"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

29 julho 2014

Prece no Alvorecer


Meu Deus e meu Senhor. Eu gostaria tanto de poder colaborar contigo. Eu gostaria de ser um jardim de flores, de todas as cores, para embelezar a terra.

Mas, na pobreza que minha alma encerra, se não puder ser um jardim, deixa-me ser uma rosa solitária, em uma fenda da rocha, colocando beleza no painel nobre da natureza.

Eu gostaria de ser um canteiro perfumado, aonde as abelhas viessem colher o néctar, para produzir o mel que alimentaria bocas infantis.

Eu gostaria de ser um trigal maduro, para colocar pão na mesa da humanidade. Mas, é demais para mim.

Como não poderei ser uma seara, ajuda-me a ser o grão, que caindo no chão, se multiplique num milhão. E me transforme em pão para os meus irmãos.

Eu gostaria de ser um pomar de frutos maduros para acabar com a fome. Mas na pobreza que me consome, te venho pedir para ser uma árvore desgalhada, projetando sombra na estrada. Talvez alguém, em passando de mansinho, por esse caminho possa me dizer “olá”. E respondendo, eu estenda a mão e me ofereça: ”sou teu irmão, sou teu amigo.”

Eu gostaria de ser como uma chuva generosa, que caísse na terra porosa e reverdecesse o chão. Mas, como não conseguirei, então, te pedirei para ser um copo de água fria que mate a sede de quem anda na desesperação.

Eu gostaria de ser um riacho que descesse a encosta da montanha cantando, por entre as pedras, ofertando linfa refrescante às árvores que protegem o solo.

Meu Deus! Eu gostaria de ser como a Via-Láctea de estrelas para que as noites da Terra fossem mais belas e a dor debandasse, na busca de um novo dia.

Mas, na minha pequenez, sem conseguir, te quero pedir para ser um pirilampo na noite escura, iluminando a amargura de quem anda na solidão.

Eu gostaria de ser um poeta, um artista, um trovador. Quem sabe um cantor, um esteta, orador para falar da magia e da beleza da tua glória.

Mas, como eu quase nada sou, como me falta o verbo, a mestria, então, eu te peço, Senhor, para ser o companheiro da criatura deserdada.

Deixa-me caminhar pela estrada e estender a mão a quem anda solitário e triste. 

Deixa-me ser-lhe a mão de sustento e lhe dizer: “Sou teu irmão, estou contigo. Vem comigo.”


(extraído do livro "Vida Feliz", do Espírito Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Franco)


* * *



Que não nos faltem bons sentimentos. Que nos falte egoísmo. Que nos sobre paciência.
Que sejamos capazes de enxergar algo de bom em cada momento ruim que nos acontecer.
Que não nos falte esperança. Que novos amigos cheguem. Que antigos sejam reencontrados.
Que cada caminho escolhido nos reserve boas surpresas.
Que a cada sorriso que uma criança der nos faça ter um bom dia e enxergar uma nova esperança. Que cada um de nós saiba ouvir cada conselho dado por uma pessoa mais velha.
Que não nos falte vontade de sorrir.
Que sejamos leves.
Que sejamos livres de preconceitos.
Que nenhum de nós se esqueça da força que possui.
Que não nos falte fé e amor.


(Caio Fernando Abreu)


*  *  *

Até que a morte nos separe é muito pouco pra mim. Preciso de você por mais de uma vida.

(Fabrício Carpinejar)


*  *  *


Pra ler todo dia...


28 julho 2014


O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranqüila. 
Em silêncio. Sem dar conselhos. 
Sem que digam: "Se eu fosse você".
A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito.
A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta.
É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina.
Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.


(Rubem Alves, in “O amor que acende a Lua”)

*  *  *

“Confia no teu coração se os mares pegarem fogo. E viva pelo amor, mesmo que as estrelas caminhem em direção oposta."


* * *

26 julho 2014

Espíritos que nos acolhem após a morte


Sofri um acidente de moto e morri. 

Vaguei sem rumo por muito tempo por aí, sem ter consciência de que já tinha morrido. 

Era como ser um véu se fizesse presente, o tempo todo me ofuscando a visão. Num primeiro momento tudo fica confuso. A gente acorda num hospital, cheio de aparelhos e muitos médicos e enfermeiros.

