"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

28 setembro 2011

Meu filho, eu vejo vultos!


Durante toda a sua vida, a minha mãe foi uma pessoa centrada e racional, tipo "pés no chão". 

Enquanto teve saúde frequentou missas da Igreja Católica e educou seus filhos baseada em preceitos cristãos e valores ético-morais herdados da educação parental.

Era uma pessoa honesta e de princípios definidos. 

No final da vida, quando a sua saúde declinou em razão da idade avançada, ela ainda mantinha-se lúcida e racional.

No entanto, há cerca de três dias de sua passagem para o plano espiritual, ela começou a ver e falar com desencarnados. 

Eram espíritos que foram seus familiares na vida atual e que vinham visitá-la na clínica geriátrica na qual se encontrava.

Conforme relato de sua cuidadora, era no estado de vigília e durante o sono que se intensificavam os diálogos com seus familiares que já haviam morrido, sendo que os contatos se estabeleciam, basicamente, com o seu pai, um irmão e uma irmã que vinham prepará-la para a "partida". 

Em certos momentos, porém, demonstrava inquietação diante da situação, pois o seu conjunto de crenças impedia que ela aceitasse com naturalidade a "experiência antecipada" de contato com os seus entes queridos.

Muito agarrada à família da Terra, questionava a sua partida, alegando aos "visitantes" que ainda não era o momento de partir. 

Na verdade, manifestava um pouco de medo diante do nível de experiências que pra ela era inédito.

Durante o dia, as experiências diminuiam consideravelmente, mas retornavam à noite, tanto que ela resistia ao sono. 

Não eram pesadelos, mas experiências que chocavam-se com o conjunto de crenças construídos em uma vida, cuja vivência espiritual mais intensa ocorreria somente após a morte do corpo físico.

Contudo, mesmo um tanto confusa com os acontecimentos dos três últimos dias, que alternavam "momentos de lucidez com momentos de alucinações" como se referiria mais tarde um psiquiatra do pronto atendimento hospitalar em seu último dia de vida, ela mantinha-se extremamente lúcida e sabia discernir uma coisa da outra, ou seja, o que era da dimensão física e o que era da dimensão espiritual...

E foi no pronto atendimento hospitalar, após passar por vários exames médicos na tentativa de encontrar a origem de sua falta de ar e sensação de fraqueza, que nada revelou de grave a respeito de suas condições orgânicas, que ela acabou sendo encaminhada ao setor de psiquiatria do hospital.

Na cadeira de rodas, atendida pelo psiquiatra de plantão, ela logo respondeu ao seu questionamento, dizendo: "Meu filho, eu vejo vultos e ouço vozes" . 

A partir desse momento, o conjunto de crenças do médico prevaleceu no encaminhamento da situação, sendo que as possibilidades levantadas para o momento foram: crise psicótica ou sintomas demenciais, o que exigiria para o dia seguinte, agendamento com outro psiquiatra para uma devida avaliação.

Conhecendo a minha mãe em relação ao seu histórico de vida e em relação ao histórico de vida das gerações de seus pais e avós, que não apresentavam casos de psicopatologias estruturais ou doenças neuro-degenerativas, logo deduzi algo que já tinha quase certeza: que as suas experiências dos últimos dias eram reais, embora ela tratasse o assunto de uma forma fugidia.

Retornando à clínica geriátrica, após um cansativo dia de exames que não revelaram nada de grave a nível orgânico, ainda brinquei que a levaria no outro dia a um centro espírita para que ela tomasse uns passes. 

Esboçando um leve sorriso, ela respondeu com uma certa dificuldade na fala, mas não no raciocínio: "Meu filho, tu com as tuas crenças e eu com as minhas...".

A minha mãe desencarnou exatamente uma hora depois de tê-la deixado em seu quarto aos cuidados da enfermeira da clínica. E o seu relato foi de uma passagem rápida e tranquila: "Foi como um apagar de vela", disse a funcionária.

Comentário:

A situação que experenciei neste dia de acompanhamento de minha mãe, revela em seus bastidores, um choque de crenças que partiu de três pontos distintos: dela própria em relação à sua crença religiosa; do psiquiatra, representado pelo materialismo científico; e de mim, representado pela crença na reencarnação e seu desdobramento nas dimensões física e espiritual.

Entretanto, independentemente do nosso conjunto de crenças, a espiritualidade superior, ao avaliar um espírito que encontra-se prestes a desencarnar, considera a vida que essa pessoa levou em sintonia com as leis que regem a vida inteligente no universo.

Nesse sentido, cada caso é um caso a ser avaliado. 

Na situação descrita, houve merecimento para que a pessoa fosse preparada para a transição. 

E o que ocorreu foi, realmente, um preparo em que o plano espiritual esteve representado por entes queridos da pessoa e por espíritos responsáveis pela transição. 

A "morte" provocada por uma parada cardio-respiratória, foi o meio rápido e tranquilo para que o espírito de desprendesse de mais uma experiência na realidade física.

Concluo o meu comentário afirmando que o seu maior exemplo foi ter deixado aos familiares uma herança de inestimável valor: a retidão de caráter. Por este motivo, explica-se o seu mérito final.

(Flávio Bastos)