"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

20 fevereiro 2023

 


Uma mulher chamada Ana foi renovar a sua carteira de motorista.

Pediram-lhe para informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar.

"O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o funcionário."

 

- Claro que tenho um trabalho", exclamou Ana. "Sou mãe".

 

- "Nós não consideramos 'mãe' um trabalho. Vou colocar Dona de casa", disse o funcionário friamente.

 

Não voltei a lembrar-me desta história até o dia em que me encontrei em situação idêntica ...

 

A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um título sonante.

 

- "Qual é a sua ocupação?" Perguntou.

 

- Não sei o que me fez dizer isto; as palavras simplesmente saltaram-me da boca para fora : 

"Sou Doutora em Desenvolvimento infantil e em Relações Humanas."

 

A funcionária fez uma pausa, a caneta de tinta permanente a apontar para o ar, e olhou-me como quem diz que não ouviu bem...

 

- Eu repeti pausadamente, enfatizando as palavras mais significativas.

 

Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo, com tinta preta, no questionário oficial.

 

Posso perguntar", disse-me ela com novo interesse, "o que faz exatamente?"

 

Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder :

 

- "Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito (dentro e fora de casa). 

Sou responsável por uma equipe (minha família), e já recebi quatro projetos (todas meninas). 

Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher  discorda?) , o grau de exigência é em nível de 14 horas por dia (para não dizer 24  horas).

 

Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de preencher o formulário, se levantou, e pessoalmente me abriu a porta. 

Quando cheguei em casa, com o título da minha carreira erguido, fui recebida pela minha equipe: - uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3. 

Do andar de cima, pude ouvir o meu novo experimento (um bebê de seis meses), testando uma nova tonalidade de voz. 

Senti-me triunfante.

 

Maternidade... que carreira gloriosa! 

Assim, as avós deviam ser chamadas "Doutora-Sênior em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas".

 

As bisavós: "Doutora- Executiva- Sênior". E as tias: "Doutora - Assistente".

 

"Somos do tamanho dos nossos sonhos."

 

(desconheço a autoria) 

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