Depois estes médicos vão aumentando e uns nos medicam com remédios e outros com imposição das mãos. Uns se mantém alertas a qualquer sinal diferente nos aparelhos aos quais estamos ligados, outros pouco se importam com os sinais emitidos, pois estão equipados com aparelhos nunca antes vistos por um ser vivente.

De repente tudo acaba. 

Os primeiros médicos nos dão como causa perdida e o segundo grupo fica feliz e nos acolhe como a um filho que chega de viagem. 

Tudo é muito tumultuado. Tudo é muito confuso. Nos deixam ali e pedem para outras pessoas de branco, os enfermeiros, cuidarem de nós. Mas, num momento de confusão maior ainda, fugi dali e fui para a rua. Fui pra casa em busca de minha família.

Encontrei todos tristes e pesarosos. Ninguém me ouvia, ninguém me dava atenção, como se alguém ou algum acontecimento mais importante que a minha volta lhes desviasse a atenção. Então, fugi dali também e fui buscar alguém que me explicasse o que aconteceu. 

Nada. Ninguém me dava respostas.

Vaguei muito tempo até que me ajoelhei e pedi com todo o meu coração ajuda a Deus ou a uma força maior. 

Pedi que me ajudassem e que, se eu tivesse feito algo de muito errado, que me perdoassem pois estava arrependido de não ter sido uma boa pessoa, por nunca ter 'perdido' o meu tempo com religião ou com um Deus.

Eu acreditava que existia uma força maior, mas não parava pra pensar se essa força tinha um nome, uma origem. Nunca rezei e achava que acreditar nessa força já era suficiente. Acreditava em Deuses diferentes. Uns ditos e encontrados por amigos em chás, em seitas. Não sabia em que pensar e, na verdade, não chegava à conclusão nenhuma.

Enfim... Depois desse pedido com fé, recebi um presente, fui socorrido pela minha avó Nena.

Quanta felicidade, quanto alívio, já não estava só. Já podia ver uma luz.

Ela, com muita paciência e amor me explicou tudo e facilmente pude entender o que havia acontecido. 

Hoje vivo bem e feliz numa colônia espiritual e além de estudar, já me foram delegadas algumas atribuições como espírito colaborador. 

Agradeço a Deus a cada dia pela oportunidade e pela misericórdia, por ter se apiedado de mim e me mostrado o caminho.

Deixo um beijo caloroso aos meus familiares, às minhasirmãs e à minha mãe querida. Digo que tudo foi e é como tem de ser. Um abraço a todos e que Deus nos abençoe e nos guarde em sua bondade e misericórdia.


Lucas


Data: 02 de fevereiro de 2010
Local : Sorocaba (SP)
Médium : S.A.O.G.





* * *

No século XX, os espíritos procuraram os homens.
Agora, os homens deverão ser os parceiros dos espíritos. Buscar-lhes para a vivência de uma relação mais consciente e educativa.
O “telefone” tilinta daqui para lá, todavia, chega o instante de recebermos também os “chamados” do homem, cujos interesses repousem na transformação de si mesmo.

(Eurípedes Barsanulfo)



* * *

Dica de vídeo: We are all connected - Estamos todos conectados.


Somos todos conectados, com nossos semelhantes biologicamente, com a terra quimicamente, e com o resto do universo atomicamente.

(Neil deGrasse Tyson's)



* * *

Clonagem - Richard Simonetti


1 – Causou sensação a experiência desenvolvida pelo embriologista britânico, Ian Wilmut, que conseguiu obter o clone de uma ovelha, a partir de uma célula extraída de sua mama. O homem está invadindo os domínios de Deus?

Só Deus é capaz de criar a vida. O homem está apenas descobrindo outros caminhos para que ela se manifeste.

2 – Esses experimentos poderão culminar com a clonagem de seres humanos. Representantes de várias religiões opõem-se enfaticamente. O que tem a dizer o Espiritismo?

Allan Kardec deixou bem claro que o Espiritismo caminharia com a Ciência. Não há por que opor-se às suas conquistas, porquanto nada é descoberto ou desenvolvido sem o consentimento de Deus. Não raro, grandes avanços científicos contestados, em princípio, pelos teólogos, ocorrem com o concurso dos poderes espirituais que nos governam.

3 – A clonagem não seria uma subversão da ordem divina?

