"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

29 novembro 2012

O homem prudente



O homem prudente deve ser obrigado a lutar, mas não com jogo sujo: cada um deve agir como quem é e não como o obrigam.
Na competição, a elegância é plausível: deve-se lutar não somente com poder, mas também com decência.
Vencer com maldade não é vitória, mas rendição. A generosidade sempre foi superior.
O homem de bem nunca usa armas proibidas. Como, por exemplo, usar os conhecimentos sobre um amigo com quem brigamos para alimentar o ódio recém-nascido. Não se deve usar a confiança para a vingança. Tudo o que cheira a traição contamina o bom nome.
Nas pessoas de espírito elevado, qualquer átomo de baixeza é muito estranho. É melhor pensar que, se a elegância, a generosidade e a fidelidade se perdessem no mundo, deveriam ser procuradas em seu peito.

(Baltasar Gracián in “A arte da prudência”)

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A paz que desejamos



Para haver paz não basta aumentar o policiamento das ruas, melhorar a segurança dos prédios e casas, ou leis mais severas.

Paz não se cria por Decreto, ou Lei, nem com construção de mais presídios.

Paz é construção coletiva de um povo. Envolve uma prática constante de atitudes éticas e amorosas.

Seja em que domínio de ação for: em casa, no trabalho, na rua, nas escolas, nas estradas...

Observo, com tristeza, que, por vezes, aquele que reclama da insegurança na cidade costuma ser partícipe, de alguma forma, daquilo que gera a violência.

Explico melhor... por exemplo, o empresário que remunera inadequadamente seu funcionário, quando poderia diminuir um pouco seus rendimentos e lucros em favor daqueles que fazem sua empresa produzir, está criando dificuldades na vida de seu funcionário, que tem suas oportunidades de desenvolvimento, via de regra, diminuídas, bem como de todos os que dependem dele para viver.

E como "desenvolvimento" pense, por exemplo, em estudos, não só profissionalizantes, mas também estudos que promovam expansão de consciência. Pense também em lazer e cultura, que advém da compra de livros, de idas ao teatro e cinema, a shows, possibilidades de viagens... Ou até mesmo no desenvolvimento de hobbies como os ligados a todos os tipos de artes e esportes.

Quando a alma se alimenta, aquietam-se os instintos mais selvagens.

E a alma se alimenta do belo, das sutilezas, da bondade, daquilo que toca a sensibilidade, do amor.

Vejo pessoas que reclamam da falta de cordialidade no trânsito e são os primeiros a não serem gentis quando dirigem seus carros.

Reclama-se da violência das ruas e estes mesmos, tantas vezes, educam suas crianças com tapas, gritos, humilhações, desprezo, indiferença. Tratam aqueles que lhe são subordinados com desprezo e impaciência também.

Por outro lado, vejo trabalhadores, que mentem, que não se comprometem, que detestam o que fazem, que não sentem nenhum tipo de vínculo bom e positivo com seus colegas de trabalho ou com seus empregadores.

Infelizmente, criamos uma sociedade imatura emocionalmente, individualista, que não quer assumir responsabilidades, que empurra para baixo do tapete os desafios sociais que precisam ser enfrentados de frente.

Sociedade que cria indivíduos excluídos de todos os tipos e os empurra para longe. Que quer a paz vinda dos cassetetes e dos cárceres, mas não constrói a paz verdadeira, e possível, que só nasce na convivência generosa, amável, gentil.

Quando se abrem portas, criam-se laços de confiança e amorosidade.

Criminosos e psicopatas precisam ser tratados longe da sociedade, sim, com certeza. E quanto aos indiferentes, aos gananciosos, aos narcisistas e aos insensíveis que ajudam a criar esse tipo de doença social? O que fazer?

Precisamos de uma nova pedagogia para a convivência, para o viver pacífico.

"Seja a paz que deseja ver no mundo", disse Gandhi!

Mas vá além da paz do silêncio meditativo, pratique a paz na rotina de seu dia a dia, sendo o elo forte desse cordão de vida que a todos nós conecta.

(Thais Accioly)






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Quando os bons forem maioria...



"Quando os bons forem maioria o mal há de se esconder de vergonha."
(Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 11, item 12)

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24 novembro 2012

Porque eu? Porque isso? Porque agora?



