"Nós não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais tendo uma experiência humana"

(Teillard de Chardin)

05 maio 2013

Dica de livro: “Crônica de um Despertar - Meu retorno ao Além” , psicografia de Abel Glaser, Espírito Afonso



Sinopse:

Nesta obra acompanhamos o despertar no além de Afonso, mostrando inicialmente os momentos do seu desencarne e depois a sua incredulidade em ter morrido materialmente.
Vemos o sofrimento decorrente desse seu estado de espírito, o abalo das convicções que alimentou durante sua vida terrena, o seu processo de conscientização com respeito a estar vivendo a existência espiritual, a sua aproximação com reuniões mediúnicas e o seu encaminhamento a um dos Postos de Socorro da Cidade Espiritual.
Em seguida, acompanhamos Afonso estagiando na própria Colônia.

*
Com uma linguagem simples e envolvente, vemos o passo a passo do personagem Afonso ao descobrir-se do outro lado da vida e suas surpresas.
  
Abaixo um pequeno trecho do livro para nossa apreciação.



Não sei quanto tempo passei em pé, olhando o meu corpo deitado e acreditando estar sonhando. 
Foram horas — creio. Ali estava, na mesma posição, quando
Elvira entrou no quarto. 
Não conseguiria narrar, por falta de lembrança, as idéias
que tive ao longo do período em que fiquei estático ao lado da cama sem nenhuma manifestação. 
Alegrei-me contudo, porque ela seria a esperança de resolver o meu dilema. Fui ao seu encontro e abracei-a com fervor, entretanto, não
sentiu a minha presença, passando reto por mim. 
É lógico — concluí —, se estava sonhando, Elvira fazia parte disso e não podia verme porque afinal eu estava deitado na cama. 
Ri-me dessa explicação tão óbvia.

O desespero somente começou a tomar conta de mim, de fato, quando minha esposa debruçou-se sobre a cama e deu um carinhoso beijo na face daquele que estava deitado em meu lugar. Sentindo a frieza do seu rosto ela atemorizou-se e acendeu a luz do abajur. Imediatamente pensei que o sonho poderia ser dela e
não meu. 
Se Elvira conseguia fazer funcionar as coisas do quarto, então eu era apenas coadjuvante num sonho que não me pertencia. Essa era a razão pela qual não consegui acender a luz. 
Já estava dando-me por satisfeito quando um grito estridente ecoou pela casa e ela saiu apressada do quarto chamando por meus
filhos.

Senti minhas pernas amortecendo e quase desmaiei, mas nem isso consegui. Que pesadelo infernal estava vivenciando! — imaginei. Jamais iria esquecer daqueles momentos. 
O pensamento de que aquilo poderia ser realidade passou-me pela
mente, é verdade, mas logo o afastei, pois para aceitá-lo teria que admitir também a estúpida idéia de que poderia estar morto. Absurdo! — arrematei, decidido a rejeitar essa idéia de vez. 
Resolvi então ter paciência e aguardar o meu natural despertar. 
Os médicos costumavam dizer que as sensações provocadas pelo
sono eram muitas e algumas delas ainda não totalmente conhecidas, logo, tinha que ficar calmo e racionalmente esperar pelos acontecimentos.
Segundos depois, ingressaram no quarto Elvira e meus dois filhos, Pedro e Marco Aurélio, este último acompanhado de minha nora, Cíntia. 
Todos estavam preocupados e até certo ponto angustiados.
Pedro segurou a mão daquele corpo que estava na cama, sentou-se na beirada e chorou. Elvira sacudia meu outro filho e perguntava-lhe porque aquilo tudo estava acontecendo tão cedo e justamente quando nossa situação financeira era a melhor possível. 

Eu também achei que seria um desperdício alguém morrer
naquela oportunidade e compartilhei do seu sofrimento. 
Quando me voltei para o meu lado esquerdo, percebi que minha nora vasculhava os bolsos do meu paletó e de minha calça. Procurava alguma coisa que eu jamais poderia adivinhar o que
fosse. Ela retornou para Elvira e disse que não tinha encontrado nenhuma receita médica e nem qualquer outro elemento que pudesse indicar alguma consulta. 
Eles estavam achando que eu escondia alguma doença. Bobagem — pensei. Sempre fui muito forte e saudável e nada iria ser descoberto nos meus bolsos que indicasse o contrário.

Enquanto isso, a janela fora aberta e a luz nebulosa do dia ingressara no aposento iluminando tudo. 
Olhei mais uma vez e novamente fitei aquele corpo sobre a
cama. 
Era eu mesmo que ali estava como se o tempo tivesse parado no exato instante em que coloquei as mãos na nuca para sossegar a minha preguiça.
Elvira deixou o quarto em prantos e meu filho Pedro continuava na beirada da cama, cabisbaixo e choroso. Cíntia abraçou Marco Aurélio e levou-o para outro cômodo.
Quis seguir minha esposa mas não conseguia sair de perto do leito. Uma forte atração era exercida sobre mim por aquele corpo gélido e estendido. 
Forcei um desligamento e foi em vão.

*  * *