"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

30 setembro 2011

Passagem das Horas (Fragmento) - com Marco Nanini - CD Música em Pessoa


 

Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fizésseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco...
(Álvaro de Campos)

Procura-se



Numa época em que as carências afetivas parecem estar em alta, um anúncio anônimo em um mural chama a atenção dos que passam. Todos, sem exceção, param e lêem:

Procura-se um homem. Um homem que não tema a ternura. Que se atreva a ser frágil quando necessite se deter para recuperar as forças para a luta diária.

Um homem que saiba proteger o ser a quem devotar o seu amor. Um homem que queira e saiba reconhecer os valores espirituais e que sobre eles saiba construir todo um mundo.

Um homem que, em cada amanhecer, saiba ofertar amor com toda a delicadeza para que uma flor entregue com um beijo tenha mais valor que uma jóia.

Procura-se um homem com o qual se possa falar, que jamais corte a ponte de comunicação. Um homem a quem se possa dizer o que se pensa, sem temor de que se ofenda e que seja capaz de dizer a sua esposa, namorada ou mãe que a ama.

Procura-se um homem que tenha braços abertos para que sua amada neles possa se refugiar quando se sentir insegura. Que conheça sua fortaleza, mas que nunca se aproveite disso.

Um homem que tenha os olhos abertos para a beleza. Que domine o entusiasmo e que ame intensamente a vida. Um homem para quem cada dia seja um presente de valor incalculável que deve ser vivido plenamente, aceitando a dor e a alegria com igual serenidade.

Um homem que saiba ser sempre mais forte que os obstáculos. Que jamais se apavore ante a derrota e para quem os contratempos sejam mais estímulos que adversidade, mas que esteja tão seguro de seu poder que não sinta necessidade de demonstrá-lo a cada minuto em empreendimentos absurdos somente para prová-lo.

Um homem que não seja egoísta. Que não peça o que não ganhou, mas que sempre faça esforços para ter o melhor.

Um homem que saiba receber carinho, tanto quanto demonstrá-lo.

Um homem que respeite a si mesmo, porque assim saberá respeitar os demais. Que não recorra jamais à ofensa, que sempre rebaixa quem a faz.

Um homem que não tenha medo de amar, nem que se envaideça porque é amado. Que goze o minuto como se fosse o último. Que não viva esperando o amanhã porque talvez ele nunca chegue.

Finalmente, quando este homem for encontrado, qualquer mulher o desejará amar com intensidade e com ele compartilhar a sua vida.

* * *

Todos temos fome. Fome de pão, fome de amor, fome de conhecimentos, de paz e de amizade.

A fome de pão que tanto aparece é a que mais comove e, contudo, existem outros tipos de fome.

A fome de amor, dentre todas, é a mais difícil de ser saciada. 

Muitos passam a vida inteira sem que ninguém lhes estenda uma migalha de carinho.

Aprendamos a reconhecer a fome de quem nos fala, de quem conosco convive, entendendo que quanto maior a fome, mais escondida se encontra e a busquemos saciar.

Recordemos os versos da oração franciscana: “Senhor, que eu ame mais do que pretenda ser amado...”


(Redação do Momento Espírita, com base no cap. “Todos temos fome", de Amado Nervo e no cap. “Minha procura não é simples”, de autoria ignorada, do livro “Um presente especial”, de Roger Patrón Luján, Ed. Aquariana.)





29 setembro 2011

Beethoven e a Espiritualidade


A Terra já recebeu em seu seio almas generosas, espíritos superiores, que trazem valiosas contribuições para o seu progresso.

Alguns desses espíritos vêm com o objetivo de alavancar o progresso e fazer evoluir a humanidade.

Suas vidas deixam marcas luminosas, que desafiam os tempos.

Ludwig Van Beethoven foi uma dessas criaturas.

Nasceu em Bonn, na Alemanha, no ano de 1770 e morreu em Viena, na Áustria, em 1827.

Seu viver foi uma vertente constante da música que sublima e enleva os sentimentos.

Foi o autêntico médium da arte refinada de compor. Para ele, a música "era uma revelação divina, uma revelação mais sublime que toda a ciência e toda a filosofia."

Seu viver foi um calvário pontilhado por muitos sofrimentos físicos, destacando-se a surdez que o isolou do mundo.

Ele nos deixou nove sinfonias, 12 sonatas, concertos, quartetos e uma única ópera, Fidelio. Tudo de imensa beleza.

Seu psiquismo refinado lhe permitia constante permuta com os espíritos superiores.

Diante dos muitos padecimentos que o acometiam, afirmava, sereno e confiante: "Deus nunca me abandonou."

Perguntado, certa vez, se desejava receber determinado título honorífico, apontou para o alto e respondeu: "Meu reino não é deste mundo. Meu império está no ar."

A seguir, concluiu: "Não conheço outro título de superioridade, senão o da bondade."

Bondade da qual ele deu mostras, mais de uma vez.

Em certa oportunidade, um amigo estava em grandes dificuldades. Beethoven o presenteou com uma das suas criações, para que fosse vendida e o dinheiro usado na solução do problema que o afligia.

Era nos bosques que ele mantinha contato com as nobres entidades ligadas à música e à harmonia.

Ali ele fazia suas orações e refazia suas energias. Quando voltava desses encontros, com a fisionomia alterada, respondia a quem lhe perguntava: "o meu anjo bom me visitou."

Em um desses momentos, transformou uma de suas orações, em uma peça musical de grande elevação e apurada sensibilidade: "hino à alegria."

É, ao mesmo tempo, uma exaltação à fé em Deus. Seus versos podem ser traduzidos da seguinte maneira:


"Escuta irmão a canção da alegria o canto alegre do que espera um novo dia.

