"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

06 agosto 2013

O que está acontecendo nas relações entre pais e filhos?



Pais e Filhos    

Embora soem estranhas, certas palavras e frases ditas por Jesus, que pregou o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo como lei máxima, como questionar sobre "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?", no contexto em que aparecem no texto evangélico, precisam ser analisadas profundamente por quem deseja interpretá-las e o parâmetro a ser usado é o conjunto de ensinamentos do Mestre de Nazaré.

De acordo com Jesus, somente aquele que faz a vontade de Deus é seu irmão, sua irmã e sua mãe. Em outra passagem evangélica, ele nos ensina a honrar pai e mãe.

Os espíritos que instruíram O Evangelho Segundo o Espiritismo, codificado por Kardec, explicam que esse aparente paradoxo não existe e que, pelo entendimento do que é parentesco espiritual e do que é parentesco corporal, consegue-se chegar à essência do ensinamento ministrado por Jesus.


Com uma frequência ultimamente assustadora, somos assaltados com notícias de pais matando filhos e filhos matando pais. O que é que está acontecendo?

Para que se dê abrigo a um espírito na forma de filho, é necessário, por enquanto, a união de um óvulo feminino com um espermatozóide, que pode ser realizada hoje de diversas formas, sem que, necessariamente, um casal se relacione sexualmente.

Nos relacionamentos tradicionais, o que nos leva a nos unir a determinado parceiro(a)? Por que fizemos a escolha por ele ou por ela? Quais são os motivos que embasaram tal escolha?

Cada um tem seu motivo particular, baseado em necessidades reais ou imaginárias: segurança financeira, crenças equivocadas, carência afetiva que pode ser confundida com amor, paixão sexual, medo de ficar sozinho(a) e outras.

Poucos de nós têm consciência do motivo real de nossa escolha.

Sob a bandeira do amor abrigam-se as mais diversas motivações íntimas, tanto que, com as regras sociais mais frouxas, ultimamente o número de divórcios vem crescendo mais que o número de casamentos legais.

Voltemos ao nosso tema: será que, na maioria das vezes, não fazemos escolhas erradas?

Quantas vezes percebemos, passado um tempo, que fizemos opções equivocadas, baseadas em premissas falsas?

Se o ponto de partida é nebuloso, chegar a um resultado satisfatório é bastante incerto ou improvável. 

União, casamento ou parceria realizada, vem o filho ou os filhos, fato que acontece mesmo para quem não tem parceiro.

André Luís, no livro entre a Terra e o Céu, capítulo 27, psicografado por Chico Xavier, relata o esclarecimento de Clarêncio sobre o processo reencarnatório: 

"A reencarnação, por si, tanto quanto ocorre nos reinos inferiores à evolução humana, obedece a princípios embriogênicos automáticos, com bases na sintonia magnética; contudo, em se tratando de criaturas com alguns passos à frente da multidão comum, é possível ajustar providências que favoreçam a execução da tarefa a cumprir".

Isso significa que, na maioria dos casos (creio que grande parte da população terrestre pertence à multidão comum), o processo reencarnatório é realizado por sintonia magnética, ou seja, atraímos o espírito reencarnante de acordo com nossas vibrações, sem o concurso direto de espíritos de estirpe mais elevada.

Se nos ligamos sexualmente a alguém de forma fortuita e as condições biológicas são propícias, atraímos o espírito que está sintonizado conosco naquele momento.


Assim, nem sempre os filhos que geramos possuem algum laço de parentesco anterior conosco.

A resposta dada pelos espíritos na questão 388 de O Livro dos Espíritos sobre a indagação de que se reencontros, que aparentemente são obra do acaso, não são efeitos de relações simpáticas entre os espíritos, fortalece esse entendimento: 

"Há entre os seres pensantes laços que não conheceis ainda. O magnetismo é o guia desta ciência que compreendereis melhor mais tarde".

Foi nos ensinado que toda mulher possui um instinto maternal, ou seja, a maternidade é um sentimento inato. 

A História e estudos no campo da antropologia e da psicologia afirmam que o amor materno é um conceito aprendido e que essa visão moderna de que um filho complementa a mãe foi criada no apagar das luzes do século XVIII.

Até então, uma criança era tão desconsiderada e tão pouco importante que as mães não cuidavam delas, que era encaminhada a uma ama. Nem a morte de um filho era encarada como perda porque podia ser facilmente substituído.

Tanto era assim que, a pediatria, especialidade de assistência médica às crianças, só surgiu no início do século XIX, quando a criança foi alçada ao patamar em que está hoje.

Kardec pergunta se o amor maternal é uma virtude ou um sentimento instintivo comum aos homens e aos animais (questão 890 do LE) e a resposta é a seguinte: 

"É uma e outra. A Natureza deu à mãe o amor pelos seus filhos no interesse de sua conservação. Mas entre os animais esse amor é limitado às necessidades materiais: cessa quando os cuidados se tornam inúteis. Entre os homens ele persiste por toda a vida, e comporta um devotamento e uma abnegação que são da virtude (...)."

Pela força das Leis de Reprodução e Conservação geramos filhos para perpetuar a espécie (instinto), mas, a virtude de quem fala os espíritos é uma conquista humana necessária ao progresso espiritual de toda criatura.

