"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

08 abril 2014

Cuidadora de idosos: vivências de trevas ou de luz?



Alguém que experimenta a condição de cuidar de uma pessoa idosa, seu familiar, um ente amado, fruto de relações saudáveis e que no momento encontra-se em condições de saúde física e mental satisfatória, talvez fique num primeiro momento espantado com o título desta matéria.

Por outro lado, aquele que há muito tempo navega por estas águas, o “mar do cuidado”, sabe exatamente do que vamos abordar.

O cuidar é inerente à vivência dos humanos.

Pode acontecer de a pessoa ter que assumir de forma súbita e inesperada a tarefa cuidativa.

Os motivos de assumir tal compromisso vão da opção à obrigação, muitas vezes, por ser a única pessoa disponível para cuidar.

Tenho observado nas minhas leituras, de estudos e também da realidade, que essa tarefa é eminentemente feminina, raras são às vezes que encontramos a figura masculina a frente desta situação.

Assim, desejo iniciar minhas considerações tomando por partida a questão de “assumir de forma súbita e inesperada a tarefa cuidativa”.

O que significa isso na vida de uma pessoa? O que significa para uma mulher, de um momento para o outro assumir tal compromisso? Alguém que está lendo a matéria, poderia refletir, por um momento apenas, e se perguntar: estou preparado para tal?

Minha experiência como profissional de saúde, que há muitos anos compartilha vivências com cuidadores de idosos, sob diversos aspectos revela que se tornar cuidadora de uma pessoa idosa de forma súbita e inesperada significa uma verdadeira “revolução no cotidiano”.

Pode ser que signifique uma sucessão de renúncias: a mulher demite-se do emprego, desiste de projeto de vida, abandona suas atividades de lazer, abdica da sua privacidade, renuncia os momentos de folga, resigna a uma condição solitária de cuidadora e por vezes cede as “falsas chantagens” da pessoa cuidada.

Por vezes, é o abandono de si, em função do outro.

Seguindo, quanto aos determinantes deste compromisso, o motivo pode ser “da obrigação a única opção”.

Quando se é filha, mãe, irmã ou cônjuge, qualquer que seja o tipo de relação construída ao longo da vida, a mulher encara para si tal tarefa e leva adiante até o momento derradeiro da missão cumprida.

Quando se é nora, existe uma particularidade, em especial, o homem aceita muito bem, se a sua mulher cuida do seu pai ou da sua mãe, mas quando a situação se inverte, quando a “sua mulher” precisa cuidar do pai ou da mãe dela, nem sempre o companheirismo prevalece.

Frequentemente, encontramos casos em que o homem abandona o barco, preferindo navegar em outros mares, deixando sua companheira a deriva; quando eles não desistem, repudiam os momentos de dedicação da cuidadora para com o Ser cuidado.

Diante desse cenário, cuidar pode ser uma vivência de “trevas”, de sofrimento, cansaço e perdas.

Faz-se necessário abordar essa questão. Pode ser que muitas cuidadoras passaram, estão passando ou talvez, por momentos, se encontrem no mesmo barco.

Quando conhecemos outras realidades chegamos a conclusão que nossas experiências são partilhadas por tantas outras pessoas, isso de certo modo nos conforta, pois começamos a entender que determinados fatos da vida são factíveis a muitos.

Por outro lado, é importante que, enquanto cuidadoras, não nos abandonemos a própria sorte, não venhamos a navegar e nos afogar num mar de lamúrias.

Passar por vítima ou despertar a piedade alheia, não nos ajuda em nada; muito pelo contrário, só aumenta o peso do “fardo”, ou seja, faz do nosso dia a dia uma vivência pesarosa.

Precisamos, sim, ter a consciência que mesmo diante de certas circunstâncias, somos o caminho de luz para aqueles que dependem de nós.

Aquele ser humano frágil, dependente, incapacitado e que muitas vezes perdeu a razão da sua mente, conta apenas com a sua cuidadora, aquela mulher, que em algum momento do seu viver, assumiu para si tal compromisso.

Muitas vezes, ela nem se dá conta do quanto sublimes e solidárias são as pequenas ações do dia a dia: um bom dia, um olhar que enxerga aquele que está na sua frente, uma escuta sensível, que é capaz de ouvir o que está por traz de um lamento.

São vivências de luz - se em cada um de nós existe uma partícula divina, talvez por isso tenhamos que valorizar tanto as nossas relações, principalmente as cuidativas.

Não basta cuidar pensando no outro, enquanto corpos enfermos.

Precisamos cuidar pensando no outro, enquanto uma alma enferma.

Somos, sim, um feixe de luz.

Cuidar é iluminar a escuridão do outro.



(Prof. Dra. Marilene Rodrigues Portella)







* * *