Vem, canta, sonha cantando / vive sonhando um novo sol Em que os homens voltarão a ser irmãos.

Se em teu caminho só existe a tristeza o pranto amargo da solidão completa Se é que não encontras alegria nesta terra Busca-a, irmão, mais-além das estrelas."


Sempre enaltecia a paternidade divina, afirmando: "Deus, acima de tudo."

O lema que norteou seus passos, entre nós foi: "Fazer o bem que possa. Amar, sobretudo, a liberdade. E, mesmo que seja por um trono, jamais renegar a verdade."







Carta para o jovem eu




"Caríssimo, bom dia.

É exatamente assim que os dias devem ser: bons.

Pouco importa se estiver chovendo ou se estiver sol na rua. Acorde e diga que o dia será bom. Aos poucos você vai aprender que bons dias são excelentes. E que dias excelentes são maravilhosos. E que dias maravilhosos são inesquecíveis.

Em um dia inesquecível eu ouvi que o tempo é senhor da razão.

E é.

Entendo a ansiedade de querer tudo o quanto antes. 

Entendo a falta de paciência. 

Entendo que queiras tudo para ontem. Entendo todas as dúvidas que te assolam. Entendo tudo isso. Sabe como eu entendo?

Eu já vivi isso e posso te contar o que aprendi.

Aprendi que a ansiedade e a pressa tapam nossa visão do hoje. 

Aprendi que ficava cansado apenas por esperar. E cansado meu corpo não percebia que o que eu queria sempre estava logo ali, do meu lado, na minha frente, dentro de mim.

Viva o hoje e as coisas que desejas chegarão sempre mais rápido. 

Verás que o tempo estará do teu lado. E terás tempo para fazer o que queres.

Aprenda a agir com a razão.

Aprenda a agir com o coração.

Aprenda que o segredo não é o equilíbrio entre a razão e a emoção, e sim saber em que momentos deves agir com razão ou com o coração.

Seja duro. Somente quando for preciso.

Seja forte com sua moral, seus valores, suas idéias e sonhos. Seja dedicado, que é assim que se constroem os sonhos.

Teus erros o tornarão sábio e cada vez mais preparado. Agora, por mais preparado que estejas, errar sempre será uma possibilidade e por isso deves saber lidar com teus erros.

Errar significa aprender, e aprender significa sabedoria. Se ficares sendo duro contigo jamais perceberá que erraste, e perderás uma bela oportunidade.

Errar é ter a chance mais linda que um homem pode ter: a de aprender e ter algo para ensinar.

Seja leve contigo mesmo. Tente. O que tens a perder?

Relaxe.

Sabemos muita coisa e depois aprendemos que nada sabemos.

A vida é uma estrada com infinitos caminhos. Todos saberão ser difíceis, e cabe a gente escolher aproveitar a beleza e a felicidade existentes em cada um deles.

Por isso, meu caro, aprenda apenas estas duas lições: evolução é uma constante e as respostas para todas tuas dúvidas estão por aí, ao doce sabor do vento.

Acabando, sem acabar: jamais te esqueça de que és uma pessoa só, jamais só.

Por isso, aprenda o que significa humildade. Saiba aprender contigo e, mais importante, com todos os outros. Agradeça todo aprendizado e ensine. Sempre.

Torna-te um multiplicador: aprenda a aprender, aprenda a ensinar. Ensine.

Desejo-te todo um infinito de oportunidades, para que possas a aprender o que fazer com elas.


Eternamente,


Tua alma professora/aprendiz"






28 setembro 2011

Toc Toc Toc


Três velhinhas tomavam o chá da tarde.

Preocupada, ponderava uma delas:
– Minhas queridas, creio que estou ficando esclerosada. Ontem me vi com a vassoura na mão e não me lembrava se varrera a casa ou não.

– Isso não é nada, minha filha – comentou a segunda –, noutro dia, de camisola ao lado da cama, eu não sabia se tinha acabado de acordar ou se me preparava para dormir.

– Cruzes! – espantou-se a terceira. – Deus me livre de ficar assim!
E deu três pancadas na mesa, com o nó dos dedos, toc-toc-toc, enfatizando:
– Isola!
Logo emendou:
– Esperem um pouco. Já volto. Tem gente batendo na porta!

Pois é, leitor amigo, parece que velhice é sinônimo de memória fraca, raciocínio lento, confusão mental…

Sabemos que a evocação do passado e o registro do presente dependem das conexões entre os neurônios, as chamadas sinapses. Há uma perda de ambos com o passar do tempo.

O cérebro também envelhece. Mas, e o Espírito? Não reside no ser pensante, imortal, a sede da memória? Não está ele isento de degeneração celular?

Obviamente, sim!

Ocorre que, enquanto encarnados, dependemos do corpo para as inserções mnemônicas na dimensão física, tanto quanto o pianista depende do piano ou o orador depende das cordas vocais.

Uma das razões pelas quais não temos consciência das vidas anteriores é a ausência de registros relacionados com elas em nosso cérebro.

Pelo mesmo motivo, temos dificuldade para lembrar as experiências extracorpóreas, durante as horas de sono, na emancipação da Alma, como define Allan Kardec.

Natural, portanto, que tudo o que afeta a massa cinzenta, perturbe a memória – acidentes, concussões cerebrais, distúrbios circulatórios, doenças degenerativas, envelhecimento...

Sabe-se hoje que é possível prolongar o viço, cultivando existência saudável – ginástica, alimentação adequada, disciplina de trabalho e repouso, ausência de vícios…

Da mesma forma, podemos conservar, até a idade provecta, a acuidade mental, desde que nos disponhamos a elementar cuidado: exercitar os miolos. Todo labor intelectual, que implica em movimentação dos neurônios, é salutar.