Na verdade, na vida, quando pensamos que estamos a escapar, estamos frequentemente, ainda que não o saibamos, a correr o mais que podemos para nos envolver precisamente naquilo que tememos.

Nas relações, em particular, parecem existir correntes submersas ocultas que utilizam os nossos desejos e intenções conscientes, para produzir o efeito oposto ao que pretendemos.

De fato, parece que qualquer relação significativa tem uma vida própria independente, com um propósito oculto à nossa percepção consciente.

Nunca sentiu que os seus maiores esforços de navegar para porto seguro e se afastar da catástrofe serviram simplesmente para o fazer naufragar nos próprios baixios que tanto tentava evitar?

Quando faço uma retrospectiva de quase cinqüenta anos de vida, apercebo-me de que tentei sempre descobrir a chave elementar, que explicasse porque razão nós, seres humanos, suportamos tanto sofrimento no envolvimento com os nossos iguais...

O que acabei por entender foi que as nossas relações mais marcantes existem por uma razão muito diferente daquela em que acreditamos, quer pessoalmente enquanto indivíduos, quer coletivamente como sociedade.

O seu verdadeiro objetivo não é fazer-nos felizes, não é satisfazer as nossas necessidades, não é definir o nosso lugar na sociedade, não é manter-nos seguros...mas sim fazer-nos crescer para a Luz.

A questão de base é que, juntamente com as pessoas a quem nos encontramos ligados por laços de sangue, de casamento ou de afinidades profundas, seguimos uma rota definida com riscos e obstáculos, concebida para nos levar de um ponto de evolução para outro.

Na realidade, só teríamos a ganhar se, ao procurar entender a natureza frequentemente perturbada das relações humanas, nos recordássemos que existe uma eficiência impecável e implacável no Universo, cuja meta é a evolução da consciência.

E o que sempre, sempre impele essa evolução é o desejo...


(Texto extraído do livro "Porque eu? porque isso? porque agora?", de Robin Norwood.)


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Ler é sair da gaiola...



A leitura é uma realidade imensa, viagem que, uma vez iniciada, não tem fim, uma amarra de que ninguém pensa sequer libertar-se, uma porta para todos os outros mundos, um modo expedito para todos os encontros, todas as conversas.
Como escutar às portas, sem ser promíscuo.
Como espreitar as vidas alheias, sem ponta de "voyeurismo".
Uma maneira de esquecer e de lembrar.
De estar aqui e acolá.
De ser isto e mais aquilo.
E não tem fim esta possibilidade de mil vidas em uma, única forma recomendável de mentir. Não mentir propriamente, mas imaginar, o que é diferente e sem sombra de pecado.

(Maria José Nogueira Pinto)

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Corsário - João Bosco





Meu coração tropical está coberto de neve mas
Ferve em seu cofre gelado
... 

Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá.
...


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O Ferreiro



Era uma vez um ferreiro que, após uma juventude cheia de excessos, resolveu entregar sua alma a Deus.

Durante muitos anos trabalhou com afinidade, praticou a caridade, mas apesar de toda sua dedicação, nada parecia dar certo na sua vida. Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas se acumulavam cada vez mais.

Uma bela tarde, um amigo que o visitara e que se compadecia de sua situação difícil comentou:

- É realmente estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado.

O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida.

Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar e terminou encontrando a explicação que procurava.

Eis o que disse o ferreiro:

- Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isto é feito? Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que fique vermelha.

Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado e aplico golpes até que a peça
adquira a forma desejada.

Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura. Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita: uma vez apenas não é suficiente.

O ferreiro deu uma longa pausa e continuou:

- Às vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue agüentar esse tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras.

E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada.

Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro velho que você viu na entrada de minha ferraria.

Mais uma pausa e o ferreiro concluiu:

- Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceito as marteladas que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. 

Mas a única coisa que peço é:

"Meu Deus, não desista, até que eu consiga tomar a forma que o senhor espera de mim.
Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser, mas jamais me coloque no monte de ferro velho das almas”





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O milagre em cada um de nós



Milagre é quando tudo conspira contra, mas Deus vem de mansinho e com um sopro leve muda o rumo dos ventos.
É quando respirar vira quase um suspiro de alivio e a vida devolve o sorriso como forma de retribuição por todo sofrimento.
É o instante teimoso que resiste bravamente a um duro percurso e mantém-se em pé amparado pela força divina.
É a decisão que escapa de nossas mãos, mas que antes de cair agarra-se com toda força a uma segunda chance.
Milagre é o improvável gesto de carinho que impulsiona o ser humano a não deixar de acreditar.

