"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

19 abril 2012

Preso entre dois mundos


Segui em silêncio.
Eu sabia que meu corpo ia ali na frente da procissão.
Bom, pelo menos eu tinha muitos amigos. 
Podia ouvir os pensamentos de alguns deles e pareciam que realmente gostavam de mim.
Fiquei emocionado, mas mantive o equilíbrio.

Fato consumado, flores depositadas sobre a tal da última morada e todos se foram.
E agora, ir para onde?

Sem opção, resolvi voltar para casa. Mesmo sabendo não estar mais "vivo", nada parecia haver mudado. Como morava sozinho, achei que não incomodaria ninguém.

Fui para casa e continuei tocando minha "vidinha". Fiquei em paz e perdi a conta do tempo.
Até que, do nada, comecei a esbarrar de vez em quando com gente e coisas que de repente não estavam mais ali. 
Num piscar de olhos eu podia jurar ter visto ou ouvido alguma coisa. "Será que também existem assombrações para os mortos?", pensei.

Aquilo começou a me incomodar e a me deixar triste. Até que um belo dia uma senhora entrou em minha sala.
Pude notar que estava viva, mas ela olhou diretamente para mim e percebi que podia me ver.

Seus pensamentos eram claros o bastante para eu compreender que ela não queria que eu permanecesse ali. Mentalmente perguntei a ela o que fazer e se podia me ajudar.

Ela então se aproximou de mim e uma suave luz branca me envolveu, ofuscando-me momentaneamente.
Daí em diante tudo mudou. 
Minha humilde casinha se dissipou diante dos meus olhos e me vi dentro de um grande e luxuoso salão.
Meu sítio agora estava dentro de um grande edifício, ou será que o prédio é que estava dentro do meu sítio?

O fato era que o tempo havia passado e meu sítio havia sido engolido pela cidade. 

Estive "cego" em meu mundo particular por tanto tempo que nem sei dizer.

Ao lado da mulher encarnada estavam outras duas senhoras, banhadas de luz e irradiando firmeza e simpatia. Foram elas que me conduziram até aqui e com elas seguirei para o lugar que devia ter ido no dia em que desencarnei.

Boa noite a todos.


Autor: Anônimo
Psicografado por: Cleber P. Campos