Neste aspecto, os pesquisadores têm valorizado a leitura.

A concentração exigida, quando lemos, é um exercício prodigioso para o cérebro, tanto mais vigoroso quanto maior o grau de concentração e o empenho por digerir o que lemos.

A experiência demonstra: as pessoas que cultivam o hábito de ler chegam mais longe com lucidez, preservam a memória, não obstante o avançar dos anos.

Sem movimentar os neurônios a velhice perde-se em sombras.

É preciso conservar a vivacidade, o ideal de aprender, de desdobrar experiências, considerando que sempre é possível ampliar horizontes, fazer novas aquisições.

Alguém poderia contestar, afirmando que seria pura perda de tempo na idade provecta, em contagem regressiva para vestirmos o pijama de madeira e nos transferirmos para a cidade dos pés juntos.

Ocorre que lá ficarão apenas nossos despojos carnais. Espíritos imortais, habitaremos outros planos do infinito. Portanto, nenhum aprendizado será ocioso.

Um velhinho de oitenta anos propôs-se a tocar piano. O professor alertou:
– Estudo longo e cansativo. Pela ordem natural, o senhor não usufruirá desse aprendizado.
E ele, animado:
– De forma alguma! Se não der para tocar aqui, serei pianista no Além!

Certíssimo! 

É assim que crescemos espiritualmente e mantemos “azeitadas” as engrenagens da mente, para que nunca nos falte esse élan que valoriza e torna feliz a existência, promovendo nossa evolução.

Praza aos céus seja essa a marca de nossos dias.

Toc-toc-toc!


(texto extraído do livro Abaixo a Depressão - Richard Simonetti)







Luiza - Ana Carolina

Baldes D'água


Conta-se que Xantipa, esposa de Sócrates (470-399 a.C.), possuía pavio curto.

Inquieta e irritadiça, não raro ocasionava-lhe problemas.

Certa feita, depois de azucriná-lo por ninharias, enfurecida com sua serenidade, jogou-lhe um balde d'água.

Aos amigos e discípulos que observaram aquela impertinência, ele
comentou, bem-humorado:
- Depois das trovoadas sempre vem a chuva.

Reação típica do filósofo, cujo comportamento era marcado pela serenidade, mesmo diante das turbulências provocadas por aqueles que o rodeavam, particularmente a voluntariosa cara-metade.

As raízes de sua estabilidade emocional estavam nele próprio. Não dependia de fatores externos, dos humores alheios.

Rudyard Kipling (1865-1936), reportando-se às características do homem de verdade, com agá maiúsculo, destaca, no famoso poema "Se": Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem e te acusam disso.

Exatamente como Sócrates fazia, mesmo ao enfrentar situações bem mais graves que aquele inusitado banho.

Demonstrou isso diante da própria Xantipa, quando foi condenado a beber cicuta pelo crime de estimular as pessoas a pensar.

Ela, agitada:
- Sócrates, os juízes te condenaram à morte!

Ele, tranqüilo:
- Os magistrados também estão condenados, pela Natureza. Também vão morrer!

Ela, inconformada:
- És inocente.

Ele, imperturbável:
- Querias que eu fosse culpado?

O caminho dessa admirável estabilidade íntima está na famosa sentença do oráculo de Delfos, não raro atribuída ao próprio Sócrates: Conhece-te a ti mesmo.

Respondendo a uma indagação de Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 919, o Espírito Santo Agostinho revela que desvendaremos o continente interior com a análise diária de nossas ações.

É fundamental identificar o que há de certo ou de errado em nós, aprendendo a cultivar acertos e eliminar desacertos.

Há quem busque ajuda alheia, nesse mister, envolvendo profissionais de saúde, religiosos, amigos de boa vontade.

É válido, sem dúvida, mas melhor seria eleger um roteiro preciso, como um mapa que nos permita devassar os refolhos de nossa alma.

O mais precioso, o mais perfeito, todos o sabemos, é o Evangelho, em que Jesus define e exemplifica os caminhos que devemos seguir.

É preciso investir alguns minutos diários no confronto entre nossos impulsos e a orientação evangélica. E que apliquemos a mesma desenvoltura e rigor com que julgamos o comportamento alheio.

Poderíamos começar pelos "baldes d'água" que nos jogam, quando as pessoas nos contrariam ou nos atingem com leviandades.

O que faria Jesus em nosso lugar?

Lembramos a sua recomendação em O Sermão da Montanha (Mateus, 5:44): “orai pelos que vos perseguem e caluniam.”

Não se trata de mera retórica. Foi exatamente o que fez Jesus, na suprema injúria da Cruz, quando,
elevando o pensamento a Deus, rogou:
- Pai, perdoa-lhes. Não sabem o que fazem.

Emocionalmente não seremos afetados se, em todas as circunstâncias, nos dispusermos a orar pelos que nos injuriam.

Complicado, não é mesmo, leitor amigo?

Contrariar o impulso de jogar uma geladeira em cima do ofensor e, ainda, orar por ele!

Um amigo, homem generoso e dedicado à Doutrina Espírita, explicava:
- Sou cheio de defeitos. Um deles é não levar desaforo para casa. Se alguém me ofende, peço licença a Allan Kardec e suspendo, temporariamente, a fé espírita. Apenas alguns minutinhos, suficientes para colocar o atrevido em seu devido lugar, dizendo-lhe "poucas e boas"!

Nosso querido codificador há de agitar-se na sepultura, ante disparates dessa natureza.

Como justificar semelhante atitude quando prestarmos contas de nossas ações, no retorno à Espiritualidade?

