"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

17 janeiro 2013

Carta de um suicida



Paulo,

Te mando esta carta de um lugar que não conhecia. 

Cheguei aqui há algum tempo atrás, sem mesmo saber por que (Cara! Que doideira! Dancei geral).

Toda minha vida, você sabe, fomos de bar em bar, de festa em festa, fumando, bebendo, cheirando e tomando todas – era beleza pura!

Me lembro que fazia ouvidos moucos para advertências paternas, que davam conta de que a farra acabaria mal. Lembra? A gente nem se ligava naquilo!

Logo eu, garotão esperto, sarado, das praias da zona sul do Rio de Janeiro, entrar numa furada? “Pára com isso!” – era o que eu respondia...

Vivi a juventude extravagantemente, usando de meu corpo tal como mina, para conseguir mais dinheiro para as bebidas e o tóxico.

Mas era a onda, o barato!

Aos trinta, conheci a decaída, a doença, a perda dos "amigos", só você ficou comigo (mas ... Fala sério! ... foi só porque você estava tão doidão quanto eu). Mesmo assim, seguia, tossindo, tropeçando e sangrando, a zombar da morte... até que dancei!

Hoje, depois de ter passado a pior fase, me encontro em melhor estado. E nesse momento, em que a lucidez fica comigo mais que breves momentos, pela mão deste amigo que te escreve, dito estas palavras desalinhadas.

Cheguei aqui, sem dar cobro de mim, após ter morrido, passei vários anos ainda agarrado ao corpo malhado de praiano do Rio de Janeiro, curtido pelo sal e bronzeado pelo sol de Ipanema e Leblon (Copa era muito caída pra mim, você sabe).

Quando consegui acordar, me lembro que gritava e xingava aqueles que tão gentilmente tratavam de mim. Comecei a relembrar os tempos em que a tumba se fez minha morada; nela me contorcia ao ver meu corpo musculoso apodrecer, servindo de pasto aos vermes. Recordo que me assustei.

Mas, fora dele, procurava o convívio insano dos colegas de vida fácil, os locais de folguedos e firulas novamente. 

Acercava-me daqueles que antes se diziam amigos e que agora  a mim dirigiam pesadas palavras. Diziam uns: - Foi bobeira, dançou de otário! Outros falavam: - Foi bem feito, o cara abusou ...

Mas eu, simplesmente, sorvia deles seus eflúvios etílicos intoxicados pelos barbitúricos e saciava minha dependência. A festa continuava!

E  de volta à cova, um dia, alguns benfeitores me resgataram à força da carne putrefata, do corpo arrasado. Foi muito tempo  de preces, trabalho e cuidados desses a quem hoje tanto devo.

Já me sinto melhor, os amigos deste que agora escreve, oram e procuram o mais que podem me ajudar, abnegados trabalhadores do bem!

Paulo, não conheci, ainda, esse tal de Jesus, mas tenho certeza de que ele existe, pois todos aqui recebem de pessoas ligadas a Ele recomendações para tratamentos mais eficazes a serem ministrados em mim.

Rapaz, pouco a pouco venho me recobrando, mas ainda sofro muito pelo mal que causei a meus pais, que, enfraquecidos pela idade, não mais podiam me segurar com suas palavras.

Na vida, fiz o que achei melhor, optei pelos sentimentos e emoções mais densos, mais pesados, mas tão embriagantes.

Hoje, quando li na plaqueta da maca meu nome, acompanhado da inscrição suicida, me desesperei e chorei muito.

Eu que dizia amar a vida,provoquei e alimentei minha morte.

Se liga malandro,a bola da vez é você!

Um beijo deste teu brother,

Arthur.




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