(Fernanda Gaona)

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O pensamento que nos chega



Devemos ter muita consideração com idéias reveladas.
Um pensamento aparentemente desgarrado, vindo de lugar nenhum, mesmo aparentando orfandade, possui autor.
Pode ser um ensinamento aprendido na vigília pela alma, ou um conselho transmitido por um espírito iluminado, não importa, se reluziu em sua mente, não o despreze. Invista! Torne-se empreendedor de projetos arquitetados no mundo dos sonhos, transformando-o em realidade de bondade.

(Roberto Struan)

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20 novembro 2012

Em aprendizado



Fui criado como a ti, simples e sem conhecimento.

Pelas vidas, vivências sucessivas passei, lutei, errei e aprendi.

Ainda estou em aprendizado constante, reparando erros que cometi, muitos pela minha imaturidade, alguns pela minha falta de caridade, outros pela minha valorização da materialidade. Pisei, extorqui, tomei e destruí.

A muitos irmãos eu feri, a muitos eu maltratei.

Alguns me aguardavam ao retorno da pátria eterna, e de mim se vingaram, gerando dor e sofrimento, em mim e neles próprios.

Assim caminhei e caminho.

Um dia batendo, o outro apanhando.

Um dia tomando, no outro pagando.

Assim é minha jornada, não tão diferente da tua. Sombras densas ainda rondam os nossos passados.

Inimigos ainda nos odeiam e muitos ainda nos esperam para desforras. Mas já não há mais tempo para bater, para tomar. Há sim a necessidade de crescer, amar, evoluir e brilhar.

È chegada a hora de parar de sofrer.

É chegado o momento de aprender a lição.

Ame e será amado, perdoe e será perdoado. O teu próximo é tu mesmo, tudo que a ele o fizer se voltará para ti. Aproveite a oportunidade, tens o consolador, tens a encarnação. Ainda é tempo de abrir seu coração.

Compre a partir de agora seu bilhete de passagem para a estação da luz.

Comece agora a trazer para ti, amigos espirituais e encarnados para que te recebam quando vieres para cá. Confie em Deus, confie em Jesus e em Maria. Entregue-se aos bons espíritos e ouça sempre teu guia.

Sejas feliz.

Quanto a mim? Aguardo ansiosamente a oportunidade de mais uma vez reencarnar e apoiado por muitos dos que prejudiquei, que agora já me perdoaram e me amam, espero conseguir vencer, amar e me iluminar.

Para tí, meu desejo de amor, luz, paz e evolução.

André.


(Psicografado por: Adriano Arcanjo, de Barbacena-MG)




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Somos todos iguais nesta noite - Ivan Lins


17 novembro 2012

Marcel Souto fala sobre Kardecismo e Espiritismo



Reprodução de entrevista com o escritor e jornalista Marcel Souto Maior, autor dos livros “As Vidas de Chico Xavier” (2003), “Por trás do véu de Ísis” (2004) e “As Lições de Chico Xavier” (2005).

Marcel, que viu na biografia do médium Chico Xavier a possibilidade de um trabalho de rica pesquisa jornalística, fala do que descobriu sobre o tema, de como o Livro dos Espíritos lhe influenciou nas pesquisas e da figura e a importância de Allan Kardec para o Espiritismo, assunto a que volta e meia ele retorna: "Não tenho nenhuma religião, mas tenho fascínio por este tema: a fé...", diz.

Atualmente, ele prepara o lançamento de um novo trabalho, a biografia de Allan Kardec, cujos originais já foram entregues à sua editora.

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1-Como você avalia a evolução da fé espírita no País?

A cada ano, cada livro e cada filme lançados, o Espiritismo atrai novos adeptos e admiradores. O Brasil já abriga mais de 10 mil centros espíritas kardecistas. Cada “casa” destas funciona como um centro de estudos e divulgação do espiritismo e como um pólo de solidariedade. Uma rede cada vez mais ativa e integrada.

Hoje mais de 5 milhões de brasileiros já se declaram espíritas kardecistas nas pesquisas do Censo... O número de simpatizantes é estimado em 30 milhões só no Brasil.