Alegaremos que não sabíamos, que não tínhamos noção de que um comportamento assim é desastroso?

Certamente, esse juiz severíssimo - nossa consciência - não aceitará tal argumento, porquanto a ênfase da Doutrina Espírita está na reforma íntima, que implica em superar tais reações, típicas da inferioridade humana.

Imperioso, nessas situações, além de orar pelos que nos ofendem, pedir por nós mesmos.
Rogar ao Céu, ardentemente, que trave nossa boca, a fim de não nos comprometermos com destemperos verbais.

(Richard Simonetti)

(texto extraído do livro "Abaixo a Depressão" - Richard Simonetti)




Meu filho, eu vejo vultos!


Durante toda a sua vida, a minha mãe foi uma pessoa centrada e racional, tipo "pés no chão". 

Enquanto teve saúde frequentou missas da Igreja Católica e educou seus filhos baseada em preceitos cristãos e valores ético-morais herdados da educação parental.

Era uma pessoa honesta e de princípios definidos. 

No final da vida, quando a sua saúde declinou em razão da idade avançada, ela ainda mantinha-se lúcida e racional.

No entanto, há cerca de três dias de sua passagem para o plano espiritual, ela começou a ver e falar com desencarnados. 

Eram espíritos que foram seus familiares na vida atual e que vinham visitá-la na clínica geriátrica na qual se encontrava.

Conforme relato de sua cuidadora, era no estado de vigília e durante o sono que se intensificavam os diálogos com seus familiares que já haviam morrido, sendo que os contatos se estabeleciam, basicamente, com o seu pai, um irmão e uma irmã que vinham prepará-la para a "partida". 

Em certos momentos, porém, demonstrava inquietação diante da situação, pois o seu conjunto de crenças impedia que ela aceitasse com naturalidade a "experiência antecipada" de contato com os seus entes queridos.

Muito agarrada à família da Terra, questionava a sua partida, alegando aos "visitantes" que ainda não era o momento de partir. 

Na verdade, manifestava um pouco de medo diante do nível de experiências que pra ela era inédito.

Durante o dia, as experiências diminuiam consideravelmente, mas retornavam à noite, tanto que ela resistia ao sono. 

Não eram pesadelos, mas experiências que chocavam-se com o conjunto de crenças construídos em uma vida, cuja vivência espiritual mais intensa ocorreria somente após a morte do corpo físico.

Contudo, mesmo um tanto confusa com os acontecimentos dos três últimos dias, que alternavam "momentos de lucidez com momentos de alucinações" como se referiria mais tarde um psiquiatra do pronto atendimento hospitalar em seu último dia de vida, ela mantinha-se extremamente lúcida e sabia discernir uma coisa da outra, ou seja, o que era da dimensão física e o que era da dimensão espiritual...

E foi no pronto atendimento hospitalar, após passar por vários exames médicos na tentativa de encontrar a origem de sua falta de ar e sensação de fraqueza, que nada revelou de grave a respeito de suas condições orgânicas, que ela acabou sendo encaminhada ao setor de psiquiatria do hospital.

Na cadeira de rodas, atendida pelo psiquiatra de plantão, ela logo respondeu ao seu questionamento, dizendo: "Meu filho, eu vejo vultos e ouço vozes" . 

A partir desse momento, o conjunto de crenças do médico prevaleceu no encaminhamento da situação, sendo que as possibilidades levantadas para o momento foram: crise psicótica ou sintomas demenciais, o que exigiria para o dia seguinte, agendamento com outro psiquiatra para uma devida avaliação.

Conhecendo a minha mãe em relação ao seu histórico de vida e em relação ao histórico de vida das gerações de seus pais e avós, que não apresentavam casos de psicopatologias estruturais ou doenças neuro-degenerativas, logo deduzi algo que já tinha quase certeza: que as suas experiências dos últimos dias eram reais, embora ela tratasse o assunto de uma forma fugidia.

Retornando à clínica geriátrica, após um cansativo dia de exames que não revelaram nada de grave a nível orgânico, ainda brinquei que a levaria no outro dia a um centro espírita para que ela tomasse uns passes. 

Esboçando um leve sorriso, ela respondeu com uma certa dificuldade na fala, mas não no raciocínio: "Meu filho, tu com as tuas crenças e eu com as minhas...".

A minha mãe desencarnou exatamente uma hora depois de tê-la deixado em seu quarto aos cuidados da enfermeira da clínica. E o seu relato foi de uma passagem rápida e tranquila: "Foi como um apagar de vela", disse a funcionária.

Comentário:

A situação que experenciei neste dia de acompanhamento de minha mãe, revela em seus bastidores, um choque de crenças que partiu de três pontos distintos: dela própria em relação à sua crença religiosa; do psiquiatra, representado pelo materialismo científico; e de mim, representado pela crença na reencarnação e seu desdobramento nas dimensões física e espiritual.

Entretanto, independentemente do nosso conjunto de crenças, a espiritualidade superior, ao avaliar um espírito que encontra-se prestes a desencarnar, considera a vida que essa pessoa levou em sintonia com as leis que regem a vida inteligente no universo.

Nesse sentido, cada caso é um caso a ser avaliado. 

Na situação descrita, houve merecimento para que a pessoa fosse preparada para a transição. 

E o que ocorreu foi, realmente, um preparo em que o plano espiritual esteve representado por entes queridos da pessoa e por espíritos responsáveis pela transição. 

A "morte" provocada por uma parada cardio-respiratória, foi o meio rápido e tranquilo para que o espírito de desprendesse de mais uma experiência na realidade física.