Subversão da ordem divina é criança subnutrida, cidades bombardeadas, atos terroristas, doentes sem tratamento, trabalhadores sem emprego. Subversão da ordem divina será sempre a forma como tratamos as pessoas, não como venham a nascer.

4 – Como acontece a reencarnação na clonagem?

Sabemos que o retorno à carne pode ocorrer de duas formas: reencarnação natural, em que o Espírito é atraído pelo campo vibratório que se forma durante a comunhão sexual; e reencarnação planejada, em que há a ação de mentores espirituais. Podemos dizer, segundo esse princípio, que a clonagem inviabiliza a reencarnação natural, já que nela não ocorre o acasalamento.

5 – Então, Dolly desencarnada, ou o princípio espiritual que a anima, teria sido conduzida à vida física por cientistas do Além, interessados em prestigiar a experiência?

Creio que toda clonagem bem-sucedida será sempre o resultado desse concurso, já que não se trata de uma reencarnação natural. Oportuno destacar que Wilmut tentou a clonagem com cento e cinqüenta e seis células. Somente uma desenvolveu-se, dando origem a Dolly, talvez porque, dentre outros fatores, somente ela contou com a indispensável presença de uma "alma", o princípio espiritual conduzido por técnicos do Além.

6 – Em se tratando da clonagem de seres humanos, teríamos um xerox de gente, absolutamente igual?

Fisicamente, sim. Quanto à sua personalidade, caráter, inteligência, índole, e tudo o que distingue um ser humano de outro, seria, invariavelmente, diferente, guardando conformidade com o estágio evolutivo e a maneira de ser do Espírito reencarnante.

7 – É assustador imaginar alguém filho de si mesmo, sob o ponto de vista biológico, alguém sem pai e mãe…

Esse ser humano não se apresentará como mera peça de laboratório. Será uma criança igual às demais, frágil e dependente, a exigir o concurso de pessoas que cuidem dela. Terá pais adotivos, sem nenhuma perda no relacionamento familiar. A afetividade é decorrente da convivência, não do sangue. Qualquer pessoa que adotou uma criança sabe disso.

8 – Não há o risco de abusos que serão cometidos por gente inescrupulosa, disposta a tirar proveito das técnicas de clonagem?

Isso é típico da natureza humana. Liberou-se o átomo e fizeram bombas atômicas; criou-se a microbiologia e vieram as armas bacteriológicas; inventou-se o avião e surgiram os bombardeios. Mas o saldo é sempre favorável, pelos benefícios que os avanços científicos promovem. O mesmo acontecerá com a clonagem, algo assustador hoje, mas que será prática rotineira nos séculos futuros, atendendo a cuidadoso planejamento que envolverá Espíritos encarnados e desencarnados.

Ainda a Clonagem

1 – Se vários indivíduos nascem de células de um mesmo organismo, absolutamente iguais, como fica o carma de cada um, envolvendo as condições físicas e intelectuais?

Gêmeos univitelinos, que nasceram de um mesmo óvulo, são absolutamente iguais. Não obstante, ao longo da existência apresentam diferenças marcantes na maneira de ser, na personalidade, na inteligência, no caráter, e também no tocante à saúde. Haverá o mais frágil, bem como o mais suscetível a doenças graves. Aqui entra a condição espiritual e o carma. Algo semelhante ocorrerá com os clones, na citada condição.

2 – Há alguma relação entre a gênesis bíblica, quando Jeová tirou uma costela de Adão para criar Eva, e os clones?

Temos a fantasia transformada em realidade. Adão e Eva são figuras mitológicas que simbolizaram a Criação e anteciparam o futuro. E há uma diferença fundamental, que já comentamos: o cientista não cria nada. Apenas faz reproduções.

3 – No filme "Os Meninos do Brasil", cientistas querem reproduzir Hitler, a partir da clonagem de células preservadas . Procuram até criar mais ou menos as mesmas circunstâncias e experiências por que passou o ditador na infância, moldando-lhe a personalidade. Isso é possível?

Para que isso ocorresse seria necessário que os Espíritos que encarnam em clones fossem absolutamente iguais ao doador, o que é impossível. Cada Espírito tem a sua "impressão digital", as peculiaridades que o distinguem.

4 – Imaginemos que o próprio Hitler reencarnasse nessa clonagem. O mesmo Espírito, num corpo absolutamente igual, produziria os mesmos estragos?