2-Seus livros sobre o tema Espiritismo foram lançados no início dos anos 2000. Agora eles voltam a ser lembrados e comentados a partir do lançamento de alguns filmes nacionais. Você identifica um novo interesse da sociedade brasileira em relação às questões espíritas? A que se atribuiria esta "retomada" do assunto?

O lançamento de filmes e livros, o destaque dado a Chico Xavier no ano de seu centenário – todos estes “eventos” ajudam e muito. Mas por trás desta retomada existe uma questão maior: uma imensa esperança de que a vida seja mais do que este nosso dia-a-dia estressante, às vezes sem sentido, rumo ao fim.


3-Estamos todos condenados à morte ou a vida continua?

O Espiritismo aposta na melhor hipótese e, por isso, mobiliza tanta gente.


4-Você já declarou, algumas vezes, que não é espírita, e que sua abordagem sobre o tema sempre foi do ponto de vista jornalístico. Por conta deste distanciamento, e mesmo por ter partido do "zero conhecimento" para chegar ao que hoje você dispõe, o que você acha que leigos no assunto não deveriam ignorar? Há alguma "descoberta" sobre o Espiritismo que acha que seria bom que todo mundo soubesse?

Nestes 15 anos de pesquisa – e de investigação jornalística - , encontrei fraude e auto-sugestão neste território movediço onde “vivos e mortos” se cruzam, mas deparei também com histórias impressionantes, desconcertantes e inexplicáveis pra mim. Histórias que conto na introdução de “As Vidas de Chico Xavier” e no livro “Por Trás do Véu de Ísis”.
A conclusão a que cheguei é esta: existe fraude e má-fé sim, mas existem verdades que devem ser encaradas por todos nós – inclusive pela ciência – com mais coragem e menos preconceito.


5-O que o motivou a pesquisar e escrever sobre figuras e temas do Espiritismo?

Foi interesse jornalístico mesmo. A história de Chico é irresistível. Ele escreveu mais de 400 livros, vendeu mais de 20 milhões de exemplares e doou toda a renda dos direitos autorais a instituições beneficentes. “Os livros não me pertencem. Eu não escrevi nada. Eles – os espíritos – escreveram”, repetiu ao longo de toda a sua vida, enquanto era atacado, perseguido e até processado. 
Aos que diziam que mais cedo ou mais tarde ele cairia, desmascarado como fraude, por exemplo, Chico dizia: “Não vou cair porque nunca me levantei”. 
Morreu na cama estreita de seu quarto simples em Uberaba.


6-Como O Livro dos Espíritos marcou a sua pesquisa?

O Livro dos Espíritos é fundamental para quem quer entender a origem, a lógica e o sentido da Doutrina Espírita. Li e reli várias vezes para conseguir decifrar Chico Xavier. Durante toda a vida ele se dedicou a seguir os principais valores descritos/defendidos no livro de Allan Kardec: a fé na vida depois da morte, o valor da caridade, a importância do trabalho em favor do outro.


7-Você já falou do potencial de Chico Xavier como personagem de uma pesquisa jornalística. E Allan Kardec? Como vê este "personagem"?

É outro personagem muito forte. 
Eu resumiria a história dele com poucas palavras: “Ele nasceu Hippolyte Léon Denizard Rivail na França do século 19. Sempre foi cético. Um professor respeitado em seu tempo, discípulo do educador Pestalozzi. Até que mesas começaram a girar e mensagens passaram a chegar de muito longe... Com 54 anos, depois de testemunhar estes fenômenos – batizados de “mesas girantes” -, Rivail mudou de vida e de nome. 
Tornou-se Allan Kardec para "dar voz aos espíritos...” 
A história de Kardec é a história de uma conversão.


8-O trabalho com o tema Espiritismo modificou sua forma de encarar o mundo/as pessoas/questões relativas à espiritualidade? Você passou a acreditar em algo em que não acreditava antes?

Eu era um “cético absoluto” quando me aproximei de Chico Xavier pela primeira vez. Hoje digo que minha fé “não é consolidada”, é cheia de altos e baixos... Às vezes acredito na possibilidade da “vida depois da morte”, às vezes duvido totalmente, mas esta nova “posição” já é um avanço para quem não acreditava em absolutamente nada há 15 anos.


9-Qual a sua crença religiosa?

Não tenho nenhuma religião, mas tenho fascínio por este tema: a fé.





