"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

26 julho 2013

Ir além da dor


Um texto sobre a meditação e seus caminhos nem sempre fáceis, mas que também discorre de forma interessante sobre a dor do corpo e da alma e como enfrentá-las...

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Ir além da dor


Ir além de: precisamos de uma clarificação.

No nosso andar cotidiano passamos pelas coisas - e as deixamos para trás.

As coisas "aproximam-se" e "distanciam-se". Neste aproximar e distanciar, algumas vezes dizemos que vamos "além de" algo.

Ultra-passamos, trans-passamos, "para"-passamos. Deixamos para trás; nós e as coisas estamos "além".

A dor também é algo que se nos aproxima e distancia.

Podemos sentir a sua aproximação e dela nos refugiar, abrigar, proteger.

Sentados peri-imóveis, vemos a sua aproximação. A mão de ferro da dor nos comprime, devagar mas sem hesitação: é decidida, não duvida.  Nos deixamos ficar tensos na compressão deste amplexo.

Assim estamos, então, sentados e em dor. A dor está presente: aproximou-se, porém não se distancia. Diferindo de um ponto pelo qual passamos e deixamos "para trás", a dor permanece. Se desistimos do nosso sentar, evitamos a dor - nos abrigamos dela. 

Mas assim vamos para além dela?

Não; somente a anulamos como possibilidade de ser. Ela torna a ser quando as condições estão postas. 

Torna-se claro que ir além da dor, então, não é dela se distanciar como algo no mundo, como o seria ir além da árvore na esquina. "Ir além" da dor é ultrapassa-la incluindo-a.

Ultrapassar incluindo é como virar a luz da vela para iluminar a chama.

Ao sentar, sentimos a dor. Ela continua existindo, como dor, mesmo quando vamos "para além" dela. Não nos tornamos insensíveis, dela, como dor; não fugimos. Lá - aqui - ela está e continua.

É preciso a aguda e perfurante determinação para ir além da dor; é preciso uma cálida paciência para aprender a soltar, relaxando, nosso corpo da gélida mão pétrea da dor.

É por isto que ir além da dor sempre foi descrito em tons heroicos; determinação e "coragem" são a marca do herói - força de leão, olhar de águia. 

Fora isto, ir além da dor não tem precisamente nada de heroico; é simplesmente a pura determinação de vivenciar o shikantaza* em sua simplicidade.

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O melhor a fazer, com relação a dor durante o zazen**, é: vá um pouco além do ponto que você costuma aguentar. 
Depois, simplesmente troque de posição, se preciso. 
Ficar com a dor "heroicamente" deve ser uma escolha, e não uma obrigação. 
Não faça mal a si mesmo, a dor é um bom sinal de algo que não está tão bem assim.

(Seigaku)




*Significa, literalmente, "apenas sentar"

** é a base da prática Zen Budista. O objetivo do zazen é "apenas sentar", com a mente aberta, sem apegar-se aos pensamentos que fluem livremente.




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