Impossível, por vários fatores. Seriam diferentes as circunstâncias, a época, as experiências pessoais, a convivência. Sobretudo, haveria a carga cármica extremamente pesada, que certamente lhe imporia sérias limitações físicas e intelectuais.

5 – Um projeto dessa natureza não poderia favorecer uma imortalidade física? Sempre que o indivíduo falecesse uma célula preservada seria aproveitada para imediata reencarnação do próprio…

Isso talvez fosse possível a um Espírito muito evoluído, capaz de sobrepor-se às dificuldades e problemas que envolvem a morte e o nascimento. Mas, em tal estágio, ele não teria nenhum interesse em perenizar a permanência na carne. Estaria "noutra", como dizem os jovens.

6 – Uma senhora demonstra grande interesse na clonagem do filho que pereceu num acidente. Não seria possível, assim, tê-lo de retorno?

Em teoria, sim. Na prática seria complicada uma experiência dessa natureza. Prevaleceria, não a vontade da mãe, mas o livre-arbítrio do filho, bem como sua vinculação a outros compromissos e necessidades.

7 – A clonagem de seres humanos é fascinante, mas ao mesmo tempo envolve problemas e dúvidas. Não seria melhor deixar para o futuro, quando o Homem souber lidar melhor com o assunto?

Não se pode deter a Ciência. A busca de conhecimento é característica fundamental do Homem, ainda que muitas vezes proceda como um aprendiz de feiticeiro, sem domínio sobre suas próprias conquistas, em virtude de seu subdesenvolvimento moral.

8 – A clonagem será disseminada no futuro?

A Ciência aprenderá a lidar melhor com as técnicas que envolvem a clonagem, tornando-a mais simples e segura. 
Quanto à sua disseminação, dependerá dos programas da Espiritualidade. Como já comentamos, parece-nos que não há clonagem sem o concurso de especialistas do Além.


(Do livro: "Reencarnação: Tudo o que você precisa Saber" - Richard Simonetti)





* * *

22 julho 2014


Homem, estrela, água, nuvem, todos obedecem a mesma lei da harmonia universal. 
Sem diferença entre um acontecimento e uma estação, entre a natureza e o destino, entre a realidade e a abstração, entre o transitório e o eterno. 
Diante do infinito, tudo é zero, na unidade da sombra. E nessa unidade está o bem.

(Victor Hugo - Os Trabalhadores do Mar)


*  *  *

Correnteza - Djavan



A delicadeza e a emoção em cada nota...


*  *  *

Simples assim...


O soldado de duas guerras


Havia um soldado patriota, corajoso, valente e muito bem treinado para atos de guerra e pronto para lutar por seu país.

Declarada a guerra, fora destacado, então na condição de oficial da infantaria, para comandar uma patrulha em sítio inimigo.

A patrulha fora surpreendida pelo inimigo, de modo que houve embate terrível, com mortes de ambos os lados. 

O comandante destemido, valente, corajoso e patriota, revelou-se firme no aniquilamento dos soldados inimigos, visto que a matança estava legitimada pela declaração de estado de guerra.

A guerra, o uso de armas letais, a violência, a matança e o aniquilamento do adversário tudo estava justificado no motivo da declaração formal de guerra.

Bastaria um armistício para que o estado de beligerância, autorizado, cessasse. Sem armistício a matança, de ambos os lados, era legítima e até desejada por orações da população de cada país.

Por todos os atos de guerra, violência, aniquilamento, matança, aprisionamento, tortura, humilhação os matadores seriam homenageados, condecorados, aplaudidos e erigidos à categoria de heróis.

As cenas descritas no episódio exemplificativo representam, nesta narração, uma vida, passada em um momento em que governantes de dois ou mais países legitimaram os atos mais terríveis de morte, em nome da paz e do amor, por certo contrários aos ensinamentos do Mestre Jesus, embora com utilização de seu Santo Nome.

Descrevam-se, agora, outras cenas, entre os mesmos povos os quais, terminada a primeira guerra, tempos depois, outra fora declarada, com os mesmos resultados de legitimação de atos terríveis à natureza humana.

Novos soldados foram convocados, mas também se convocaram os veteranos e oficiais da reserva das forças de cada país. Os veteranos foram convocados porque experientes em matar, conheciam todos os procedimentos que poderiam ser ensinados aos novos.