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Ao deus médico



Ao médico, que na atualidade persiste na descrença de que Deus existe, só lhe resta apegar-se a semideuses, a deuses de barro. 
Ele crê na sua Ciência que tantas vezes se confundiu e falhou nas suas interpretações, ele crê nos seus medicamentos que tanta vezes agravou a saúde de seus pacientes, ele crê em exames, em técnicas, em cirurgias que tantas vezes não evitaram os maus resultados.
Na superficialidade dos nossos sintomas que agridem o corpo, existe uma causa profunda, que adoeceu primeiro a Alma, e é aí que Deus atua.

(Nubor Orlando Facure)



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16 novembro 2012

Como comecei a escrever - Carlos Drummond de Andrade



Por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma vez por semana aos domingos.

As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas no Rio de Janeiro.

Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde. Não dava para ler o papel transformado em mingau.

Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de Domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso.

Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar.

Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narrar um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras.

Daí por diante as experiências foram se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a leitura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar.

Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estavam germinando.

Meu irmão, estudante na capital, mandava-me revistas e livros, e me habituei a viver entre eles.

Depois, já rapaz, tive sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever.

Então começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café-sentado (pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam.

Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários.

Tudo com naturalidade e franqueza.

Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.


(Carlos Drummond de Andrade, in “O Pequeno Livro das Grandes Emoções” - Unesco, VA)


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O Amor de um pai surdo-mudo



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Dever paterno




Duas verdades muito simples devem estar presentes na imaginação dos pais: de um saco vazio nada podemos tirar; de um terreno inculto, abandonado, nenhum bom grão podemos colher.

Estas duas asserções, banais em aparência, naturalmente servirão para lhes trazer à mente um fato de suma importância: a educação dos filhos.

Sim, se eles descurarem o cumprimento deste dever, chegará o dia em que debalde procurarão obter alguma coisa dos filhos. Estes lhe darão o que se pode tirar de um saco vazio ou aquilo que se pode colher de um terreno abandonado.

A autoridade paterna, elemento indispensável na orientação e direção da mocidade, não surge do vácuo nas ocasiões prementes das grandes necessidades, dos lances aflitivos em que ela é reclamada.

Se essa autoridade existe...apresenta-se, impõe-se, age, luta e consegue.

Se não existe, é escusado apelar-se para ela, no paroxismo de qualquer aflição.

A autoridade paterna se desenvolve paulatinamente, como fruto da educação que os pais dão aos filhos, quando essa educação se funda na base sólida de exemplos dignos e elevados.

Ela se desenvolve e frutifica como as plantas de valor. Pretendê-las num dado momento, como façanha de prestidigitador, é ilusão que nenhum pai sensato deve alimentar.

Há exemplos, não contestados, de filhos bons e dignos, à revolta da influência doméstica, e outros que são maus, a despeito dos desvelos paternos; porém tais casos são exceções que não anulam a regra e, menos ainda, os deveres dos pais, no que concerne à formação do caráter de seus filhos.

Sabemos que nossos filhos são espíritos reencarnados, os quais semelhante ao vento, segundo disse Jesus ninguém sabe donde vêm. É possível que sejam espíritos de sentimento e moral elevados; assim sendo, não nos darão maior trabalho: é a exceção.

Caso contrário, como é de regra, trarão consigo defeitos, vícios e paixões, para cujo extermínio cumpre providenciarmos, empenhando, todos os meios ao nosso alcance. E isto se obtém, ministrando a educação cristã, firmada sobre os alicerces de exemplificações acordes com aquela doutrina.

Educar é salvar.

O Espiritismo é a religião da educação. Não há lugar para superstições, na trama urdida pelos postulados cristãos que o Espiritismo veio restaurar em toda a sua verdade.

Eduquemo-nos, pois, e eduquemos nossos filhos.

Um mau chefe de família nunca pode ser um bom espírita.


(De “Na Escola do Mestre”, de Vinícius/Pedro de Camargo)


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Sobre as crianças índigo...



Um texto muito interessante, de Richard Simonetti, que merece nossa reflexão.

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Crianças índigo - Richard Simonetti


Faz sucesso e tem recebido apreciações elogiosas no próprio meio espírita o livro Crianças Índigo, de Lee Carroll e Jan Tober, escritores americanos.