Concluo o meu comentário afirmando que o seu maior exemplo foi ter deixado aos familiares uma herança de inestimável valor: a retidão de caráter. Por este motivo, explica-se o seu mérito final.

(Flávio Bastos)







Perante os Mentores Espirituais


Ponderar com especial atenção as comunicações transmitidas como sendo da autoria de algum vulto célebre, e somente acatá-las pelos conceitos com que se enquadrem à essência doutrinária do Espiritismo.

A luz não se compadece com a sombra.

Abolir a prática da invocação nominal dessa ou daquela entidade, em razão dos inconvenientes e da desnecessidade de tal procedimento em nossos dias, buscando identificar os benfeitores e amigos espirituais pelos objetivos que demonstrem e pelos bens que espalhem.

O fruto dá notícia da árvore que o produz.

Apagar a preocupação de estar em permanente intercâmbio com os Espíritos protetores, roubando-lhes tempo para consultá-los a respeito de todas as pequeninas lutas da vida, inclusive problemas que deva e possa resolver por si mesmo.

O tempo é precioso para todos.

Acautelar-se contra a cega rendição à vontade exclusiva desse ou daquele Espírito, e não viciar-se em ouvir constantemente os desencarnados, na senda diária, sem maior consideração para com os ensinamentos da própria Doutrina.

Responsabilidade pessoal, patrimônio intransferível.

Honrar o nome e a memória dos mentores que lhe tenham sido companheiros ou parentes consangüíneos na Terra, abstendo-se de endereçar-lhes petitórios desregrados ou

descabidas exigências.

A comunhão com os bons cria para nós o dever de imitá-los.

Furtar-se de crer em privilégios e favores particulares para si, tão-somente porque esse ou aquele mentor lhe haja dirigido a palavra pessoal de encorajamento e carinho. Auxílio dilatado, compromisso mais amplo.



Espírito Andre Luiz
Médium Waldo Vieira
Livro “Conduta Espirita”




24 setembro 2011

O acaso não existe - a vida é causal, não casual


O que rege as nossas existências, ensina o Espiritismo, não é o acaso, mas o livre-arbítrio, uma conquista do ser humano que se desenvolve com a evolução da alma.

O livre-arbítrio se exercita, no entanto, de modos diferentes quando estamos na erraticidade e quando no plano físico, assunto que Kardec elucida de forma magistral. […]

Reportando-se ao assunto, André Luiz pede que evitemos o uso do vocábulo acaso, tanto quanto as palavras sorte e azar, porque tais termos não têm a significação que lhes atribuímos.

Depois de uma tempestade, diz o ditado popular, vem a bonança. André Luiz discorda, asseverando: “Depois da tempestade, aguarde outras”. Em compensação, em vez de afirmar que “há males que vêm para bem”, podemos dizer que “todos os males vêm para o nosso bem”.

Joanna de Ângelis confirma a tese exposta por André Luiz ao tratar dos chamados acontecimentos inesperados: “Imprevisível é a presença divina surpreendendo a infração. Insuspeitável é a interferência divina sempre vigilante. Inesperado é a ocorrência divina trabalhando pela ordem” (Alerta, cap. 3, obra psicografada por Divaldo P. Franco).

No caso do czar Alexandre – Kardec fez na Revista Espírita de 1866, pp. 167 a 171, interessantes observações a propósito de uma tentativa de assassinato de que fora vítima o czar Alexandre da Rússia.

No momento do atentado, um jovem camponês chamado Joseph Kommissaroff interveio, evitando que o crime fosse consumado.

Eis o que Kardec escreveu sobre o assunto:

1) Muitos atribuirão ao acaso o surgimento do jovem camponês na cena do crime. O acaso, porém, não existe. Como a hora do czar não havia chegado, o moço foi escolhido para impedir a realização do crime, pois as coisas que parecem efeito do acaso estavam combinadas para levar ao resultado esperado.

2) Os homens são os instrumentos inconscientes dos desígnios da Providência e é por eles que ela os realiza, sem haver necessidade de recorrer para tanto a prodígios.

3) Se o jovem Kommissaroff tivesse resistido ao impulso recebido dos Espíritos, estes se valeriam de outros meios para frustrar o crime e preservar a vida do czar.

4) Uma mosca poderia picar a mão do assassino e desviá-la do seu objetivo; uma corrente fluídica dirigida sobre seus olhos poderia ofuscá-lo e assim por diante. Mas, se tivesse soado a hora fatal para o imperador russo, nada poderia preservá-lo.

Levado o caso a uma sessão espírita realizada na casa de uma família russa residente em Paris, o Espírito de Moki, por meio do Sr. Desliens, explicou que mesmo na existência do mais ínfimo dos seres nada é deixado ao acaso: os principais acontecimentos de sua vida são determinados por sua provação; os detalhes, influenciados por seu livre arbítrio. 

Mas o conjunto da situação foi previsto e combinado antecipadamente por ele e por aqueles que Deus predispôs à sua guarda.

(Angélica Reis)







O que é Karma


Karma ou carma, tanto faz, é princípio ou Lei Cósmica máxima que abrange todas as outras leis e consiste nos princípios multidimensionais, temporais e atemporais de ação e
reação.

É princípio motivador da evolução das consciências aplicando o método "dor corretiva ou recompensa". Aplica-se em todos os lugares (espaço), todos os tempos (temporalidade) e todas as dimensões (multidimensionalidade).

É método auto-regulador, motivado e registrado pelas próprias consciências que o veiculam em seus registros akáshicos ou memória integral ou memória consciencial.

Temos uma memória que não é física e não depende do cérebro ou neurônios, embora necessite destes para se manifestar nesta dimensão densa, mas mesmo despido do corpo de carne a possuímos em qualquer dimensão que nos despontarmos.

