"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

04 abril 2012

Dica de livro: " “O Casaco de Marx” - de Peter Stallybrass



Nossas roupas estão impregnadas de memória.

Um grande exemplo do valor simbólico que as peças de roupa possuem é no momento da morte de um ente querido.

Para muitas pessoas, encarar o guarda-roupa de alguém que morreu é algo difícil e doloroso.

Cada um tem a sua forma de lidar com a dor.

Naquele momento, a roupa traz em si a imagem e o cheiro do seu antigo dono, levando muitas vezes seus parentes próximos ou não quererem entrar em contato com aquelas peças ou, por outro lado, não terem coragem de se desfazê-las.

No interessante livro “O Casaco de Marx - Roupas, memória, dor”, de autoria de Peter Stallybrass, a memória que o casaco carrega e a relação do seu dono com o mesmo acabaram por gerar reflexões sobre consumo, valor dos bens de consumo e a relação deles com as pessoas.

Nele acompanha-se a trajetória que o casaco de Karl Marx descreve, indo e vindo do corpo de seu dono à loja de penhores e é refletida na obra “O Capital”.

Segue um trecho do livro para reflexão...

Recomendo a leitura.

* * *

A vida social das coisas: roupas, memória, dor


Durante os dois últimos anos estive escrevendo sobre roupas.

Na verdade, estive fazendo isso sem mesmo sabê-lo.

Eu não tinha nenhuma idéia de que estava escrevendo sobre roupas a não ser como produto secundário de meu interesse na sexualidade, no colonialismo e na história do estado-nação.

Então, aconteceu algo que mudou minha idéia sobre aquilo que eu estava fazendo.

Eu estava apresentando um trabalho sobre o conceito de indivíduo quando fui literalmente tomado.

Não pude continuar lendo.

Seguiu-se um constrangedor silêncio e comecei a chorar.

Havia um amigo muito próximo sentado perto de mim e ele simplesmente pegou o trabalho de minhas mãos e continuou lendo.

Mais tarde, quando tentei entender o que tinha acontecido, dei-me conta de que, pela primeira vez
desde sua morte, Allon White tinha voltado para mim.

Allon e eu éramos amigos. Nós tínhamos partilhado uma casa e escrito um livro juntos.

Após sua morte, de leucemia, em 1986, sua viúva, Jen, e eu tínhamos, ambos, cada um à sua maneira, tentado lembrar Allon, mas com muito pouco êxito.

Para outros havia memórias ativas, dores ativas.

Para mim havia simplesmente um vazio, uma ausência e algo como uma raiva por causa de minha própria incapacidade de sentir dor e tristeza.

As memórias que eu tinha pareciam sentimentais e pouco reais, bastante desproporcionais
relativamente à eloqüência estridente, amorosa, que tinha sido a eloqüência de Allon.

A única coisa que parecia real para mim era a série de longas conversas que eu tivera com Jen sobre o que fazer com as coisas de Allon que ainda restavam: com o chapéu que ainda estava pousado na estante de seu escritório, um chapéu que ele tinha comprado para esconder a calvície que tinha chegado muito tempo antes das humilhações físicas da quimioterapia; com os seus óculos que estavam ao lado da cama e ainda olhavam para nós.

Para Jen a questão era saber como reordenar a casa, o que fazer com os livros de Allon e com todas as formas pelas quais ele tinha ocupado espaço.

Talvez, pensava ela, a única forma de resolver este problema fosse mudar-se, deixando a casa de uma vez por todas.

Mas, nesse meio tempo, ela doou alguns de seus livros e algumas de suas roupas.

Allon e eu tínhamos sempre trocado roupas, tendo por dois anos partilhado uma casa na qual tudo
era considerado comum, exceto nossa sujeira; só essa, paradoxalmente, parecia irremediavelmente individual e objeto do nojo do outro.

Quando Allon morreu, Jen me deu sua jaqueta de beisebol, coisa que parecia bastante apropriada, uma vez que naquela altura eu tinha me mudado permanentemente para os Estados Unidos.

Mas ela também me deu a jaqueta de Allon que eu mais havia cobiçado.

Ele a tinha comprado numa loja de objetos usados, perto da estação de trem de Brighton e seu mistério era, e é, bastante fácil de descrever.

Ela é feita de um tecido de poliéster com algodão preto e brilhoso e a parte exterior ainda está em bom estado. Mas, interiormente, grande parte do forro está rasgado como se tivesse sido
atacado por gatos raivosos. No interior, a única coisa que resta de sua antiga glória é o rótulo: “Fabricado expressamente para Turndof. Por Di Rossi. Costurado a mão”.

