"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

25 fevereiro 2014

Depoimento de um guerreiro



Glória ao Pai pelo dia de hoje. Bendito sejas Senhor Jesus, por permitir minha humilde comunicação.

Em épocas passadas, sofri amargas desilusões quando caminhei pela Terra. 

Somente desejei as conquistas guerreiras pelo mundo, mas sucessivos bloqueios fizeram-se presentes contra meus intentos. 

Guerreiro de espírito mordaz, eu era a personificação do deus
Marte.

Amava a batalha e o espírito belicoso estava sempre pronto para dar vazão a sentimentos hostis.

Quando enverguei um alto posto de chefia de um grande exército na Antiga Grécia, almejávamos, primeiramente, conquistar cidades próximas a minha Esparta. Dominamos populações de menor vigor, mas de grande cultura. 

Estas populações, não vergando-se totalmente sob a força da espada, trataram de influenciar-nos pela cultura. Assim, os domínios conquistados logo passaram da submissão completa à colaboração para a manutenção do império. Era apenas ilusão querer subjugar, completamente, espíritos que eram livres por
natureza.

Um dia, encontramo-nos com tribos de origem persa. Estes homens, com outro tipo de índole, eram adversários mais difíceis de combater. 

Davam-me prazer as batalhas travadas com eles. Porém, fui ferido mortalmente em determinada oportunidade. Por conseqüência,
encontrei-me com a morte, a suprema realidade. 

Desnudado em meus receios e fraquezas, caminhei necessitando de ajuda para meus ferimentos que não cessavam de sangrar. 

Hordas de soldados enlouquecidos exigiam-me ordens e conduta de comando, como chefe militar que era. Reaprumei-me como pude e arrebanhei, a muito custo, homens em estado não tão ruim.

Planejava um período de breve recuperação, para organizar um contra-ataque aos persas, que haviam vencido a última batalha. Não entendia que a morte havia me atingido.

Permanecemos longos anos desta forma, digladiando contra os nossos inimigos, também desencarnados e semi-enlouquecidos como nós. Lutávamos até a exaustão para, depois, retornarmos à carga contra os adversários, num círculo vicioso terrível.

Após longo tempo, cansado demais, resolvi buscar o diálogo com o chefe inimigo. Ele, para minha surpresa, havia tido a mesma idéia. 

Acordo feito, buscamos todos retornarmos para as nossas respectivas terras.

Qual não foi o meu espanto quando, atingindo Atenas e outras cidades gregas, bem como a minha adorada Esparta, ninguém nos reconhecia ou parecia enxergar. Onde as honras militares? Onde o respeito das cidades gregas menores?

Pensei que havia perdido a razão. Então, um luminar de nosso país, de repente apareceu à frente de meu exército combalido e discursou. 

Belas palavras tocaram nosso íntimo e entendemos que não mais estávamos entre os vivos. 

Mudos pela surpresa, recapitulamos vários momentos de nossa vida terrena. Em seguida, entramos em forte torpor que nos tirou a
consciência.

Reencarnamos todos, como um grupo que éramos, em terras banhadas pelo sol do deserto. Dura vida se nos descortinou. O ambiente hostil favoreceu-nos a índole guerreira e novamente vivemos uma vida baseada na espada.

Nômades, caminhamos a esmo em busca de conquistas e riquezas. 

Algo em mim, porém, bradava interiormente. 

Onde eu chegaria? Não haveria um oásis onde pudesse descansar? Água fresca para dessedentar o espírito? Sim, eu necessitava de algo mais que aquela vida sem rumo e sem finalidade.

Assim, atingi a maturidade e novamente conheci o vale das sombras, vitimado por uma moléstia devida à insalubridade. 

Cheguei ao outro lado da vida e, amargurado, continuei à busca de um oásis.

Minha alma era um deserto. Nada havia senão sangue e dor. Não desejava mais tão dura forma de vida e queria paz. O Senhor, dono dos destinos humanos, atendendo aos meus anseios, concedeu-me nova oportunidade na Terra.

Renasci sob papel diverso daquele que tinha representado no passado. Era, agora, um pobre enjeitado que se fez mendigo.

O valente guerreiro estava sendo obrigado a humilhar-se para sobreviver. 

Nasci com as mãos tortas para não mais empunhar a espada. Estas mãos, agora frágeis e sem bom movimento, só podiam aceitar esmolas.

Dura vida tive novamente, porém não mais manchada com o sangue do próximo. 

Desencarnei em idade avançada, após difíceis provações e sob o guante de doença perniciosa, que me fez ser rejeitado pela sociedade.

Morri só, mas, ao despertar do outro lado, minhas mãos estavam perfeitas e meu corpo não apresentava as manchas e deformidades típicas da lepra.

Fui recebido por luminoso espírito, que deu-me a mensagem de que estava mais purificado. Eu poderia, após estágio de descanso e aprendizado, retornar à Terra com a missão do sacerdócio.

Pela primeira vez, desde tenra idade no mundo material, receberia instrução religiosa adequada.

Rejubilei-me com a chance e desejei ardentemente absorver a idéia de Deus em mim.

A busca interior delineava-se, agora, com maior clareza. O que antes era indefinível, naquele momento tomava corpo e conteúdo.

Voltei ao plano terreno em localidade cristã, onde, abandonado pelos pais, fui recolhido a mosteiro afastado da área urbana. Na vida agreste e dura, mas saudável, aprendi a orar e a olhar para o céu com a esperança do paraíso celeste.

A vida à minha volta era simples e o céu era o meu estímulo e objetivo maior. 

Almejei à santificação, mas, nos dias que iam, a guerra ainda era irmã do homem. E ela bateu à porta da minha vida, exigindo-me o corpo de carne. Morri pela espada e não acordei no céu. Contudo, fui amparado por um seu enviado.

Com ele recapitulei vidas passadas e, assim, adquiri compreensão maior sobre a vida, a morte e o caminho evolutivo da alma para Deus.

Recebi nova oportunidade, renascendo novamente num meio que propiciou-me o sacerdócio.

Desta feita, pude concluir minha tarefa integralmente, tendo êxito, apesar das limitações do pensamento reinante na época, podendo realizar um vôo maior em direção ao Pai.

Hoje, regenerado e em busca de nova oportunidade de experiências edificantes na Terra, rogo a Deus que a Sua Luz uma vez mais possa me inspirar.

Que as duras provas do passado não mais sejam necessárias para o burilamento do meu espírito.

Espero, agora, com novas convicções na alma, viver uma encarnação plena e consciente.



Otávio  


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Fonte: "Depoimentos do Além", de Pablo de Salamanca (médium)


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