Esta memória tem o registro de todas nossas vivências em todas épocas e dimensões e tem e faz parte do registro do Todo ou memória do Cosmos ou até mesmo se preferir memória de Deus.

Ela conhece todos os princípios e leis cósmicas e universais e sabe o que é certo ou errado e onde e quando acertamos ou erramos e quanto "devemos" para quitar em forma de aprendizado prático, sadio, corretor e consciencialmente didático.

Quem melhor para nos "anotar" que nossa própria consciência? 

Os erros e desvios e prejuízos espúrios ou acidentais a outros seres em qualquer reino (mineral, vegetal e animal) estão de forma justa, perfeita e ponderada levando-se em consideração todas as variáveis intervenientes entre os atenuantes e agravantes indescritíveis a um ser humano comum como "Juiz Cósmico".

Tenho e temos que ter cuidado com a interpretação indevida de: "Juiz Cósmico", "anotar" e "devemos" entre outras.

Não há vingança, não há o que temer, não há julgamento e não há maldade. As leis são automáticas e auto-reguladoras, e o princípio é impessoal, justo, perfeito e sem emocionalismos desequilibrados.

É uma das coisas mais complexas e avançadas de se interpretar em nosso nível evolutivo, mas funciona e já podemos até com certa facilidade abordar o básico: todo mal aplicado voltará em sentido contrário assim como todo o bem. 

É um princípio meramente matemático.

Incentivamos o arrependimento e a vontade profunda, sincera, cirúrgica e visceral de melhorar-se e retificar o erro, sem alimentar autopunições e incentivo de consciência de culpa, algo totalmente patológico, negativo e anti-produtivo.



(Dalton Campos Roque - autor do livro “O Karma e suas Leis”)




O que voce irá levar?


Os anos passam velozes... e o trem da vida continua sua viagem ritmada, quase rotineira; há os que sobem para mais uma etapa de aprendizado e há os que dele desembarcam, sempre no lugar correto e na hora certa.

Há infinitos encontros.

Muitos passageiros se cruzam como que por encanto a bordo do trem da vida, seja para continuar harmoniosamente algo começado em outra época, em outra composição, seja para resgatar algo que era preciso, que estava combinado em outra dimensão e que precisava ser trabalhado, resolvido, compensado.

Existem viagens longas, cheias de experiências de todos os tipos e matizes e outras bem curtas, realizadas por almas nobres que se doam, que vêm pra trazer a paz e a luz a famílias em conflito ou somente distraídas, distantes da graça e da essência da vida, talvez incapazes de se desvencilhar com suas próprias forças de hábitos e valores obsoletos e limitadores, ou somente distantes da Unidade, da Divindade que todos carregamos em nosso peito.

Ao afastar-se abruptamente de nosso convívio, esses espíritos de Luz deixam inicialmente uma tristeza enorme, uma dor que parece não ter fim, no entanto, sua presença e exemplo serão a semente da transformação, da vida nova para muitas e muitas pessoas.

Tudo está em divina ordem, nada há de errado naquilo que acontece com a gente e à nossa volta, ainda que muitos achem uma grande injustiça a "perda" de jovens em pleno desabrochar, na flor da vida e de adultos capacitados, produtivos, iluminados e responsáveis...

Na verdade, nada se perde e essas Almas seguem vivíssimas em outro plano, livres das amarras limitadoras do corpo físico, formando com sua energia cristalina um Todo vibrante, primoroso, magnífico.

Não faço idéia do porquê estou escrevendo sobre isso, mas o que escrevi deve ter endereço certo.

Lembro-me ainda de quando - anos atrás -, questionava o mentor durante as reuniões semanais de um grupo de estudos espirituais, aqui em São Paulo, ou o médium de cura da Casa de Luz Takamura, sempre em busca de umas palavras, confirmando o milagre repetidas vezes realizado antes que "salvasse a vida" de pessoas gravemente enfermas de nosso grupo.

As respostas eram invariavelmente ambíguas, pois nos diziam que aquelas pessoas estavam evoluindo favoravelmente e que tinham praticamente conseguindo curar seus males, "passando de fase"... sendo, no entanto, que as doenças se alastravam mais e mais e as condições de saúde não nos davam mais esperança alguma.

Um belo dia, entristecido e desanimado, desabafei com o mentor, dizendo que tudo que estávamos fazendo tinha sido inútil, pois as pessoas estavam "nos deixando".

O retorno foi aquele do professor bondoso para com o aluno meio bronco que ainda se encontra no começo do aprendizado:

"Meu filho, as pessoas que vocês chamam de doentes estão bem, ótimas. Resolveram os problemas que vieram lapidar na Terra. E o que vocês chamam de morte é uma simples passagem, uma volta para casa, uma mudança de endereço vibracional. O que o grupo fez foi vital para a evolução delas. Sim, estão curadas".

Sim, amigos, finalmente agora tenho certeza: estão curadas, estão bonitas e estamos em contato; quantas vezes as pessoas queridas que mudaram de plano nos fazem visitas durante o sono, nas projeções extrafísicas noturnas, interagindo conosco, mostrando um renovado brilho no olhar, uma vitalidade contagiante e alegria profunda.

Não estamos simplesmente "sonhando" com elas, podemos senti-las, abraçá-las, tocar suavemente suas almas com nossas mãos de energia, com nosso corpo astral.

É sempre bom lembrar que é o espírito imortal quem organiza e molda a estrutura, as feições e características do corpo físico, o qual, com o afastamento da Alma, retorna mais ou menos rapidamente à terra de onde veio, à natureza da qual faz parte, para ser reciclado e novamente servir de matéria-prima para outros seres que virão.