Com muita freqüência, tenho me perguntado se foi a marca que atraiu Allon, na medida em que ele adorava a moda italiana desde sua infância, mas, muito mais provavelmente, foi simplesmente o corte da jaqueta.

De qualquer forma, essa era a jaqueta que eu estava vestindo quando apresentava o meu trabalho sobre o indivíduo, um trabalho que, sob muitos aspectos, era uma tentativa de relembrar Allon.

Mas, em nenhum momento da escrita desse trabalho, a minha invocação foi respondida.

Tal como o trabalho, Allon estava morto. Então, à medida em que comecei a ler, fui habitado por sua presença, fui tomado por ela.

Se eu vestia a jaqueta, Allon me vestia.

Ele estava lá nos puimentos do cotovelo, puimentos que no jargão técnico da costura são chamados de “memória”.

Ele estava lá nas manchas que estavam na parte inferior da jaqueta; ele estava lá no cheiro das
axilas.

Acima de tudo, ele estava lá no cheiro.

Foi assim que comecei a pensar sobre roupas.

Eu lia sobre roupas e falava aos amigos sobre roupas.

Comecei a acreditar que a mágica da roupa está no fato de que ela nos recebe: recebe nosso cheiro, nosso suor; recebe até mesmo nossa forma.

E quando nossos pais, os nossos amigos e os nossos amantes morrem, as roupas ainda ficam lá, penduradas em seus armários, sustentando seus gestos ao mesmo tempo confortadores e aterradores, tocando os vivos com os mortos.

Mas para mim, elas são mais confortadoras que aterradoras, embora eu tivesse sentido ambas as
emoções, pois eu sempre quis ser tocado pelos mortos, eu sempre quis que eles me assombrassem.

Eu tenho até mesmo a esperança de que eles se levantem e me habitem: e eles literalmente nos habitam através dos hábitos que nos legam.

Eu vesti a jaqueta de Allon. Não importa quão gasta estivesse, ela sobreviveu àqueles que a vestiram e, espero, sobreviverá a mim.

Ao pensar nas roupas como modas passageiras, nós expressamos apenas uma meia-verdade.

Os corpos vêm e vão: as roupas que receberam esses corpos sobrevivem. Elas circulam através de lojas de roupas usadas, de brechós e de bazares de caridade.

Ou são passadas de pai para filho, de irmã para irmã, de irmão para irmão, de amante para amante, de amigo para amigo.

As roupas recebem a marca humana.

As jóias duram mais que as roupas e também podem nos comover.

Mas embora elas tenham uma história, elas resistem à história de nossos corpos. Duradouras, elas
ridicularizam nossa mortalidade, imitando-a apenas no arranhão ocasional.

Por outro lado, a comida que, como as jóias, é uma dádiva que nos liga uns aos outros, rapidamente torna-se nós e desaparece.

Tal como a comida, a roupa pode ser moldada por nosso toque; tal como as jóias, ela dura além do momento imediato do consumo. Ela dura, mas é mortal.

Como diz Lear, de forma desaprovadora, a respeito de sua própria mão: “ela cheira à mortalidade”.

É um cheiro que eu adoro.

É o cheiro pelo qual uma criança se apega a seu cobertor, uma peça de roupa, um ursinho de pelúcia, seja lá o que for. Roupa que pode ser colocada na boca, mastigada, qualquer coisa, menos lavada.

Roupa que carrega as marcas do dente, do encardimento, da presença corporal da criança. Roupa que se deteriora: um braço do ursinho que se parte, a bainha que se torna puída.

Roupa que dura e conforta, roupa que, como qualquer criança sabe, é particular.

Certa vez,quando eu estava tomando conta de Anna, a filha de uma amiga, tentei substituir seu cobertor perdido por uma peça de roupa que se parecia exatamente igual àquele cobertor.

Ela, naturalmente, soube imediatamente que se tratava de uma fraude.

E ainda lembro sua cara de desconfiança e desgosto por causa de minha traição.

O cobertor, não importa o quanto ele seja um substituto para ausências e perdas, permanece irrevogavelmente ele mesmo, inclusive quando é transformado pelo toque e pelos lábios e pelos dentes.

(Extraído do livro “O Casaco de Marx” - Peter Stallybrass - Ed. Autêntica)