"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

19 julho 2010

Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

Fantasias...







Anjos & Demonios









18 julho 2010

Imperfeita...



Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo.
Com menos altivez.
E mais atento.

(Hilda Hilst)

O amor que não tive...



[...]Que saudade é essa
Do amor que eu não tive
Por que é que te sinto se nunca te vi
Será que são lembranças
De um tempo esquecido
Ou serão previsões
De te ver por aqui... então vem!
Me desvenda esse amor
Que me faz renascer.
Faz do sonho algo lindo
Que me faça viver.
Diz se fiz com os céus algum trato
Esclarece esse fato
E me faz compreender.
Esse beijo, esse abraço na imaginação
E descobre o que guardo pra ti
No meu coração
Mas deixa eu sonhar, deixa eu te ver.
Vem e me diz: quem é você ..."

Amando um poeta...




“Amar um poeta nem sempre é fácil,
devemos saber separar o que é nosso
do que é para nós...
Devemos lembrar que seu coração é dividido,
entre o amor por nós e o seu sonho de amor.
Devemos aceitar seu olhar para a lua,
seus desejos pelo impossível,
suas lembranças de algo que nunca viveu...
Para amar um poeta,
é preciso que estejamos atentos
aos seus devaneios e às suas viagens imaginárias...
O poeta sente dor que não dói,
ama o que não conhece,
sente saudade do que nunca teve,
inventa sentimentos,
comete loucuras!
Se quer amar um poeta,
seja poeta também,
entre no seu mundo; ajude-o criar ilusões!
Se deseja entender um poeta,
esqueça do real,
viva na eternidade dos sonhos dele...”

Meu templo...



“Minha casa é o meu corpo e onde ando me carrego perto, como a uma mochila arrumada por dentro.
E se a casa faltar, há a alma, há o pensamento, que é o templo anterior à casa, o andar subterrâneo, o lar antigo e primeiro.
Porque quando regresso,a casa sempre outra e eu estrangeira em mim, ainda que confortável com meus pés pequenos e meus cabelos revoltos.
A leveza que persegui, como o inquisidor à feiticeira medieval, vem chegando em vento morno, espalhando-se em meu rosto,no momento em que deixei de procura-la.
E esse rosto é o resultado de eras, de luas, de rituais, de véus, de massa de modelar e de giz de cera em papel branco.
Eu me escrevi. Me colori de azuis, amarelos e lilazes, e já não me consome o desajuste.
O cru e o lapidado me habitam e soam como musica aos meus ouvidos e chiado aos ouvidos alheios. Jamais estive tão amparada quando hoje.
Aceitei a doçura da vertigem e aprendi a caminhar quando o equilíbrio se vai. O equilíbrio não é o que parece.
Desvesti a loucura e a solidão como roupas que deixam de servir no corpo que cresceu. Abandonei certezas profundas que me amarravam a um vazio.
Ando nua pelos corredores das minhas casas. E me encontro luz.”

O inevitável...



"Senhor, tu sabes que estou envelhecendo.
Ajuda-me a pensar que não sou uma peça imprestável, no movimento da vida.
Reconheço que não tenho mais as mesmas capacidades físicas, 
que me animaram a juventude, nem os mesmos reflexos e disposição. 
Contudo, auxilia-me a não desanimar, e muito menos pedir 
aposentadoria indevida das lides do mundo.
Não me deixes emurchecer, como flor queimada pelo sol.
Não permitas que eu tenha a idéia fixa de falar de mim o tempo todo.
Impede-me de repetir detalhes infindáveis. 
Dá-me rapidez para que eu seja objetivo. 
Fecha a minha boca quando eu estiver propenso 
a falar de minhas dores e de meus sofrimentos. 
Eles estão aumentando com o passar dos anos,
e meu desejo de falar deles aumenta a cada dia.
Ensina-me a dialogar, sem me fazer  excessivamente falador,
a fim de não causar  indisposição nos demais.
Não me permitas conceber limitações desnecessárias.
Coloca as minhas mãos no trabalho a fim de que eu elabore 
ainda criações no campo da música,
da pintura, da jardinagem, da  cerâmica.
Ensina-me a melhor ocupação para o tempo que disponho.
Um tempo que, desde os dias da  juventude, reclamava não ter.
Permita que eu me levante a cada dia disposto a aprender alguma coisa mais. 
Pode ser uma  forma diferente de usar o pincel, uma breve poesia, 
um ensinamento, uma receita surpreendente.
Desejo ser jovial sem parecer tolo e imprudente. 
Torna-me solícito mas não abelhudo. Prestativo, mas não dominador.
Desejo ser um avô que possa contribuir  com a educação dos meus netos
e não os deseducar, com a única finalidade de que apreciem sair comigo, 
nas tardes de primavera.
Ensina-me, ainda, a gloriosa lição de que, às vezes, posso estar errado. 
Aprendi muito, guardo experiências preciosas, 
mas não tenho o direito de desprezar os avanços da modernidade e da ciência.
Depois de ter adquirido uma enorme bagagem de sabedoria e experiência, 
parece uma pena eu não poder usá-la  totalmente,
sem criar embaraços aos demais.
Não me permitas secar a fonte das lágrimas. Precisarei delas, com certeza,
nas horas de tristeza, para desafogar o coração cansado. 
Entretanto, não me deixes tornar um ser melancólico e chorão.
Permite-me gozar do calor do sol e da bênção da chuva, 
com o mesmo entusiasmo de sempre.

Senhor, o meu desejo final é ter sempre alguns amigos.
Esses seres abençoados que, no mar imenso da vida, 
qual jangada preciosa, remaram firmemente ao meu lado. 
Muitos deles poderão partir antes de mim, mas permite que alguns permaneçam
a fim de que nunca desapareça de vista a expectativa das suas presenças. 
Enfim Senhor, torna-me um ancião nobre, 
que demonstre a sabedoria do envelhecimento digno. 
Se a dependência física se tornar necessária, 
ajuda-me, a ter paciência comigo mesmo, 
suportando o corpo que tanto me serviu até aqui.
Com ele eu dancei, cantei,  viajei, vivi doçuras, momentos bons e maus. 
Auxilia-me a continuar a amá-lo."

Vocação verdadeira...



"O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto.
O que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou tempo, ficar longe, ou no morro; o que sobretudo pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro – esse não é médico, é negociante de negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros os gastos da formatura.
Esse é um desgraçado, que manda, para outro, o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vai-vens da vida".

Bezerra de Menezes

Revolte-se...



Não se acostume com o que não o faz feliz...
revolte-se se for preciso!
Alague seu coração de esperanças...
mas não deixe que ele se afogue nelas!
Se achar que precisa voltar... volte!
Se perceber que precisa seguir... siga!
Se estiver tudo errado... comece novamente!
Se estiver tudo certo... continue!
Se sentir saudades... mate-a!
Se perder um amor... não se perca!
Se achá-lo... segure-o!
Circunda-te de rosas...
Ame... Beba... Ria...
O mais é nada!“
(Fernando Pessoa)