"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

21 setembro 2013

Ser como se já não fossemos...



É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes,
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta, nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto, o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, a idéia de recompensas e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos, vigiados pelos próprios olhos, severos conosco, pois o resto... o resto não nos pertence.

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Cecília Meirelles nos faz pensar e viajar por entre suas palavras singelas e profundas.

Seria possível viver como se já não fôssemos, em um mundo de tangibilidade plena como o nosso?

Seria possível como que viver em dimensões diferentes ao mesmo tempo? e, será que já não vivemos?

Há uma parte de nós vivendo na esfera ponderável, da matéria, das necessidades de sobrevivência.

Há outra, habitante do eterno, onde os espelhos do mundo não refletem nada, imponderável, espiritual.

Viver como se já não fôssemos, pode significar estar no mundo, sem ser do mundo.

Dependemos do material para a sobrevivência, para a manutenção da encarnação.

Porém, nosso coração, nossas mais valiosas energias podem estar sendo investidas nessa vida maior, na vida eterna do Espírito imortal.

Quando investimos no amor, na doação, no sorriso para os infelizes ao nosso redor, estamos sendo como se já não fôssemos, pois estamos vivendo o espiritual, o permanente, acima do efêmero, do passageiro.

Quando investimos no autoconhecimento, buscando em nós, diariamente, o que precisa de reforma, estamos sendo como se já não fôssemos.

Quando não esperamos as recompensas e glórias do mundo, vivendo com leveza o dia carregado de atos, estamos sendo como se já não fôssemos.

Severos conosco, no sentido de vigiarmos nossos pensamentos e atos, dando conta de nossa própria administração.

Não a severidade que pune, que enche de culpa, mas aquela que previne e que corrige sempre, evitando perdermos tempo em caminhos infelizes.

E o resto... o resto não nos pertence.

Pertencem a Deus a Lei e a Justiça. Pertence à consciência de cada um seu próprio julgamento.


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