"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

03 junho 2012

Fuga comprometedora


Sem dúvida, a mais trágica de todas as circunstâncias que envolvem a morte, de conseqüências devastadoras para o desencarnante, é o suicídio.

Longe de enquadrar-se como expiação ou provação, no cumprimento de desígnios divinos, o auto-aniquilamento situa-se por desastrada fuga, uma porta falsa em que o indivíduo, julgando libertar-se de seus males, precipita-se em situação muito pior.

"O maior sofrimento da Terra não se compara ao nosso" - dizem, invariavelmente, suicidas que se manifestam em reuniões mediúnicas.

Tormentos indescritíveis desabam sobre eles a partir da consumação do gesto lamentável.

Precipitados violentamente na Espiritualidade, em plena vitalidade física, revivem, ininterruptamente, por largo tempo, as dores e emoções dos últimos instantes, confinados em regiões tenebrosas onde, segundo a expressão evangélica, "há choro e ranger de dentes".

Um dos grandes problemas do suicida é o lesionamento do corpo perispiritual.

Aqueles que morrem de forma violenta, em circunstâncias alheias à sua vontade, registram no perispírito marcas e impressões relacionadas com o tipo de desencarne que sofreram.

São, entretanto, passageiras e tenderão a desaparecer tão logo ocorra sua plena reintegração na Vida Espiritual.

O mesmo não ocorre com o suicida, que exibe na organização perispiritual ferimentos
correspondentes à agressão cometida contra o corpo físico.

Se deu um tiro no cérebro terá grave lesão na região correspondente; se ingeriu soda cáustica experimentará extensa ulceração à altura do aparelho digestivo; se atirou-se diante de um trem exibirá traumas generalizados.

Tais efeitos, que contribuem em grande parte para os sofrimentos do suicida, exigem, geralmente, um contato com nova estrutura carnal, na experiência reencarnatória, para serem superados. E fatalmente se refletirão nela.

O tiro no cérebro originará dificuldades de raciocínio; a soda cáustica implicará em graves deficiências no aparelho digestivo; o impacto violento sob as rodas do trem ensejará complexos quadros neurológicos...

Como ocorre em todos os casos de morte violenta, o suicida experimentará inevitável agravamento de seus padecimentos na medida em que a família mergulhe no desespero e na inconformação, exacerbados, não raro, por complexos de culpa.

"Ah! Se tivéssemos agido diferente! Se lhe déssemos mais atenção! Se procurássemos compreendê-lo!"

Inútil conjecturar em torno de fato consumado.

Diante de um ferido, em grave e inesperado desastre, seria contraproducente estarmos a imaginar que poderia não ter acontecido se agíssemos diferente. Aconteceu! Não pode ser mudado! Imperioso manter o equilíbrio e cuidar do paciente.

O mesmo ocorre com o suicida. Ele precisa, urgentemente, de auxílio. Indispensável que reajamos ao desespero e cultivemos a oração. Este é o bálsamo confortador, o alento novo para seus padecimentos no Além, o grande recurso capaz de reerguê-lo.

E se nos parece desalentador atentar às prolongadas e penosas experiências do companheiro que partiu voluntariamente, consideremos que seus sofrimentos não serão inúteis.

Representarão para ele um severo aprendizado, amadurecendo-o e habilitando-o a respeitar a Vida e a voltar-se para Deus.


(Extraído do livro “Quem tem medo da morte”, de Richard Simonetti)


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