É magnífico perceber que a beleza real não está no átomo, o tijolinho à base de toda a Criação, e sim na centelha divina que consegue organizar, ordenar e fazer funcionar esses tijolinhos em total harmonia, gerando um campo de energia esplendido, criando - é a palavra mais adequada -, o veículo ideal para a viagem das Almas no planeta azul.

Bom, se somos espíritos encarnados, e não apenas meros corpos perecíveis, como podemos estar tão separados de nossa real natureza divina, a ponto de viver na ilusão, na separação, na escuridão e no medo?

Nossa caminhada não termina aqui, vara toda a eternidade, todas as dimensões, das mais densas às mais sutis, onde somente reina a perfeição do Amor Verdadeiro, onde nossa consciência é una e é Luz pura, que jamais pode ser contaminada, corrompida, maculada.

Vamos deixar os medos, a ignorância e as necessidades materiais em seus devidos lugares e começar uma Jornada inesquecível, que abrirá as portas à beleza infinita que nos espera?

Nada iremos carregar de palpável conosco na hora de deixar nosso corpo por aqui, somente a consciência desperta, a personalidade depurada, as experiências positivas em todos os campos, em todos os Reinos e deixando nossa marca, nossa preciosa contribuição no inconsciente coletivo, a Web Cósmica que continua em incessante evolução, graças também à nossa contribuição...

Acaba de vir um roteiro rápido, "vapt-vupt"...

Simplesmente...

SENDO
BUSCANDO
CUIDANDO
PERCEBENDO
PERDOANDO
MEDITANDO
ENCANTANDO-SE
AGRADECENDO
CELEBRANDO
CONTEMPLANDO
AMANDO O OUTRO COMO A SI MESMO

Vamos lá? É fácil, compensador, rejuvenesce, nos mantém saudáveis e felizes, sem medo algum de descer do trem, quando chegarmos à estação, para finalmente voltar para Casa.

[…]

Namastê (O Deus que mora em mim saúda o Deus que mora em Você).



(Sergio - STUM)








23 setembro 2011

A Espiritualidade e a Escola


Para ir direto ao assunto: onde está a espiritualidade na escola? 

Como essa espiritualidade pode ser explorada sem riscos e se reverter em auxílio às nossas atividades escolares?

A resposta é bem simples.

Se os espíritas freqüentam os centros espíritas porque acreditam que ali existe uma escola na qual são alunos e nela existem mentores que protegem, ensinam e educam, por que isso seria diferente nas escolas comuns? 

É só aplicar o método positivo de Allan Kardec:

* Nas escolas existem Espíritos desencarnados?

* Nas escolas podem ocorrer fenômenos espíritas?

* Esses fenômenos são regulares, podem ser observados, explicados e divulgados?

* Nas escolas surgem especulações filosóficas acerca desses fenômenos?

* Nas escolas podem ocorrer transformações morais e sociais decorrentes desses questionamentos filosóficos?

Concluindo: a mesma espiritualidade encontrada nos centros espíritas pode ser encontrada nas escolas ou em qualquer ambiente de trabalho. 

É só consultar os bons manuais de navegação espiritual e constatar que as circunstâncias são semelhantes, os problemas são iguais e as soluções podem ser idênticas.

Em O Livro dos Espíritos constam, entre tantas outras reflexões sobre espiritualidade e ética , algumas questões que versam diretamente sobre a relação entre matéria e espírito, estreitamente ligadas aos nossos propósitos educativos.

Mas foi num ensaio científico do Espírito André Luiz - Evolução em Dois Mundos - psicografado por Chico Xavier, que encontramos uma informação bem ilustrativa desse nosso tema.

Trata-se de um comentário sobre as nossas atividades mentais durante o sono e o desprendimento do corpo físico, através da mediunidade espontânea. Nesses casos certamente não ficariam de fora nós os professores, os alunos, os funcionários e os gestores das escolas.

 
"É assim que o lavrador, no repouso físico, retorna, em corpo espiritual, ao campo em que semeia, entrando em contacto com as entidades que amparam a Natureza; o caçador volta para a floresta; o escultor regressa, freqüentemente, no sono, ao bloco de mármore de que aspira a desentranhar a obra-prima; o seareiro do bem volve à leira de serviço em que se lhe desdobra a virtude, e o culpado torna ao local do crime, cada qual recebendo de Espíritos afins os estímulos elevados ou degradantes de que se fazem merecedores."


Mas esse nosso retorno mental à escola pode e deve ser desvinculado das características alienadas da mediunidade primitiva para práticas psíquicas mais arrojadas e conscientes.

É possível nos prepararmos para encontros treinados e produtivos, nos moldes dos desdobramentos, na qual se pratica o exercício da memorização e maior aproveitamento das informações obtidas no plano espiritual.

É sempre bom lembrar que todos nós somos Espíritos e médiuns, em maior ou menor grau, encarnados ou desencarnados, crianças ou jovens, adultos ou idosos, somos os mesmos, com virtudes e defeitos, hábitos e gostos, jeitos e trejeitos.

Estamos em toda parte, onde existir vida em sociedade, simples e ignorantes ou complexos e cultos, em constante interação de pensamentos, ações e sentimentos.


Às vezes mudamos de aparência, mas na essência continuamos sendo as mesmas criaturas; mudamos de ponto de vista sobre algumas coisas da vida, de opinião sobre alguns assuntos desse ou daquele contexto, mas continuamos os mesmos.

Só mudamos de fato quando transformamos os nossos sentimentos e atitudes sobre as coisas e as pessoas. Isso realmente nos transforma em outras pessoas, a ponto de não sermos reconhecidos por quem nos conheceu antes.