As crianças índigo, ou azuis, seriam, segundo os autores, uma geração de Espíritos enviados por Deus, com a missão de renovar as relações humanas, em novos padrões de comportamento, sob a égide do amor.

O nome índigo foi cunhado por Nancy Ann Tappe, que, aparentemente dotada de visão mediúnica, observava essas crianças envolvidas por uma aura azul.

Sua primeira experiência nesse sentido teria ocorrido na década de 70, no século passado. 

Pesquisadores americanos, aderindo à idéia, identificam crianças índigo por um padrão de comportamento.

Aí é que a tese fica comprometida, porquanto alguns detalhes não são nada animadores nem lisonjeiros, contrariando noções relacionadas com o que se espera de alguém vinculado a um movimento de renovação da Humanidade.


1 – O tema é, realmente, interessante, já que o próprio Espiritismo nos fala de um processo de renovação da Humanidade, com a vinda de Espíritos mais evoluídos.
Por que você acha que essas chamadas crianças índigo não têm nada a ver com essa renovação?


É fácil. Basta observar algumas características dessas crianças, citadas no livro:

Sentem-se e agem como nobres.

Essa postura está mais perto do orgulho do que da humildade que caracteriza os Espíritos que exercem verdadeira influência para o bem da Humanidade. Conscientes da própria pequenez, jamais se julgam mais importantes ou especiais diante do próximo.
Marcante em seu comportamento é a disposição de servir, como destaca Jesus (Marcos, 9:35):
... Se alguém quiser ser o primeiro, será o último e servo de todos.

Tem dificuldade para lidar com autoridades absolutas (sem explicação ou possibilidade de questionamento).

A definição para essa maneira de ser é rebeldia. Passa longe da ação missionária. Os Espíritos superiores não desrespeitam as leis, embora possam contestá-las, empenhando-se em reformá-las.
O respeito às regras instituídas e aos desígnios divinos está perfeitamente caracterizado na recomendação de Jesus (Mateus, 22:21):
… Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus.

Parecem não se relacionar bem com pessoa alguma que não lhes seja igual. A escola normalmente é uma experiência difícil para eles, em termos sociais.

Sem sociabilidade um Espírito pode pontificar nas Artes, na Filosofia, na Ciência, mas jamais realizará algo de produtivo em se tratando de influenciar o comportamento humano, em favor de um mundo melhor.
Jesus revela a fórmula ideal de um relacionamento social perfeito. (Mateus, 22:39): … amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Frustram-se com sistemas ou tarefas que seguem rotinas ou situações repetitivas em que não possam usar a criatividade.

A vida é feita de rotinas em todos os setores da atividade humana e, sem a disciplina necessária para observá-las, fica difícil sustentar alguma estabilidade e contribuir para a melhoria das condições de vida na Terra.
Oportuno lembrar que a condição essencial enfatizada por Emmanuel, o mentor espiritual de Chico Xavier, para que a sua existência e particularmente a prática mediúnica fossem produtivas, foi a disciplina.
A indisciplina é própria da imaturidade humana, superada pelo crescimento emocional e espiritual, como destaca Paulo (I Coríntios, 13:11):
Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino. Mas logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.


2 – Consta que há uma entrevista de Nancy Ann Tappe, cujo conteúdo é comprometedor para as crianças índigo. Eu diria que tem um conteúdo estarrecedor. 
Diz ela:
Todas as crianças que mataram colegas da escola, ou os próprios pais com as quais pude ter contato, eram índigo.
O entrevistador parece concordar com ela.

Isso é interessante. Todas essas crianças que matam são índigos? Isso quer dizer que eles tinham uma visão clara de sua missão, mas algo entrou em seu caminho e elas quiseram se livrar do que imaginavam ser o obstáculo?
Resposta de Nancy: Trata-se de um novo conceito de sobrevivência. Todos nós possuíamos esse tipo de pensamento macabro quando crianças, mas tínhamos medo de colocá-lo em prática. Já os índigos não têm esse tipo de medo.


3 – É realmente incrível! Segundo a entrevistada, você, como eu e toda gente, quando crianças, tínhamos o impulso de matar quem se nos opusesse, e não o fizemos por medo.
Exatamente. E o índigo não tem medo. Por isso não se constrange em matar, sejam pais ou colegas de escola. 
É uma lástima que haja gente aceitando essa insânia.