Ocorre que, dentre os veteranos, encontrava-se aquele Oficial destemido, corajoso, matador e adequado para comandar as tropas novas.

Mas ele, mais velho e mais reflexivo, evoluira moralmente e decidiu, de livre vontade, não participar da segunda guerra na condição de soldado.

Manifestou o desejo de participar na qualidade de socorrista, de pessoa que busca amainar o sofrimento do próximo, de permanecer ao lado de quem sofre as conseqüências da guerra sem se importar o lado ou a cor da farda de cada vítima.

Declarara que desejava participar da guerra, mas em favor de ambos os lados, porque os soldados, inimigos entre si, na verdade eram considerados irmãos e como tal deveriam ser reconhecidos e amparados nas aflições, nas agruras, no sofrimento e na dor.

A opção causou grande transtorno na rigidez de normas militares e, porque era algo pessoal, uma condição fora imposta: poderia o desejoso retornar ao campo de batalha, não mais ornamentado como soldado bem treinado, corpo perfeito e pronto para a guerra.

Retornaria sim, mas em outras condições, ou seja, com uma das mãos decepadas e uma perna amputada e roupa de tecido de má qualidade.

O soldado aceitou a condição e assumiu toda a responsabilidade de seus atos e assim o fez porque estava certo de que evoluíra moralmente e, ainda que mutilado e mal trajado, estava pronto para resgatar, para expiar o mal que fizera em nome da legitimidade da guerra; cumpriria outra missão, desta feita em nome do amor, da paz, da solidariedade humana.

Sua participação na guerra teria como fundamento os ensinamentos de Jesus e estava pronto para servir a ambos os lados, isto é a todos os irmãos soldados.

Com bastante dificuldade, por lhe faltar uma das pernas, claudicava apoiado em muletas e, com dificuldade maior, portava o que fosse possível para socorrer os aflitos, os feridos, os desamparados e quem, mesmo sem participar da batalha, por esta eram atingidos.

Fez vibrar, com rigor, suas armas: o amor, a piedade, a solidariedade, as lágrimas e orações nos últimos suspiros dos que desencarnavam. Fora um iluminado, um batalhador incansável na aplicação do amor e da estima ao próximo.

Serviu de referência a todos, porque a todos servira, sem se importar de que cor era a bandeira do soldado ou em que solo estava a pisar.

Quando surgia em um sítio, arrastando-se é certo, muitos ponderavam o porquê de alguém tão piedoso, tão bom, tão puro e determinado ao bem, tudo fazia sem uma das mãos e sem uma das pernas, enquanto outros, perfeitos, somente faziam o mal.

Houve mesmo quem, desacorçoado da vida, naquela guerra infeliz, ponderara a respeito de onde estava Deus, para permitir tamanha injustiça a uma pessoa tão pura.

Por certo todas essas pessoas desconheciam os acontecimentos da primeira guerra, onde a então magnânima pessoa figurou como terrível soldado, perfeito matador em nome da legalidade.

O inconformismo com o sofrimento injusto, para eles, do socorrista provocava debates e explicações as mais diferentes.

Certo dia, no auge das discussões, um enfermeiro ouvia tudo e nada dizia até que lhe endereçaram uma pergunta a respeito do porquê daquela injusta situação de uma pessoa tão boa.

Pessoa que a qualquer momento poderia ser morta, já que não portava arma, enquanto outros, maldosos poderiam ser salvos.

O enfermeiro, em poucas palavras, quase que sussurrando, disse o seguinte: – A explicação é simples e leva o nome de reencarnação.

E prosseguiu: – Por meio da reencarnação, espíritos corajosos se propõem ao resgate, ou à expiação ou mesmo ao cumprimento de uma missão, por causas anteriores as quais, quando aconteceram, poderiam até parecer legítimas, por causa da insuficiente evolução moral dos participantes.


(Aclibes Burgarelli)







*  *  *


19 julho 2014

Rubem Alves, uma estrela no céu...


As pessoas não morrem, ficam encantadas!

(Guimarães Rosa)



* * *

Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.


(Rubem Alves)

*  *  *


A vida é para nós o que concebemos dela.
Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império.
Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo.
O pobre possui um império; o grande possui um campo.
Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

(Fernando Pessoa)


*  *  *

18 julho 2014

A Revolução da Bondade


Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade.

Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos.

Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate.

Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos.

Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa.

Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática ação perniciosa contra o resto da humanidade.

