"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

30 setembro 2014

O retrato


Fingindo sorriso maroto a menina aconchegou-se à frente da máquina de fotografia.

Ajeitou o cabelo, o brinco, a gola do vestido.

Enfim, a luz se acendeu e, toda boba, saiu da cabine de fotografias.

Queria logo saber o resultado . Ver a foto.

Sonhou enviar a foto a um concurso de beleza. A um estúdio de televisão.

Que Sonho!

Via-se cheia de luzes, atenções e de "paparicação".

Envolvida por tais sonhos, não viu o tempo passar.

O fotógrafo revelou a foto e deu-a com grande emoção! Estava lá , retratada, a mocinha, seu sorriso, lindos olhos e sua ambição.

50 anos depois, a madura mulher segura, trêmula, a foto da mocinha toda enfeitada.

Lembrou-se então do caminho trilhado: escolhera ser mãe, chegaram-lhe 3 filhos. Hoje crescidos. 

Recebera da vida 4 netos. Queridos ao seu coração. O marido morrera há pouco.

Olhando o rosto da menina que fora: alegre com olhos brilhantes, refletiu.

Nenhum concurso de beleza, ou destaque na televisão seria tão importante quanto o amor que vivenciara pelo companheiro, pelos filhos e netos. Estava em paz.

Findava a reflexão.

Os olhos estavam em contemplação. Agora, surpresa, parecia visualizar o companheiro que já partira, vindo em sua direção.

Assustou-se. Chegara a hora de sua libertação?

A cabeça cheia de sonhos de mocinha convertera-se em pensamentos cheio de saudades e de admiração em relação à vida, com seus desafios, lutas, ganhos e perdas.

Com um impulso emocional teve vontade de entregar-se aos braços do companheiro que se lhe apresentava.

O corpo amolecera. Sentia-se fraca.

A visão anuviava-se.

A cabeça, então, caiu sobre o peito. As mãos arrefeceram-se em segurar a bengala.

No caminho que imediatamente conseguia enxergar ouvia aplausos e vivas!

Eram os seus admiradores - no mundo espiritual. Não convertera seus dias em glórias e em gozos efêmeros. Fizera-se mãe, avó e servidora de todos.

Assim como tantas outras historias e sonhos de jovens, que se desenvolveram em realizações e escolhas maduras.

Meu caro leitor, ao observar os sonhos juvenis, com seus arroubos e excessos, esplendores, tem paciência.

O menino e a menina que hoje sonham ser artistas premiados, astronautas, vencedores e invejados em sua beleza, serão amanhã homens e mulheres que realizarão a vida, farão justiça e construirão um mundo que se sustentará sobre as bases do amor.

E terão a consciência de que o brilho da vida se faz do ritual amargo do dia a dia, enfeitados pela manifestação do amor.


O Poeta V. de M.

(28/01/2014)







* * *