"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

26 maio 2011

O valor da palavra




Nasci no Brás, em plena Segunda Guerra Mundial.

Era um bairro cinzento, com ruas de paralelepípedos, cortiços, apitos de fábricas, molecada jogando bola e homens que saíam ainda no escuro com a marmita embrulhada em folha de jornal.

Embora meu pai tivesse vindo da Espanha com dois anos e minha mãe fosse filha de portugueses, havia tantos imigrantes na vizinhança que nossa casa era conhecida como "a dos brasileiros".

Os italianos eram maioria e de longe os mais barulhentos; falavam dialetos tão distintos que não conseguiam entender uns aos outros. Aqueles oriundos do norte da Itália, geralmente operários especializados, tratavam com uma ponta de desprezo seus conterrâneos do sul: calabreses, napolitanos e sicilianos.

Para juntar os filhos na hora do almoço, as mães precisavam sair no portão, gritar, xingá-los de miseráveis e ameaçar esganá-los; no jantar, jamais. No fim do dia, mal o pai virava a esquina com a marmita, os meninos largavam a bola e corriam para dentro.

Os homens vestiam roupa escura, mantinham o cenho carregado e um olhar grave que só desanuviava quando se reuniam para beber vinho no armazém da esquina, com os copos dispostos no tampo das barricas de azeitona, ao lado de pilhas de bacalhau salgado e sacos de mantimentos, ou quando recebiam os familiares nos almoços dos domingos, em comemorações musicais que nem sempre acabavam bem.

Naquele tempo, a palavra empenhada valia mais do que papel passado.


Fui criado ouvindo que selar contrato com um fio de barba era a melhor forma de garantir seu cumprimento e que não havia condição humana mais desprezível do que a do homem sem palavra.

Quando cresci, dei-me conta de que, na cidade que se modernizava, a palavra havia perdido o valor em meio a um emaranhado de leis confusas e de ações judiciais intermináveis. Só vinha ao caso o que estivesse registrado em cartório.

Contraditoriamente, assisti à recuperação do valor ético da palavra justamente entre aqueles que a sociedade considera sua escória mais indigna: os ladrões, os traficantes e os assassinos presos nas cadeias.


Na vida fora-da-lei, o respeito que um homem impõe entre seus companheiros é diretamente proporcional à assiduidade com que cumpre promessas feitas e respeita compromissos assumidos.

Enganam-se os que imaginam o mundo dos marginais desprovido de regras de convívio, palco de atos criminosos dirigidos indistintamente contra a sociedade e contra os próprios pares.


Existe um código penal que rege o crime, não escrito, mas rígido, implacável, baseado no respeito à palavra proferida. Infringi-lo implica em punição aplicada com extremo rigor: agressão física, condenação ao ostracismo ou à morte, segundo a gravidade da infração.

Embora não esteja em nenhum livro, tal código prevê todas as situações imagináveis.


Ele não tem a complexidade, nem os pontos controversos, nem a ineficácia do nosso.


Pelo contrário, separa com precisão o certo do errado: entregar uma cesta básica todos os meses para a esposa do companheiro preso ou assumir sozinho a culpa dos parceiros são procedimentos corretos. Assediá-la ou delatá-los está errado. Não há atenuantes; crimes não prescrevem.


É preto no branco.

As penas de morte são executadas prontamente.
Essas leis transmitidas oralmente surgem porque somos primatas sociais. Não há caos que consiga persistir por muito tempo nos agrupamentos humanos.

As leis do crime exaltam os que cumprem a palavra e execram os que mentem, delatam e não pagam dívidas, porque os bandidos não podem usar o sistema legal vigente na sociedade que agridem:
- Se o parceiro fica com minha parte no roubo, posso mover uma
ação de perdas e danos contra ele?

Se lembrarmos que o mundo do crime tem outra face, que não alberga apenas ladrões de rua ou traficantes de favela, mas governantes que roubam dinheiro público, empresários que os corrompem para assinar contratos escandalosos, sonegadores contumazes de impostos e agentes do mercado financeiro que investem os recursos obtidos ilegalmente, entendemos porque políticos e seus corruptores são obedientes às mesmas leis da marginalidade pé-de-chinelo que superlota nossas cadeias.

Por isso, jamais explicam a origem da propina recebida e morrem tesos, mas não entregam os comparsas envolvidos.


Quando, excepcionalmente, algum deles o faz, corre risco de morte ou de cassação dos direitos políticos.

(Drauzio Varella)

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