Nem é preciso dar-lhes nomes.


(José Saramago, in " Folha de S. Paulo, Outubro 1995")


*  *  *







Um pouco de Rubem Alves...


16 julho 2014

A noiva da cidade - Francis Hime



A prece não é um pedido, é um anseio da alma. 
É admitir diariamente as suas fraquezas. 
É melhor possuir um coração sem palavras em meio à prece, do que palavras sem coração.

(Mahatma Gandhi)


*  *  *


Um pouco de Hermann Hesse...


Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. 

Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo (...).

O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz. 

A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza. 

Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente. Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer. 

A felicidade é amor, só isto. Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito. Mas amar e desejar não é a mesma coisa. 

O amor é o desejo que atingiu a sabedoria. 
O amor não quer possuir. 
O amor quer somente amar.


(Hermann Hesse)


*  *  *

14 julho 2014

Uma carta de amor


Extraída do excelente livro "Cartas do Front", de Andrew Carroll.

*  *  *

Para ex-prisioneiros de guerra que estão prestes a se reencontrar com suas esposas ou noivas, saber que suas amadas permaneceram fieis a eles, às vezes por anos a fio, apenas aumentava o sentimento de felicidade.

Era justamente a perspectiva desses reencontros que dava a muitos prisioneiros a força necessária para suportar a provação física e mental, à qual muitas vezes parecia impossível sobreviver.

Homer James Colman, um soldado norte-americano de Salt Lake City, Utah, servindo no 57º Regimento de Infantaria, passou quase três anos como prisioneiro de guerra depois que as tropas norte-americanas entregaram as Filipinas aos japoneses em maio de 1942.

Depois de cinco meses de combate brutal, Colman e 10 mil outros prisioneiros aliados foram obrigados a participar da infame Marcha da Morte de Bataan, uma caminhada de 100 quilômetros sob o calor tropical, sem comida, água ou remédios, o que se provou fatal para muitos soldados já doentes e famintos.

Antes de embarcar para o Pacífico, em maio de 1941, Colman ficara noivo de Mary Parkman, uma jovem de Columbus, Geórgia.

Eles só voltaram a se ver na primavera de 1945.

A salvo e de volta aos EUA, Colman, que convalescia no Hospital Militar Walter Reed em Bethesda, Maryland (ele perdera quase metade de seu peso enquanto estivera prisioneiro), enviou à sua noiva a seguinte carta reafirmando a ela seu amor e sua devoção:

*

Minha querida Mary,


Levarei mais ou menos um dia para terminar esta carta que te escrevo.

Provavelmente, será a última carta que escreverei a Mary Parkman. Embora ela jamais deixe de ser minha namorada, a próxima vez que eu escrever, a destinatária será Mary Colman, minha mulher.

Adeus, Mary Parkman. Foste a mais fiel e adorável namorada, que, ao longo de tanto tempo, esperou sozinha, por horas, semanas e anos de incerteza por um soldado que a deixou com lágrimas nos olhos.

Foste uma das milhares de bravas mulheres que fizeram o mesmo nestes últimos quatro terríveis anos e que, a menos que a população mundial mude sua natureza da noite para o dia, continuarão vendo seus homens partirem para lutar uns contra os outros.

Mas eu tive sorte e tinha tuas preces para me trazer de volta para casa.

Eu poderia passar o resto de minha vida a dizer-te o quanto significavas para mim, durante aquelas longas noites de espera, e, no entanto, jamais seria capaz de descrever esse quadro com exatidão; as noites e os dias em que tu eras minha única razão para viver e por quem voltar, e o preciso momento em que percebi, em São Francisco, que poderia voltar a falar contigo de verdade.

Então veio a percepção que eu a veria em breve, não em um ou dois anos, mas em poucas e curtas semanas, quando te teria em meus braços e te beijaria, e sentiria o perfume de teus cabelos, e tudo o que és estaria ali.
Esses sentimentos que antes foram meus sonhos mais agradáveis agora são realidade.

E meu coração esta repleto de gratidão, não por ter regressado, mas por ter, ao voltar, te encontrado à minha espera. Só isso compensa milhares de vezes tudo o que por ventura te ofereci.

Pois todo o meu coração e todo o meu amor são teus, foram e continuarão a ser enquanto nós dois vivermos. Deus me dê a força e o poder para te fazer feliz.