Embora haja ainda pressão social em cima dos casais sem filhos, muitas mulheres e muitos homens declaram que não desejam ser pais, que não sentem vontade nem se julgam com habilidade ou preparados para criar filhos, que a maternidade ou a paternidade não estão no foco de suas vidas e que não se sentem incompletos ou infelizes por isso.

Pesquisadores do assunto defendem a tese de que instinto e amor materno não são palavras sinônimas em vista do instinto ser um sentimento nato e o amor, um sentimento a ser desenvolvido. Portanto, o amor das mães pelos filhos é uma virtude a ser aprendida.
   
A tese acima exposta derruba outro mito que impera nas relações maternais: o de que todas as mães amam da mesma forma e com igual intensidade todos os seus filhos.

Amar, elas amam, mas há sempre uma afinidade maior com um dos filhos que se explica pelo parentesco espiritual.

Os espíritos, na questão 205 do LE, elucidam que "os espíritos, são, frequentemente, atraídos em tal ou tal família em razão de simpatia ou por laços anteriores". Dessa forma, pode acontecer de entre os filhos haver aqueles que se unem aos pais por afinidade e outros que foram atraídos por vibração magnética sem laços anteriores.

Não podemos nos esquecer de que em todo ser humano há um casal interno: o arquétipo feminino voltado para acolher, cuidar, proteger; e o masculino para prover.

O espírito pode animar tanto um corpo masculino como um feminino, de acordo com sua necessidade de aprendizado e evolução.  

Ora desempenha o papel de protetor ora de provedor, ambos com uma só missão: aprender a amar.


O espírito não é criado já sabendo amar, mas com a capacidade de desenvolver e vivenciar com plenitude esse sentimento. O amor é um aprendizado, em qualquer forma em que se expresse.

Portanto, o amor maternal e o paternal também passam por um processo de aprendizagem.

Conviver com espíritos que nos são afins é muito fácil, é prazeroso, o relacionamento flui com naturalidade.

Mas, conviver com um ou mais espíritos com quem não temos qualquer afinidade dentro de um núcleo familiar, ou mesmo social, é difícil, pesado, gera foco de desentendimentos e até agressões mútuas.

Mas são justamente nessas relações turbulentas que exercitamos os nossos talentos interiores, que desenvolvemos o sentimento do amor.

Conviver com os diferentes de nós é experiência necessária ao nosso desenvolvimento espiritual.

Todos nós buscamos viver bem e de preferência, feliz, e quando os interesses particulares daquele que quer se sentir bem se sobrepõem aos interesses dos demais que lhe estão próximos, ou lhe são impostos, instala-se o conflito.

Não podemos dizer ao outro que ele está errado, mas precisamos ter habilidade de fazê-lo enxergar, por si só, que suas atitudes não estão fazendo bem a ninguém, nem a ele mesmo. 

Bater de frente também não adianta: isso causa um desgaste geral em todos os envolvidos. É preciso saber lidar com a situação e é por isso que ela se apresenta a nós.

É claro que não estamos obrigados, em nome do aprendizado, a suportar humilhação ou violência.

Entretanto, prestar mais atenção na motivação que origina os conflitos com aqueles que nos são antipáticos ou com aqueles que nos inspiram repulsa ou ódio facilita muito nosso processo de amadurecimento espiritual.

Pode ser que, em muitos casos, não haja nada que possamos fazer para solucionar o conflito, uma vez que em uma contenda ou desentendimento há sempre duas ou mais pessoas envolvidas, mas, saber analisar a situação com maturidade já é de grande valia.

Voltemos ao ponto de partida: o que está acontecendo nas relações entre pais e filhos? 

Para essa pergunta não há uma resposta pronta e completa, uma vez que inúmeras variáveis devem ser consideradas. No entanto, ter consciência de que filhos-problemas não são castigos divinos e que as relações negativas podem ser transformadas em positivas auxilia bastante.


Primeiramente, é necessário fazer uma reflexão: como estamos formando e educando nossos filhos?  Para serem dependentes ou independentes? Quais exemplos estamos dando a eles? Quando estamos juntos, demonstramos nosso afeto e nossa consideração por eles? Quais valores e crenças estamos transmitindo?

A psicóloga Rosely Sayão, em artigo publicado no caderno Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo, em 13/11/08, sobre brigas e desentendimentos entre os filhos e colegas, defende a idéia de que:

"As relações familiares horizontais e verticais têm sido suprimidas no nosso novo estilo de vida. 
As crianças não convivem mais - ou convivem pouco - com seus parentes, por exemplo, o que torna as relações com os pais quase que únicas no aprendizado de fazer parte de um grupo. 
Por isso, faltam às crianças oportunidades para experimentar relações com pessoas com as quais descobrem ter pouca afinidade e com quem nem sempre se dão bem. 
E é justamente nessas situações é que poderiam aprender que para conviver é preciso ter consideração pelo outro, relevar e fazer concessões".

Em outro artigo, publicado em 21/08/08, ela afirma que

"As pessoas precisam saber que compartilhar, colaborar, dialogar e compreender são palavras chaves na construção de um relacionamento. 
E que conviver bem não significa, de modo nenhum, viver sem conflitos. 
Ao contrário: conviver bem supõe aprender a negociar os conflitos que surgem".

Quando soubermos nos relacionar e conviver com aqueles que são diferentes de nós, compreenderemos a lição de Jesus.





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