"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

26 março 2012

Os infortúnios ocultos


Uma jovem senhora, acompanhada da filha pequena, atravessa a cidade de carro. 

Embora ela tenha condições de se vestir com as roupas da última moda, se veste de forma muito simples, e assim também são as roupas de sua filha. 

Logo de manhã, entra em uma casa de madeira, muito pobre, onde é recebida com alegria por uma mulher de rosto cansado, cercada de crianças, de variadas idades.

Todos cercam a jovem senhora, que traz além de mantimentos e roupas quentes para as crianças, o seu sorriso, e palavras de incentivo e apoio. 

Enquanto a conversa segue, é possível perceber que a amizade e o respeito são a base deste relacionamento entre famílias que moram tão distantes, com realidades materiais tão diferentes.

A família aceita a ajuda, pois o pai está no hospital e a mãe não consegue, apenas com o próprio trabalho, sustentar toda a família. 

Depois que saírem dali, a jovem senhora e sua filha irão até o hospital levar palavras de conforto e notícias da família ao pai que está no hospital, recuperando-se de grave enfermidade.

A mulher que presta socorro à família não pergunta à mãe e seus filhos se eles acreditam em Deus ou se tem religião. Ela sabe que eles são seus irmãos, pois todos somos filhos de Deus, independente de crermos no Pai ou possuirmos uma religião. 

E ela tem certeza de que, auxiliando aquela família, começa bem o seu dia, praticando a caridade sincera, aquela realizada com o coração.

A família que recebe a ajuda não sabe o nome da benfeitora, apenas que se chama Maria. Também desconhece o nome da menina, e não tem ideia de onde moram mãe e filha. Sabem apenas que a bondade reina naqueles dois corações, que auxiliam sem nada desejar em troca.

Por que usam roupas tão simples? 

Vestem-se de maneira simples para não humilhar a família que recebe a ajuda, para que eles não se sintam tristes por não terem roupas modernas e bonitas. 

Mãe e filha sabem que a caridade não deve ser feita por obrigação, mas que deve ser realizada com amor e respeito por aqueles que, naquele momento de sua trajetória evolutiva, necessitam da ajuda material.

Por que a filha acompanha a mãe? 

Para que aprenda a fazer a caridade desde pequena. Assim, a mãe ensina que além de doar coisas materiais, ela pode fazer a caridade empregando seu tempo em favor dos que necessitam: ajudando um doente, dedicando-se a uma criança que deseja um pouco de atenção e carinho, ouvindo um idoso que deseja conversar para diminuir a solidão. 

Desse modo, a mãe ensina à filha sobre a caridade que vem do coração, que não exige recompensa. 

Ela também ensina à menina, através do seu exemplo, que devemos fazer a caridade sem que ninguém saiba o bem que é realizado, pois assim estaremos em paz com a nossa consciência.

Ninguém sabe a respeito das atitudes caridosas que mãe e filha realizam. Elas não contam para ninguém, nem para o marido, vizinhos ou amigas. 

Outro dia, porém, uma das mulheres auxiliadas por elas esteve em sua casa, vendendo artesanato. 

Reconhecendo a mulher que tanto a ajudou quando ela precisou, com coisas materiais, mas também com palavras de carinho e incentivo, quis agradecer-lhe. Mas Maria disse-lhe apenas: Não diga nada, não contes a ninguém. Jesus assim nos ensina. 

Ela se referia à frase do Mestre: NÃO SAIBA A VOSSA MÃO ESQUERDA O QUE FAZ A VOSSA MÃO DIREITA, que ensina a dar sem esperar recompensa, a auxiliar sem contar a ninguém o bem que realizamos.

Embora elas não saibam, os mensageiros de Deus as observam, aprovando a ajuda que oferecem, bem como a maneira simples e sincera com que auxiliam os que necessitam; e à noite, quando as duas, mãe e filha dormem, recebem as bênçãos dos céus, como recompensa e reconhecimento pelo bem que praticam.

(História baseada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 4, Os infortúnios ocultos, por Claudia Schmidt.)