano de preocupações.

Num desses episódios, a comunicação iniciou-se com gemidos de dor, emitidos em tom baixo, como de alguém agonizando ou exausto.

Aos poucos, dentro do andamento natural do trabalho de atendimento, um médium vidente presente fez a descrição do que ocorria, apontando a presença de um negro que sentia e ainda vivia intensamente os momentos de dor e aflição que precederam sua morte num tronco onde fora deixado preso para morrer.

Lamentavelmente, mesmo decorrido mais de um século desde a abolição formal da escravidão no Brasil, sabe-se da existência de vastas regiões do país onde seres humanos ainda são tratados como animais.

Nessas regiões, a escravidão ainda não desapareceu e pessoas sofrem privações, inclusive de liberdade, e recebem tratamento como se ainda estivéssemos em pleno século XIX.

Era um caso de fixação mental num momento doloroso e traumatizante para o Espírito. Sem grandes conhecimentos da vida espiritual, prendeu-se mental e emocionalmente àquele momento.

O diálogo começou pela indagação de como se sentia, se ouvia bem, como via o ambiente em que se encontrava, sendo-lhe solicitado que descrevesse tudo enquanto recebia atendimento e era “solto da corrente”.

Com dificuldade, contou que tinha sido punido daquela forma. Como já era velho para o trabalho o patrão mandara acorrentá-lo e deixá-lo morrer para servir de exemplo para os demais. Dizia não saber exatamente o que acontecera depois de tanta fome e sede, afirmando que sofria muito.

Com muito tato ele foi sendo orientado no sentido de procurar ver com mais atenção o ambiente em que estava, de perceber que já não se encontrava nas correntes e que o local era outro. Aos poucos percebeu por si mesmo que já estava “morto” e perguntou algumas poucas coisas a mais sobre o que aconteceria agora, para onde iria e o que seria feito dele.

Como de hábito nesses casos, ele estava cercado de antigos companheiros de labuta, afora os Benfeitores que passou a perceber também, livrando-se gradualmente da fixação mental e alargando seu entendimento sobre a nova situação.

Como encontrava-se bastante debilitado, não falou muito e seu atendimento foi encurtado ao tempo mínimo necessário, sendo encaminhado logo em seguida para os enfermeiros espirituais que o conduziram para novo ambiente, adequado às suas necessidades e de acordo com sua condição no momento.

Foi mais uma experiência tocante pelo seu aspecto profundamente humano, e a demonstração clara das conseqüências de hábitos, como a dominação de uma raça sobre outra, e os resultados individuais e coletivos de tudo isso.

O Brasil foi um dos últimos países a extinguir oficialmente a escravidão negra e é bem possível que muitos problemas de ordem social e coletiva ainda existentes, sejam decorrentes de quase quatro séculos de exploração da força de trabalho de uma raça.


( Fonte: “CASOS E EXPERIÊNCIAS COM A MEDIUNIDADE” , de Paulo R. Santos)