"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

13 maio 2011

Quando os vínculos adoecem



Estar sem vínculos.

Afinal, o que significa não ter vínculos?

Os animais, seres ainda inferiores aos humanos na escalada evolutiva, não bastasse o instinto que os une, elaboram práticas que reforçam as vinculações nos grupos a que pertencem.

Desse modo, animais de um mesmo grupo, como pode-se observar, diariamente se tocam, das mais variadas formas, como forma de reconhecer seu companheiro, como forma, também, de afeto, enfim, como um modo de reforçar a relação gregária que ali se estabelece.

Eles nunca pensaram sobre isto, sem dúvida, mas, mesmo assim o fazem.

Nas últimas décadas, pois, os seres humanos, criaturas mais avançadas nos critérios evolutivos, e dentro do cenário social, parecem ter abdicado de práticas semelhantes junto a seus familiares, amigos, companheiros de trabalho.

Sim, possuem laços familiares. Sim, possuem algumas amizades e também laços de trabalho.

Entretanto, progressivamente vêem os vínculos afetivos profundos se dissolverem, de forma tão rápida como a névoa se dissipa ao receber os primeiros clarões do Sol.

Quando perguntamos a alguém, então, sobre suas relações, sobre como elas estão, a resposta é sempre simplória e superficial: “estão bem, tudo vai bem”, com os amigos, com os familiares, com os companheiros de trabalho. Uma análise descuidada certamente acreditaria nessas palavras, que quase todos proferem quando são indagados sobre a qualidade de suas relações.

Entretanto, o contexto social em que vivemos nos leva a perceber que essas relações não se encontram tão bem estabelecidas como a maioria das pessoas afirmam estar.

No mundo da fluidez e rapidez da comunicação virtual, onde um indivíduo pode dialogar com vários outros simultaneamente, de forma curta e breve, dedicando sua atenção a todos ao mesmo tempo - ou a nenhum deles -  pode-se afirmar, com mais acerto que o outro que não vejo, ou que apenas visualizo através de uma câmera, se for o caso, se torna descartável, dispensável, substituível.

Torna-se muito fácil deletar alguém de uma lista de amigos; mais fácil ainda perceber que um amigo ou familiar se encontra disponível para conversa, virtualmente, e então fazer de conta que não se está disponível, que se está “ausente”, “offline”, “ocupado” ou tantas outras denominações hoje existentes em programas da informática os quais permitem que um indivíduo dialogue com outros internautas.

Diferente das conexões, os vínculos são de natureza completamente distinta e oposta.

O vínculo une um indivíduo a outro de forma constante, ininterrupta, a fazer com que a interação entre ambos não seja simplesmente uma conversa fortuita, mas uma relação de interesse genuíno entre ambos.

Um e outro se escutam mutuamente.

Sabem calar e ouvir; procuram fazer as perguntas corretas para avaliar se o outro verdadeiramente se encontra bem, afetivamente, profissionalmente, psicologicamente.

Quando um vínculo é estabelecido, energeticamente e emocionalmente estou ligado àquela pessoa, de forma que essa ligação produz contentamento, preocupação com o outro, necessidade de saber como o outro se sente e passa seus dias.

Nada parecido, sem dúvida, àquelas conexões de que falamos, quando, em verdade, apenas interagimos temporariamente com alguém, sem nenhum interesse genuíno.

Estar vinculado, desse modo, traz consigo um atributo essencial desse tipo de relação: a responsabilidade.


Não existe um vínculo afetivo entre dois seres humanos quando não há responsabilidade.

Quando estou vinculado a alguém, torno-me co-participante de seu crescimento, de seu desabrochar como ser humano, como espírito.

Quando me vinculo a alguém estabeleço uma ligação profunda entre o eu e o outro, de forma que já não posso ignorar suas necessidades, seu bem-estar, seus anseios.

Não me torno responsável pela realização e desenvolvimento do outro ser, mas me torno um dos marcos existenciais de sua trajetória.

Em outras palavras, passo a fazer parte permanente do cenário existencial da outra pessoa, uma referência.