E seu eu for capaz de te trazer a paz e a felicidade que quero que tenhas, então também serei feliz, pois não mais seremos apenas Mary Parkman e Jim Colman – duas pessoas distintas. Pois tu serás eu, e eu serei tu, e haverá apenas um onde antes haviam dois.

Então, nesta última carta à minha noiva, como estará em toda e qualquer carta à minha esposa, veja e encontre todo o amor que há aqui para ti. E talvez possas ver em alguma parte a vida a dois que será a tua e a minha e a de nossos filhos.

Uma vida que será cheia de ternura, compreensão e amor, e desse particular pedaço de felicidade pelo qual nós dois lutamos tanto tempo para possuir.

Boa noite, querida.

Para sempre, teu

Jim



Uma semana depois os dois se casaram na capela do hospital Walter Reed.



(in Cartas do Front, Andrew Carroll. Ed. Zahar)


*  *  *


Fonte: 

12 julho 2014

Sobre a influência espiritual


Nós, almas do outro lado da vida, não temos o direito de interferir no livre-arbítrio dos encarnados.

Somos sim orientadores, podemos aconselhar e inspirar, transmitindo idéias salutares e voltadas à prática do bem e da evolução.

Espíritos de diversas ordens povoam o orbe terreno e estão a nos influenciar todos os instantes, em maior ou menor grau.

Os mais sensíveis percebem claramente as intenções e conseguem separar o que é luz e o que é treva. Mas a maior parte da população nem imagina o que os envolve, em atitudes, pensamentos e tomada de decisões.

Importante manter o padrão vibratório elevado para que a sintonia psíquica individual busque as frequências mais benéficas. 

Ao contrário, somos envoltos por pensamentos de angústia, depressão, vícios e revolta, que nada contribuem para nossa ascensão e bem viver.

Atentem para as ideias que brotam em nossa mente. Muitas delas são fruto do descuido e da invigilância, portas abertas para más companhias espirituais.

Os mentores não determinam nossas tarefas, muito menos nos ordenam a cumprir determinada atividade. O Alto respeita nossas escolhas, que são consequência de quem somos verdadeiramente. 

Ao trilharmos caminho turvo, os guias nos mostram as possibilidades, aconselham de maneira aberta e clara. Cabe a cada um definir qual estrada irá seguir.

Que a elevação da alma se inicie nos pensamentos, irradiando em nossas palavras e atitudes cotidianas.


(Orientação EspiritualPai Josefino de Aruanda,13/08/2013.)

(Mensagem psicografada pela médium Julia Jenska)


*  *  *






Dica de livro: “Vozes Esquecidas da Primeira Guerra Mundial” - Max Arthur


Uma nova história contada por homens e mulheres que vivenciaram o primeiro grande conflito do século XX A Primeira Guerra Mundial é um dos episódios mais marcantes na história da Humanidade.

Imagine esse conflito narrado não por um estudioso, mas pelas pessoas que o vivenciaram e sofreram durante muitos anos.

Tais relatos estão contidos em Vozes Esquecidas da Primeira Guerra Mundial, de Max Arthur, em associação com o Museu Imperial de Guerra britânico.

A idéia do livro surgiu em 1972, quando acadêmicos e arquivistas do museu começaram a procurar homens e mulheres que tinham sobrevivido à Primeira Guerra Mundial.

Vozes Esquecidas traz depoimentos dessas pessoas e de veteranos que lutaram por seus países.

O livro, com introdução de Sir Martin Gilbert, apresenta depoimentos de todos os tipos de cidadãos: soldados, costureiras, estudantes, políticos, dentre outros, e muitas fotos. Os capítulos estão divididos pelos anos da guerra (1914-1918).

É curioso e angustiante notar a diferença dos relatos do começo e do fim do livro: antes, esperança e certeza de um conflito rápido; depois, medo e incerteza quanto à sua duração.

Ed. Bertrand Brasil.


*  *  *


Eis alguns trechos do livro:


Os ratos costumavam roer nossa ração à noite. Furavam qualquer coisa em que a acondicionássemos, a menos que fosse em um recipiente de metal. Mas os ataques de gás acabaram com eles. Certa vez, vimos dúzias e dúzias se arrastando de barriga pelo chão. Enfiávamos a ponta do pé embaixo deles e os jogávamos para dentro da vala. Apesar do gás, dois cisnes viviam na vala e subiram no parapeito sem aparentar nenhuma seqüela.