Segundo os autores do livro e pesquisadores citados, as crianças índigo costumam, não raro, ser rotuladas como portadoras de um dos dois problemas abaixo:

• DDA, Distúrbio de Deficiência de Atenção.

• TDAH, Transtorno de Deficiência de Atenção com Hiperatividade.

Crianças com deficiência de atenção têm dificuldade de concentração.


4 – Pelo que se sabe Crianças com defeito de atenção e hiperatividade, não param quietas, têm “bicho carpinteiro”, como diriam os pais. Seriam crianças problema, não crianças missionárias.

Exatamente. Isso dá para perceber, considerando algumas características, envolvendo esses dois déficits.

• Tem dificuldade em assistir uma aula, ler um livro, ouvir uma palestra. Comete erros por falta de atenção a detalhes.

• É desorganizado, tanto no pensamento como externamente, envolvendo horários, arrumação de objetos de uso pessoal, cumprimento de prazos, disciplina...

• Muda com facilidade de metas e planos. É comum ter mais de um casamento ou relacionamento estável.

Diz Nancy: Pelo que pude observar, 90% das crianças com menos de dez anos no mundo de hoje pertencem à categoria índigo.


5 – Dando crédito à sua estatística estará explicada a conturbação no Mundo, a dificuldade de relacionamento no lar, a indisciplina, os vícios, os crimes, o descalabro da sociedade…

E há no livro muitos exemplos desse tipo.
Crianças índigo que deram trabalho na infância e na adolescência e nenhum registro de alguma que pontificou na idade adulta como pioneiro de um mundo melhor.


6 – Você poderia citar um desses casos?

Sim. É bem ilustrativo o caso relatado no livro por uma mãe que se diz feliz ao tomar conhecimento das crianças índigo, porquanto seus filhos se enquadrariam nessa condição. 

Num artigo transcrito no livro, com o título "Meus queridos índigos!", ela relata sua experiência com ambos, portadores um deles de DDA e outro de TDAH.

Para não nos estendermos, vamos falar apenas de Mark, perfil DDA.

O menino ia muito mal na escola. Não se relacionava com professores e colegas.

O mesmo problema no lar. Aos 15 anos pediu para morar na casa de um amigo.

Mark começou a agir de forma tão irregular que foi levado para uma instituição correcional de menores. Praticou vários delitos, dentre eles o roubo de carro do pai de um amigo. Mesmo depois de sair da instituição manteve um comportamento conturbado.

Certa feita, a mãe levou-lhe uma cesta de alimentos. Na casa onde Mark morava com alguns colegas, viu uma estátua de Jesus, no alto de uma escada. Havia sido roubada de uma igreja. 

A mãe deu um prazo de 48 ao filho para que a estátua fosse devolvida. A orientação não foi observada. Depois de vários dias insistindo, telefonou à polícia. O menino foi conduzido à prisão. Como era menor, ficou preso por um ano.

Algum tempo depois Mark foi novamente preso por dirigir perigosamente, por excesso de velocidade, por fugir após causar um acidente e por multas não pagas.

Houve problemas semelhantes com o outro filho, Stuart. 

Mas, aparentemente, após tantos trabalhos, ambos criaram juízo. Fala deles com orgulho. São, agora, pais de netos que fazem sua alegria.

Ela tem certeza (como toda a avó sobre as virtudes dos netos) de que são crianças muito especiais, índigos em sua opinião. A mesma, obviamente, dos autores do livro, porquanto transcreveram sua experiência.


7 – Ao que parece, analisando o assunto à luz da Doutrina Espírita, é que as crianças índigo são Espíritos dotados de alguma intelectualidade, mas com um descompasso entre a evolução mental e precário desenvolvimento moral.

Exatamente. Não constituem novidade. Desde sempre tivemos no Mundo gente assim. Espíritos que reencarnam com uma grande missão, não em relação à Humanidade, mas a si mesmos: a missão de se renovarem, de superarem suas mazelas e imperfeições, o que, de resto, é a finalidade precípua da existência humana.

A maior parte do conteúdo de Crianças Índigo relaciona-se com orientações para cuidar delas. Diga-se de passagem, são úteis no cuidado de qualquer criança.

Liberdade vigiada, diálogo, tolerância e muito amor.


8 – Há quem veja nas crianças índigo a nova geração a que se refere Allan Kardec, em "A Gênese", no capítulo 18.