Alguém que está ali e que não deixará de estar no dia seguinte, na semana que vem, no próximo ano. Torno-me co-participante de uma empreitada evolutiva e, assim, deixo-me aberto às solicitações possíveis de serem atendidas de minha parte: como amigo, como companheiro, companheira, como irmão, como filho, como mãe, como pai.

Nem sempre, todavia, as atribuições forçosamente impostas pela consangüinidade geram vínculos.

Há pais que não estão vinculados a seus filhos. Há mães que não estão vinculadas aqueles que receberam em seus ventres. Há filhos que não estão vinculados a seus pais. Há famílias em que apenas existem conexões temporárias entre seus membros, de forma que cada um vive sua
vida particular, sem procurar ser participante ativo da vida do outro.

Está sob o mesmo lar, contudo, retirou-se sem avisar das paisagens existenciais do outro.

Está ali, mas, em verdade, não está.

Apresenta-se-lhe fisicamente, entretanto, psiquicamente se encontra bastante distante. Desse modo, muitos indivíduos no nosso mundo contemporâneo apenas mantém conexões e relações formais, instituídas, com os outros – apesar disso, estão desvinculados dessas pessoas. O que se dá muitas vezes, de fato, em inúmeras famílias e grupos sociais, são situações em que os vínculos adoeceram.

O adoecer de um vínculo ocorre quando negligenciamos as necessidades emocionais de compreensão, companheirismo e afeto do outro.

Podemos estar ao seu lado, mas não ouvimos seu mundo interno.

Podemos estar juntos, mas não procuramos adentrar os seus sentimentos e ver como aquela criatura se encontra: se está triste, se está angustiada, ansiosa, preocupada...

Não ouvimos o que está por detrás do sorriso que esconde uma tristeza muito grande, não raras vezes, mas que evita queixar-se com medo de perder a amizade, de ser inconveniente.

Um vínculo adoece, noutros momentos, quando o outro percebe que se faz alguém descartável para nós – quando percebe que apenas estamos com ele, com ela, quando convém.

Quando os vínculos adoecem, por conseguinte, eles dão lugar a sintomas que, em verdade, disfarçam seus verdadeiros motivos.[...]

Nossos vínculos estão doentes.... necessitando de nosso olhar, para então, podermos pensar cuidadosamente e com carinho sobre onde estamos canalizando em demasia nossas energias.

Onde estamos concentrando nossos investimentos psíquicos, de forma a não restarem energias para aqueles que realmente precisam de nós?

Em que, pois, se tem transformado nossas relações afetivas, de fato, em conexões, temporárias, fugazes e desinteressadas, ou em vínculos, perenes, responsáveis?

Cada um de nós sabe, ao olharmos com cuidado para nossas vidas, onde estamos sendo negligentes com as pessoas ao nosso redor, onde poderíamos doar mais nosso afeto e nossas energias.

Cada um de nós sabe qual pessoa está esperando algo de nós, um gesto, uma palavra, uma atitude amiga, uma escuta verdadeira, que saiba adentrar ao campo de experiência do outro, à sua forma de ver e sentir as coisas.

Se você encontra-se envolvido em discussões constantes e intermináveis no seio familiar... Se você encontra-se diante de relacionamentos afetivos onde a hostilidade tem se apresentado com freqüência, torna-se imperioso o teu olhar cuidadoso, paciente e sincero para o que ocorre nesse instante de tua vida.

Um olhar que não veja os argumentos das discussões, mas os sentimentos que estão por detrás deles.

Uma escuta que não perceba as palavras, a razão, mas o coração.

E então você poderá começar a ver com clareza onde o adoecimento está se dando nos teus vínculos. Terá a oportunidade, finalmente, de detectar onde está o ferimento emocional que necessita ser tratado e curado.

(Adriano Oliveira *)

* psicólogo e professor do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal de Santa Maria. Desde 1999, atua como trabalhador da Sociedade Espírita Amor a Jesus, Santa Maria-RS.