Quem te viu, quem te vê, heim? Não nos identificamos mais com aquela pessoa do passado, pois adquirimos uma nova identidade. Não são aparências ou máscaras, é mudança real mesmo.

No corpo carnal acontecem as mudanças biológicas, transitórias, pelos regimes alimentares, exercícios físicos, rejuvenescimento ou envelhecimento.

No corpo espiritual essa mudança é diferente e duradoura: ocorre uma iluminação natural, causada pela mudança nas estruturas do perispírito, através do brilho dos centros de força (chacras), que são uma espécie de glândulas etéricas de captação e distribuição de energias e que refletem em forma de luz e cores, formando também a nossa aura.

Nesse caso o espanto de quem nos vê modificado é redobrado.

O problema é que as mudanças reais só acontecem depois de grandes transtornos e perturbações,depois de dores causadas por choques de provas e expiações.

Todo Espírito encarnado sabe disso, pois traz essa informação guardada no inconsciente, entre a zona de conforto e a zona de perigo.

Temos conosco, cada qual com a sua marca, uma equação existencial para ser solucionada em algum momento da vida.

Todos nós sabemos que, mais cedo ou mais tarde, esse momento vai chegar, mesmo que não tenhamos uma lembrança consciente dos compromissos que assumimos antes de reencarnar. É para isso que servem as existências e é também por isso que nos matriculamos na Escola da Vida.

Quem vê ou percebe a presença de Espíritos têm dois tipos de sensação: medo e tristeza, quando estes estão estacionados em sofrimento; ou espanto e alegria, quando nos deparamos com entidades iluminadas, felizes, cuja superioridade natural nos causa emoção como o choro e entusiasmo.

Poucas pessoas percebem, mas quando recebemos a visita de Espíritos apagados, em crise e sofrimento, também temos predisposição em apagar a nossa luz.

Quando são Espíritos lucificados, inexplicavelmente ficamos imensamente alegres.

Até mesmo os animais que estão por perto têm esse tipo de percepção. São situações que não dependem de fórmulas ou amuletos e muito mais do nosso estado emocional. O pensamento atrai e inicia a ligação; e o sentimento consolida o contato.

A espiritualidade está em toda parte, seja como estado de espírito, seja como fenômeno natural.

A primeira é muito útil para manter a paz de espírito, a serenidade, a calma. É, enfim, é a meditação, a imagem e o imaginário da espiritualidade, a oração, a base da sintonia.

A segunda, nessa perspectiva do conflito exterior, também é muito útil, pois é a vigilância, a realidade e o contato direto com os Espíritos.

Muitos educadores são crentes naturais, mas uma grande maioria age como Tomé, precisando ver para crer. 

Daí a nossa idéia de buscar uma espiritualidade mais objetiva e inteligente, fugindo da superstição e do dogma.


Essa possibilidade acontece nas experiências de algumas escolas espiritualistas, ainda de forma subjetiva e nebulosa, mas no Espiritismo ela ocorre de forma clara, científica e sem o misticismo supersticioso e o véu do mistério.

Ao contrário das outras correntes, não falamos com os mortos e sim com os vivos, mais vivos do que nós. 

Espíritos são seres inteligentes e devem ser tratados como tal, sem as marcas obscuras da superstição e da atitude passiva oracular ou adivinhatória.


O apóstolo João recomendava aos seus alunos que verificassem se os Espíritos eram de Deus, ou seja, se eram bem ou mal intencionados. Isso prova que o contato com a espiritualidade é mais antiga e comum do normalmente se pensa.

Também alertava que a nossa relação com eles deve ser de igual para igual, em termos de racionalidade.

Espíritos superiores não se ofendem quando são questionados ou colocados em xeque. Pelo contrário, ficam contentes com a nossa espontaneidade e responsabilidade no trato com as coisas da vida.

Já os pseudo-sábios ficam ofendidos e deslizam dos questionamentos utilizando expedientes que mexem com as nossas fraquezas: divagações poéticas de mau gosto, profecias absurdas, afirmações incoerentes e, principalmente, as posturas de incentivo ao medo e à superstição, aos rituais e fórmulas mágicas.

[...] 


As escolas são lugares tidos como neutros, locais públicos de muitas possibilidades, mas também, por isso mesmo, de muitas proibições.



Numa escola, onde naturalmente se estabelece um jogo de poder entre quem educa e quem vai ser educado, quem vai ensinar e quem vai aprender, entre quem vai avançar e quem vai recuar, acaba predominando a lei do mais forte, ideologicamente falando.

Numa escola, ambiente supostamente neutro e público, mesmo que seja escola particular, quem tem conhecimento realmente tem poder. Por isso, nesse ambiente nem tudo que é público deve ser notório; nem tudo que é possível deve ser realizado.



Esse é o paradigma dominante; esse é o paradigma que atualmente não deve ser desafiado, mas que pode ser mudado. O paradigma dominante é o da matéria; e o novo a ser implantado é o do espírito.



Tocar no assunto espiritualidade em ambientes neutros talvez seja mais tabu do que em lugares assumidamente contrários ao assunto. Nessas situações a timidez rapidamente se transforma em receio e este deságua fatalmente na omissão.



Pronto: lá se foi mais uma oportunidade de falar sobre as coisas que habitualmente não podem ser ditas, mas que a gente tanto gostaria de falar.

Como na música de Fátima Guedes, trilha sonora na primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, falando de fadas, gnomos e duendes, "São segredos nossos, quisera falar das coisas que não posso...".



( Textos extraídos do livro "Espíritos nas Escolas - Encarnados e desencarnados no cotidiano escolar" - de Dalmo Duque dos Santos)