(artilheiro Leonard Ounsworth, 124ª. Bateria de Campanha Pesada)

*

Os franceses tiravam as camisetas à noite e passavam a bainha perto da chama da vela que tínhamos nos abrigos, o que produzia uma série de estalidos. Matavam os piolhos assim e os tiravam da camisa. Achamos muito divertido vê-los fazer isso; estávamos livres de pragas a essa altura e não sabíamos o que eram piolhos. Na manhã seguinte, porém, estávamos cheios deles. Ficamos infestados de piolhos e passamos a ter a mesma distração dos franceses em seu problema com essa praga.

(soldado Murray, da 2ª. Divisão americana)


Estávamos recebendo novos recrutas de Londres, e certo dia nos enviaram dois jovens, entre 16 e 17 anos. Fazia apenas duas semanas que estavam conosco quando, de repente, tivemos de fazer um ataque.

Os dois jovens, quando souberam que faríamos esse ataque, caíram literalmente em choro convulsivo. (...) Quando nos lançamos ao ataque, nós os perdemos de vista, mas o fato é que eles já haviam debandado e foram pegos pela polícia militar a cerca de 4 ou 5 quilômetros de onde os combates estavam sendo travados.

Os dois jovens foram trazidos e postos bem no fim da formação, perto do oficial. Seus quepes foram tirados, e todas as insígnias do regimento foram arrancadas. (...)

Como os dois jovens haviam sido do meu pelotão, decidimos fazer um sorteio. Aqueles que fossem sorteados –quatro deles—sabiam o que teriam de fazer às 8h da manhã seguinte.

Na manhã seguinte, os dois jovens foram levados para um pátio vendados. Cada um dos quatro homens do meu pelotão que iriam fuzilá-los recebeu suas balas. Divididos em dois pares, disseram-lhes que cada qual deveria atirar em um dos rapazes. Um teria de atirar na cabeça, outro no coração. Portanto, tudo indicava que seriam mortos instantaneamente, como de fato foram.

(soldado William Holmes, 12º. Batalhão, Regimento de Londres)



*  *  *



A mulher de Lot


Ao que parece olhei para trás por curiosidade.
Mas, para além de curiosidade, podia ter outras razões.
Olhei para trás com pena da malga de prata.
Por distração – ao atar a correia da sandália.
Para não ver mais os ombros justiceiros
do meu marido, Lot.
Com a certeza repentina de que, se eu morresse,
ele não se dignaria parar.
Com a desobediência dos humildes.
Ao escutar se alguém vinha atrás de nós.
Afetada pelo silêncio, na esperança de que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas afastavam-se já para além da colina.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A inutilidade da caminhada. A sonolência.
Olhei para trás ao pousar a trouxa no chão.
Olhei para trás receosa sem saber onde pôr o pé.
No meu caminho atravessaram-se cobras,
aranhas, ratos do campo e filhotes de abutre.
Já não eram nem bons nem maus – porque tudo o que estava vivo,
rastejava e pulava num alvoroço gregário.
Olhei para trás por solidão.
Com vergonha de fugir às escondidas.
Com vontade de gritar e regressar.
Ou terá sido somente quando se ergueu um pé-de-vento
que me soltou o cabelo e levantou o vestido,
ficando eu com a sensação de que atrás das muralhas de Sodoma
toda a gente estava a ver e desatara a rir às gargalhadas.
Olhei para trás cheia de raiva.
Para me saciar com a sua imensa destruição.
Olhei para trás por todos os motivos atrás invocados.
Olhei para trás sem querer.
Foi um pedregulho que se virou, rangendo sob os meus pés.
Foi uma fenda que de repente me cortou o caminho.
Na borda um hamster vacilava agarrando-se com duas patinhas.
E foi então que ambos olhámos para trás.
Não. Não. Eu continuei a correr,
rastejando e levantando voo,
enquanto as trevas não desabaram do céu
e, com elas, uma gravilha escaldante e pássaros mortos.
Com falta de ar, dei várias voltas.
Quem o visse, diria que eu estava a dançar.
Não é de excluir que tivesse os olhos abertos.
É possível que tivesse caído com o rosto virado para a cidade.


(de Wislawa Szymborska, na tradução de Regina Przybycien)



*  *  *