"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

11 dezembro 2012

O andar de cima



Conta-se que a mãe de São Pedro era extremamente zelosa de seus haveres. Vivia, digamos com o devido respeito, comprometida com a sovinice.

Embora se trate de um pecado capital, desses passíveis de remeter o indigitado para as caldeiras do pedro-botelho, foi piedosamente encaminhada a ameno estágio no purgatório, talvez por deferência ao seu ilustre filho.

Não obstante, o santo sofria com a situação.

Precursor do jeitinho brasileiro, apelou para Jesus, pedindo-lhe que a transferisse para o “andar de cima”. 

O Mestre dispôs-se a atender, mas era preciso cumprir básico requisito: descobrir se alguma vez, ainda que remotamente, ela “emprestara a Deus”. Traduzindo: exercitara a fraternidade? Doara algo a alguém, ao longo da existência?

O apóstolo deu tratos à bola, na ingrata tarefa de descobrir um gesto de legítimo desprendimento por parte da querida genitora, de índole boa, mas relutante em “abrir a mão”, quando solicitada.

Espremendo os miolos, lembrou-se.

Certa feita, ajudara uma vizinha. Dera-lhe um ramo de salsa.

Era muito pouco, mas, com sua infinita generosidade, Jesus deu-se por satisfeito. Recomendou:
Estenda-lhe esse raminho. Que ela se agarre nele.

Animado, o apóstolo cumpriu a orientação.

A matrona começou a subir…Ocorre que a planta era frágil.

Já às portas celestes, administradas pelo filho, rompeu-se a salsa, deixando-a nas adjacências.

Diria o poeta:

Livrou-se do purgatório,
Mas o Céu não alcançou,
A flutuar no espaço ficou.

***

A história inspirou um adágio popular.

Quando alguém se sente desarvorado, sem ponto de apoio, sem direção, diz-se: “Está como a mãe de São Pedro.”

Pessoas assim, longe de constituir exceção, representam a maioria.

Muitos querem o céu interior – paz, saúde, alegria…Concebem conquistá-lo integrando-se em atividades religiosas, envolvendo ritos e rezas, ofícios e oficiantes.

Ocorre que esses liames com o Céu são frágeis como um ramo de salsa. Não resistem às agruras da Terra, com seu cortejo de dores e problemas.

É preciso usar material mais consistente, a partir da disposição em aderir plenamente aos princípios de sua crença, ultrapassando a débil superficialidade.

Participar mais assiduamente, colaborar mais ativamente, trabalhar mais intensamente em favor da própria renovação.

Vacilam, porque isso tudo implicaria na renúncia ao imediatismo terrestre, às tendências egocêntricas, aos prazeres sensoriais, às experiências passionais e, sobretudo, ao comodismo e à indiferença que marcam o comportamento humano.

Por isso, pairam sem rumo e sem estabilidade. Rompendo-se facilmente as frágeis convicções a que se agarram, flutuam na incerteza, perdidos na vacuidade existencial.

***

Para atingir os páramos celestes, recôndita região na intimidade da consciência, onde encontramos as benesses divinas, é preciso muito mais.

Fundamental eleger o espírito de serviço como inspiração de nossas vidas, a partir da regra áurea ensinada por Jesus (Mateus, 7:12):
Tudo o que quiserdes que o próximo vos faça, fazei-o assim também a ele.

Então, sustentados por asas de virtude e merecimento, não haverá problemas.

Atingiremos, facilmente, o “andar de cima”.


(extraído do livro "Para Rir e Refletir", de Richard Simonetti)


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