Isso é lamentável. Basta evocar algumas características citadas pelo Codificador para desfazer esse engano. 

Diz Kardec:
Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente ao bem se dediquem.
Em cada criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem.
Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sentido inato do bem e a crenças espiritualistas, o que constitui sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior.


9 – Poderíamos situar essa nova geração como homens que se orientam pelo Bem, embora não sejam puros e perfeitos?

É o mais lógico. E Kardec nos dá algumas características de Espíritos dessa natureza, em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII.
Algumas delas:
O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa dele; enfim, se fez a outrem tudo o que desejara lhe fizessem.
Deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria. Sabe que sem a Sua permissão nada acontece e se Lhe submete à vontade em todas as coisas.
Tem fé no futuro, razão por que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.
O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus.
Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não lança anátema aos que como ele não pensam.
...Estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las. Todos os esforços emprega para poder dizer, no dia seguinte, que alguma coisa traz em si de melhor do que na véspera.
Se a ordem social colocou sob o seu mando outros homens, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para esmagá-los com o seu orgulho. Evita tudo quanto lhes possa tornar mais penosa a posição subalterna em que se encontram.
O subordinado, de sua parte, compreende os deveres da posição que ocupa e se empenha em cumpri-los conscienciosamente...


10 – Dá para perceber que as crianças índigo não se enquadram nessas e em outras características do homem de Bem.

Sem dúvida, embora isso não constitua desdouro para elas, já que raras pessoas na Terra comportam-se assim.
Eu diria que as crianças índigo são Espíritos às voltas com sérios problemas relacionados com desvios do passado. Inteligentes, cultos, trazem complexos quadros de perturbação, a situá-los no limiar entre o Bem e o Mal, dependendo de suas escolhas e disposições, como de resto ocorre com todos nós, em maior ou menor intensidade.


11 – Diz Kardec, em "A Gênese", que a nova geração não se comporá exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, já tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as idéias progressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração. 
Isso significa que não haverá uma revoada de anjos, estabelecendo maioria na Terra?

Sim. Seremos nós, encarnados e desencarnados, que comporemos a nova geração, à medida em que, conscientes de nossas responsabilidades, aprendermos a combater nossas imperfeições, ajustando-nos às leis divinas.

É a grande meta para todos nós, índigos ou não.




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15 novembro 2012

Dica de vídeo: "As cores do lixo", de Marcos Galinari



Um dia em um pequeno galpão de reciclagem. Todos os restos e as sobras. Aquilo que ninguém quer.

“As Cores do Lixo” mostra a sustentabilidade na prática.

Curta metragem de 26 minutos do diretor e roteirista Marcos Galinari, que retrata um dia de trabalho num pequeno galpão de reciclagem de São Caetano do Sul, localizada na região do ABC paulista.

“Uma de nossas propostas é investir em pessoas comuns e suas histórias cotidianas.
Procurávamos um tema quando notamos que a movimentação de carrinheiros aqui no entorno da produtora (a Blá Filmes) era intensa e permanente.
Até então invisíveis aos nossos olhos, apenas mais um detalhe da paisagem urbana, eles não estavam de passagem: vinham e iam para algum lugar com um destino, um objetivo. 
Uma breve investigação nos levou ao galpão, ao contato com os proprietários, com todos os envolvidos no processo. Pronto, tínhamos a nossa história”, resume o diretor.

As imagens de “As Cores do Lixo” foram gravadas em dois momentos, a primeira em 2009 e a segunda em 2011. 

Por que um intervalo tão grande? “Porque queríamos interferir o mínimo possível na rotina de trabalho do galpão e porque queríamos saber o que tinha mudado na vida daquelas pessoas entre um momento e outro”, responde Galinari, indicando que esta história ainda não terminou. Poderá, portanto, gerar filhotes.

Vale a pena conferir!






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Pimentas são frutinhas coloridas que têm poder para provocar incêndios na boca.
Pois há ideias que se assemelham às pimentas: elas podem provocar incêndios nos pensamentos... Basta uma brasa. Um único pensamento-pimenta...

(Rubem Alves)

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Uma viagem eterna...



A viagem não acaba nunca.
Só os viajantes acabam.
E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa.
Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra.
É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.
É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles.
É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
O viajante volta já.

(José Saramago,  in “ Viagem a Portugal”)

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