"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

28 fevereiro 2013

Saber morrer



Morrer.

Desse destino, nenhum ser humano escapará.

E, no entanto, como tememos esse momento!

Com que dor a maioria de nós pensa no instante da morte.

Fomos ensinados a temer a morte. Ela nos é apresentada como sinônimo de lágrimas, instante de trevas, definitiva separação dos seres amados.

Abismo e tristeza. Aprendemos que a morte se faz de luto e mistérios, névoa e saudade.

Mas é preciso que nos preparemos para a chegada da hora final. Afinal, a cada dia se reduz nossa estada na Terra.

Desde que nascemos, cada respiração assinala a diminuição de nosso tempo no planeta.

Porque o ritmo da vida material nos envolve  e quase sem perceber, deixamos de lado a lembrança de que caminhamos mais um passo em direção à morte.

O fim é apenas do corpo físico, pois a alma – a essência do que somos – esta existirá para sempre. Os séculos correrão, mas nós... Nós sobreviveremos.

Nessa longa estrada que é a vida, muito iremos aprender. Outros amores, parentes, lugares e situações irão enriquecer a nossa experiência.

E muitos outros corpos servirão de instrumento para o nosso aprendizado.

Por isso, nada de demasiado apego ao corpo. 

Ele é importantíssimo, mas é uma ferramenta de trabalho. Nele temos apenas um auxiliar para a nossa educação.

Com a ajuda desse corpo, vivemos na Terra, construímos uma família e nos relacionamos com outros seres humanos. Ele é essencial para a vida em sociedade que burila o nosso Espírito.

E  no contato com as outras pessoas temos a oportunidade de exercitar paciência, tolerância, solidariedade e ética.

Enfim, pôr em prática gestos e situações que são puras manifestações de amor.

E não é esse o objetivo maior de nossa vida: descobrir, exercitar e vivenciar o amor?

Nada há a temer na morte quando a vida é plena em amor, quando os dias são perfumados pela bondade, quando a consciência é reta e o dever cumprido.

Quem vive assim – de coração sossegado e plantando alegrias – aguarda que a vida cumpra seu ciclo natural.

Para este, a hora da morte é serena. Abrirá os portais de um mundo novo, cheio de descobertas: a Casa do Pai Celeste.

Um homem de bem morre como alguém que descansa após um dia de trabalho bem feito.

Não tem apego a nada, pois sabe que deve devolver a Deus tudo o que recebeu.

A renovação é a regra geral da natureza. Quando a morte chega é a hora de devolver ao Mundo o corpo frágil, que se misturará às águas e à terra.

Será consumido, alimentará micro-organismos. Outros seres viverão a partir dali.

E o homem que usou aquele corpo estará longe: abrirá os braços para o infinito.

Seus olhos contemplarão estrelas, luzes, cores e formas nunca sonhadas.

Seguirá com o coração em festa.

Pronto para novas experiências, disposto a aprender e a amar.

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O poeta Rabindranath Tagore, Prêmio Nobel de Literatura, escreveu sobre a própria morte:

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs.
Eu já devolvi  as chaves de minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro, apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não perguntem o que levo comigo:
Sigo de mãos vazias e coração confiante.

(Redação do Momento Espírita)



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